Vitória Manhatan
Vitória Manhatan, a jecura de Miami e Orlando – de tudo para todos os gostos, mesmo os duvidosos
EMPRESAS & NEGÓCIOS | MEGA INVESTIMENTOS
ARTIGO |
KLEBER FRIZZERA

Na minha opinião, é melhor ficar por aqui;
assim os sonhos não são prejudiciais.
Me sinto segura aqui. o sol nasce; a névoa
se dissipa para revelar
a imensa montanha (Louise Gluck).
No esforço de simular uma inserção estadual em um cenário globalizado, há uma tendência em comparar cidades e projetos locais a referências nacionais e internacionais.
Assim, no Espírito Santo, Anchieta se tornará uma nova Bilbao; Buenos Aires, em Guarapari, terá várias semelhanças com Gramado/RS; Pedra Azul vai virar Campos do Jordão; e, mais recentemente, Vitória, a capital, passou a ser comparada a Manhattan, Nova York.
Sem aprofundar na história de um estado que, até hoje, enfrenta o afastamento, o isolamento e sua marginalização cultural e econômica em relação ao mundo e aos principais estados brasileiros, é importante compreender por que esse tipo de abordagem se tornou tão comum entre os empreendedores e políticos locais.
A explicação principal deve-se à intensa concentração de capital no setor imobiliário, impulsionada por incentivos tributários e projeções otimistas de valorização dos ativos, direcionando elevados investimentos para esse mercado em detrimento de outros setores produtivos.
Notícias e análises jornalísticas destacam os altos valores dos lançamentos recentes, alavancados por fundos imobiliários, e estimulam a aquisição de novas unidades com a expectativa de retornos financeiros expressivos no futuro.
Vale ressaltar que os preços elevados dos imóveis não estão associados aos custos de aquisição dos terrenos e de suas construções, mas sim ao reduzido número de fundos/incorporadores, que inflacionam os preços finais para aumentar seus lucros e para antecipar uma valorização esperada pelos investidores e compradores: 2/3 deles não moram na metrópole.
Enganados ou não pelas opiniões jornalísticas, por imagens de IA e distorcidas comparações com outros destacados lugares, muitos se aceleram em adquirir estes novos empreendimentos, crentes, no futuro, em viver desfrutando paraísos terrestres e/ou auferindo altos rendimentos de suas aquisições.
Trata-se de uma associação do rentismo parasitário da burguesia local com o sonho dourado do estado periférico ser alçado a uma posição exclusiva no circuito da riqueza e dos prazeres internacionais, embalado pelas festas e eventos divulgados e embelezados em rasteiras colunas sociais e vazias redes sociais.
Como outros sonhos locais frustrados, anunciados em outras décadas, Vitória Manhatan – não será Nova York – nem Buenos Aires – nos altos de Guarapari, litoral Sul do ES – atingirá o status turístico de Gramado.
Muito menos, Pedra Azul – na região mais alta de Domingos Martins – com seu ridículo aeroporto se equiparará ao lugar de recreio dos milionários paulistas, Campos do Jordão.
Os ricos locais terão de se contentar com as suas viagens internacionais para aspirar a cultura europeia, para conviver com a jecura de Miami e Orlando ou para circularem anônimos na Times Square.
Kleber Frizzera
nov/25
Kleber Frizzera
Graduado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Minas Gerais (1971) e mestrado em Arquitetura pela Ufes Universidade Federal do ES (1998).
Foi secretário municipal de desenvolvimento da Prefeitura de Vitória/ES (2006/2012) e professor adjunto da Universidade Federal do Espírito Santo ( 1978/2015) – https://www.ufes.br/.
Tem experiência na área de Arquitetura e Urbanismo, com ênfase em Fundamentos de Arquitetura e Urbanismo, atuando principalmente em projetos de arquitetura, arquitetura teoria e crítica, arquitetura áreas centrais, planejamento territorial e renovação urbana.
Vitória Manhatan
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