Renato Fischer | O pesadelo

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O pesadelo

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O pesadelo: Ele saiu da roça mas o Mutum Preto não saiu dele

Capa | Foto do tênis Dolce Gabbana: R$ 9.698,32,00

CRÕNICA |

renato-fischer-a-da-assinatura.jpg 16 de novembro de 2023 40 KB
renato fischer

RENATO FISCHER

Ele saiu da roça mas o Mutum Preto não saiu dele. O comentário era da esposa, que dera muita sorte de tê-lo, sordidamente, convencido a se casar com ela.

Sorte porque o roceiro fez curso superior, ganhava bem e a levava para Paris, Milão, Veneza, Las Vegas e etc.

Levou-a até para conhecer o Lupanar; o original de Pompeia. Não fizeram amor ali porque era hora de visitação pública.

Essa referência preconceituosa vinha em função de sua incapacidade de se vestir.

Era bom para tirar a roupa. Mas na hora de se vestir, não conseguia conjugar as peças e suas cores dentro dos padrões que a hipócrita sociedade da moda chama de “combinar”.

Ele se incomodava com sua ignorância. Por isso se submetia aos pitacos dela, com medo do julgamento dos amigos, principalmente das amigas dela.

Não ficou rico, mas melhorou bem de vida em comparação aos tempos da roca.  Mesmo assim, não tinha mão aberta para qualquer coisa.

Como na hora de comprar roupas. Quando orientado a ter uma calça nova, retrucava que já tinha três e elas não tinham nem 5 anos de uso.

As cores também não eram sua preocupação. Camisa vermelha com calça jeans. Ou a mesma camisa vermelha com calça branca. Por que não?

O Bezerra da Silva não usava? E tinha uma legião de fãs.

Roupas e sapatos eram escolhidos da direita para esquerda. Lembra dos cardápios de restaurantes? Via preco primeiro. Nada de grife.

Ainda mais depois que um amigo do meio da moda, lhe confidenciou que para se fazer uma camisa de qualidade não precisava dispor de um décimo do valor cobrado nos shoppings.

E se colocarem um selo de marca, o valor quintuplica. Passou a ter horror a selos de marcas.

Tinha mais aversão a um jacarezinho do que a uma barata. Nomes como Chanel, Yves Saint Laurent, Dior, Armani, não orbitavam o seu universo.

Para ele, esses nomes queriam lhe colar um atestado de idiota.

Pensa com muita certeza que quem usa Rolex ou Louis Vuitton está carregando esse atestado. Passaram-lhes as pernas.

Tomaram-lhes as fortunas e os colocaram a carregar os atestados de imbecis.

Quis o destino, no entanto, que fosse presenteado com um calçado, tipo sapatênis. Ele nem gostava tanto do tipo.

Mas um amigo, nos Estados Unidos, achou por bem presenteá-lo com aquilo. E o fez com certa cerimônia, como quem entregasse uma relíquia.

Ele não entendeu a deferência e simplesmente guardou o presente na mala.

Desembarcou em Vitória, capital do Espírito Santo, com o presente e o guardou no armário. Que ali ficou por alguns anos.

Até que um dia resolveu experimentá-lo. Viu no clichê da moda que não deveria usar meias, mas os pés não ficaram muito confortáveis sem meias.

Lembrou da esposa que certamente o chamaria a atenção caso aparecesse com os sapatênis e os pés envoltos em alguma meia.

Foi se socorrer exatamente com ela. Do armário dela se apossou de uma meia tipo sapatilha que não aparecia fora do calçado.

Já no guarda roupa dele, procurou por uma camiseta. Encontrou uma que achou bonita e vestiu.

Tinha duas faixas claras na horizontal. Se olhou no espelho e percebeu que a bermuda também era listrada na horizontal.

Não. Essa não. Lembrou que a esposa já o tinha advertido que uma peça listrada não combina com a outra também listrada.

Vestiu outra bermuda. Agora sim, estava combinando.

Outra olhadinha no espelho e lá estavam ainda as etiquetas do fabricante agarradas no colarinho. Nem se lembrava quando tinha ganhado aquilo.

Mas havia algum tempo. Talvez no último Natal. Teve certeza de que fora um presente porque viu estampado no peito, o jacarezinho.

No restaurante, onde foi se encontrar com os amigos, foi elogiado pela beca. Ainda mais quando cruzou as pernas e os amigos foram uníssonos: ostentando, hein! Dolce Gabbana!

Sem entender, perguntou: que tem demais? É um sapatênis. Foi quando lhe falaram que aquele calçado custava perto de 10 mil reais,

Aí a pressão subiu. Escondeu os pés por baixo da mesa. E se os assaltantes sabem disso?

Ao sair de lá escondeu os sapatênis sob a camisa do jacarezinho e foi embora dirigindo descalço. Em casa os levou de volta ao armário.

Mas uma noite se pegou andando calmamente, sozinho, numa rua deserta, calçado com o par de sapatênis. Os Dolce.

Subiu um frio pela coluna. De medo. E se aparece um assaltante? Mal aquele frio se dissipou e ele apertou o passo, sentiu outro frio nas costas.

Desta vez acompanhado de uma pressão pontual no flanco.

E uma voz debochada anunciando:

“perdeu, riquinho! Passa os sapatos”.

Pronto. Os ladrões conhecem Doce Gabbana, se conscientizou horrorizado.

– Pode levar. Me deixe vivo. Imediatamente percebeu um braço em torno do pescoço e uma rasteira. Já estava no chão e o larápio tentando desamarrar os cadarços. Que eram quilométricos, embaraçados num sem número de passadores.

Ato seguinte vê um comparsa chegando com um serrote em punho para adiantar o serviço.

Quando começou a cortar sua canela a dor foi tanta que ele, num pinote, acordou em cima da mulher que dormia ao lado e não entendeu nada do chute que levou.

O pesadelo

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Don Oleari - Editor Chefão

Radialista, Jornalista, Publicitário.
Don Oleari Corporeitcham

Respostas de 2

  1. Caro Renato, suas crônicas são uma delícia de serem lidas. Esta, então, me fez rir de montão pq é um assunto em que me pego pensando de vez em quando. Num mundo de tantas desigualdades, hj existem até profissionais que dão palestras e fazem consultoria sobre mercado de luxo. Acho que o amigo de Mutum Preto não pagaria pelo ingresso. Que, por si só, costuma ser caríssimo. Parabéns!

  2. …e que pesadelo kkk…pior foi que a companheira foi quem “pagou”, levando um xute decorrente da cena. Cronista dusbão, esse prezado parceiro e colégua de tantos anos…