O Mar
O Mar…eu não sei não, discordo do Caymi
CRÔNICA |

RENATO FISCHER
Nao comungo com Dorival Caymi, de que é doce morrer no mar.
Morrer não é doce nem no caldo de cana. No mar está muito mais longe disso. Até porque, no mar, a água é salgada.
Mas o mar é doce de ver, tanto por fora como por dentro. Com muita cerimônia, respeito e sobretudo, conhecimento e cautela.
Como adverte Zé Ramalho, há criaturas que devoram com jeito assombroso os que caem por lá.
Para o ser humano, com sua compleição física e, certamente com carne pouco apetitosa, os riscos de ser devorado são mínimos, embora alguns tubarões, por vezes, descuidadamente, resolvem experimentar.

Ou com ajuda. Fomos levar alimentos para eles.
A mergulhadora caribenha Cristina Zenato foi além. Se meteu a retirar um anzol fisgado na boca de um deles.
Depois apareceram outros com anzóis nas bocas.
Ela diz que desconfia que eles se comunicam, já que após o primeiro caso, começaram a aparecer outros e, depois de 25 anos fazendo isso, guarda um balde com mais de 300 anzóis retirados dos amigos.
Os tubarões, ao contrário da mitologia que se criou, não devem ser encarados como o vilões do mar. Ao contrário, integram a beleza que o mundo submarino oferece.
A quantidade de vidas, com suas cores, formatos, tamanhos e comportamentos, fazem do subaquático um mundo inspirador, belo e extremamente atraente.

Os corais integram outro cenário de beleza inexplicável.
Embora catalogados como do reino animal, aparecem como se fosse uma vegetação cobrindo boa parte das plataformas continentais, onde existem cerca de 6 mil espécies, além dos corais que vivem em águas profundas.
Os perigos do mar não estão em suas criaturas. Mas na nossa falta de guelras e, sobretudo, na pressão ali existente. A cada 10 metros de profundidade mergulhada, somos submetidos a mais uma atmosfera de pressão, suficiente para romper um tímpano ou dilacerar alvéolos dos pulmões em caso de compressão ou descompressão abruptas.
Ou fazer acumular nitrogênio no organismo, sobretudo na corrente sanguínea, que ao ser descomprimido, se expande em bolhas, causando lesões ou obstrução do fluxo sanguíneo, que podem causar morte.
O oxigênio, tão vital, pode ser outro perigo ao se acumular no organismo, em mergulhos profundos, levando a disfunções no sistema nervoso central e/ou lesões pulmonares.
Estes são os grandes perigos do mar. Facilmente evitáveis quando se conhece procedimentos que os evitem, o que se pode aprender em cursos apropriados ministrados por boas escolas de mergulho.
Os bichos raramente são causas de acidentes. Eles podem ser apenas causas de obsessão e dependência psicológica.
Bichos humanos também causam atração, grandes amizades, viagens e congraçamentos dentro do mergulho.
O mar do Espírito Santo, notadamente na costa de Guarapari, foi declarado como Capital Nacional da Biodiversidade Marinha. Não à toa. Temos uma grande profusão de peixes e corais que atraem mergulhadores de todos os cantos.
Ponto de maior concentração deles está no naufrágio Oceano I, um rebocador afundado acidentalmente próximo às ilhas Escalvada e Rasas em 1 de novembro de 2020 e já se encontra repleto de vida marinha.
A região abriga ainda outros naufrágios que exibem grande diversidade de vidas.
O mais antigo é o cargueiro britânico Belucia, que naufragou em 15 de fevereiro de 1903. Ao tocar o fundo se dividiu em duas partes, estando o segmento da proa distante cerca de 150 metros da popa, a uma profundidade de 12 a 30 metros.
Há também o naufrágio Victory 8B, cargueiro grego, abandonado no Porto de Vitória e que foi preparado para ser afundado na região, o que ocorreu em 03 de julho de 2003.
A comunidade de mergulho do Espírito Santo pretende que as autoridades estaduais trabalhem no sentido de transformar a região num parque de naufrágios, como ocorrem em vários países do mundo ou alguns estados do Brasil, como nos arredores de Salvador e Recife, que vêm se transformando em pontos atraentes para mergulhadores brasileiros e estrangeiros.
Outra reivindicação é a extensão do parque marinho das Três Ilhas até as ilhas Escalvada e Rasa pela preservação da vida marinha local, fazendo do Espírito Santo um ponto importante para as atividades turísticas ligadas ao mergulho.
Que nos ouçam!
É doce viver no mar.
O Mar
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