A Inconfidência Mineira – Rubens Pontes

Tiradentes foi visto em Paris um ano depois do “enforcamento”?

A traição de Silvério do Reis teria sido motivada pelo caso amoroso de sua mulher Bernardina Quitéria com o alferes Tiradentes.

Um movimento marcado por sonhos e ambição, a Conjuração Mineira.

Don Oleari:

Wilson Côelho, dia 21 de abril, levantou a instigante versão sobre os últimos tempos de vida de Tiradentes, segundo a qual não teria sido executado no Rio de Janeiro. Wilson Côelho afirmou que Tiradentes passou a viver em Paris, onde foi visto um ano depois do seu “enforcamento”, instrumento, assim, de insuspeitados interesses da Coroa Portuguesa.

Penitencio-me por não lembrar, mas houve quem levantasse outra versão sobre a traição de Silvério do Reis: ela teria sido motivada pelo “affaire” amoroso de sua mulher Bernardina Quitéria com o alferes Tiradentes.

O texto que lhe encaminho corresponde ao levantamento de fontes ligadas à História brasileira.

E – bem que eu gostaria! – nenhuma delas registra a versão de Wilson Côelho, que mostra, na matéria, real conhecimento do assunto.

Rubens Pontes
Capim Branco, MG

 

A delicada missão proposta pelo Editor Chefão do novo Portal Don Oleari, de levantamento de episódios ligados à Inconfidência Mineira, nos leva a refletir sobre as origens de um movimento que passou à História como marco do nosso sentimento de liberdade que iria finalmente eclodir, muitos anos depois, com o Imperador D.Pedro I às margens do regato Ipiranga, no dia 7 de setembro de 1822.

A Conjuração Mineira  foi um movimento organizado pela elite sócio-econômica  da Capitania, nela se engajando por romântico patriotismo personalidades de sua vida  local.

As historiadoras Lilia Scharcz e Heloísa Starling registraram que essas pessoas “tinham laços familiares, de amizade ou econômicos” que os vinculavam com a “cúpula da sociedade das Minas” – poetas, cônegos da Igreja Católica, engenheiros, médicos, militares, comerciantes.

Capitania das Minas Gerais

A  Capitania de Minas Gerais era a mais rica do Brasil, em razão da extração maciça de ouro e de suas generosas lavras de diamantes, à flor da terra.

A atenção da Coroa Portuguesa  ao que lá então ocorria era até por isso redobrada até que, no Século XVIII, a relação entre os habitantes da Capitania e o Reinado começou a evidenciar, com algumas escaramuças, demonstração de desgaste.

Fontes históricas  confirmam ter sido a Revolta de Vila Rica motivada sobretudo por razões econômicas, pela insatisfação da elite  brasileira com os altíssimos impostos cobrados pela Coroa, determinados pelo  marquês de Pombal, que governava Portugal, para financiar a reconstrução de Lisboa, totalmente devastada por um  terremoto.

Essa postura dos brasileiros se alongou por todo o Século XVIII, mas foi a partir da década de 1780 que ganhou força e espaço.

Intelectuais, membros da sociedade civil, cônegos da Igreja Católica, imbuídos do sentimento de brasilidade, tinham a percepção de que a Capitania das Minas Gerais possuía condições econômicas de existir, de auto sustentação, sem a presença de uma Coroa controladora.

Herói e vilão

Do episódio de Vila Rica dois nomes ganharam principal projeção através dos tempos: o herói, Alferes Tiradentes, e o vilão, Silvério dos Reis. Curiosamente, ambos Joaquim no primeiro nome.

O TIRADENTES

Joaquim José da Silva Xavier, mineiro de São João del Rei, foi tropeiro, minerador, comerciante-mascate e finalmente militar.

Com a morte prematura dos seus pais, a família perdeu por dívidas todas as suas propriedades, passando nosso herói a ser criado por seu tio e padrinho, o cirurgião-dentista Ferreira Leitão, que lhe ensinou o oficio.

Em sua juventude, foi sócio de uma botica destinada a dar assistência à pobreza, e, ao correr do tempo, dedicou-se a práticas farmacêuticas e ao exercício de dentista, fato que o identificaria na História como Tiradentes.

Entrou no Exército Colonial em 1775, e como descendente de portugueses recebeu a patente de Alferes, queimando etapas de promoções. Como oficial, comandou a patrulha do Caminho Novo, ligação da Capitania de Minas com o Rio de Janeiro, rota de escoamento do ouro para Portugal.

Joaquim Silvério dos Reis Montenegro Leiria Grutes

Nome heráldico do principal delator às autoridades da Coroa do movimento de Intelectuais, clérigos, mineradores brasileiros, contra a opressão principalmente econômica imposta pelo reinado português.

Silvério dos Reis, nascido na cidade de Monte Real, em Portugal, era coronel comandante do Regimento de Cavalaria Auxiliar de Borda do Campo. Era também fazendeiro e proprietário de minas de ouro na Capitania.

Sua mulher,  Bernardina Quitéria, era tia do duque de Caxias e do conde de Tocantins, o que explica sua ligação com os poderosos da  época.

Vê-se, com isso, motivos de seu relacionamento com as lideranças do Império e seu envolvimento no movimento que seria por ele delatado como troca do perdão de suas dívidas.

Um dos melhores perfis do principal delator do movimento da Inconfidência Mineira, Joaquim Silvério dos Reis, foi registrado pelo reconhecido expert em História Brasileira, Gustavo Wernek e pelo professor de História da Universidade Federal de Minas Gerais, Luiz Carlos Villalta.

Escreveu Gustavo Wernek:

“Um  personagem odiado na história do Brasil emerge das profundezas neste 21 de abril rodeado de delações premiadas, denúncias de pagamento de propinas e de outras ações corruptas de políticos, empresários e executivos que vieram à tona com a Operação Lava-Jato.

Trata-se do português Joaquim Silvério dos Reis Montenegro Leiria Grutes (1756-1818), conhecido nos livros como Silvério dos Reis e sinônimo de traição ao movimento ocorrido em 1788-1789, a Inconfidência ou Conjuração Mineira, liderado pelo alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes (1746 a 1792).”

Completou Luiz Carlos Villalta:

“Ao entregar os inconfidentes à Coroa Portuguesa, com a qual estava em débito, Silvério dos Reis teve sua dívida perdoada. Fez uma denúncia por escrito e uma delação premiada, por que teve benefícios e não pagou suas dívidas à Fazenda Real. Assim, é um dos casos mais célebres de delação premiada no Brasil, embora não se possa dizer que foi o primeiro”, diz o professor de história Luiz Carlos Villalta, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Ao longo dos séculos, a reação da opinião pública a delatores e delatados variou, mas a prática da delação de antigos aliados em troca de benefícios, inaugurada no Brasil Colônia, avançou pela história e está mais viva do que nunca no período republicano.”

Como prêmio o delator cobrou o preço de seu serviço: uma certa quantidade de ouro, o perdão das dívidas fiscais, a nomeação para o cargo de Tesoureiro das províncias de Minas GeraisGoiás e Rio de Janeiro, uma mansão para moradia, pensão vitalícia, título de Fidalgo da Casa Real, fardão e hábito da Ordem de Cristo, um encontro em Lisboa com o Príncipe Regente Dom João.

Não se sabe se as promessas foram cumpridas.

O estopim para a deflagração do movimento contra a Coroa aconteceu durante as administrações de Luís da Cunha Meneses e do Visconde de Barbacena, ambos governadores da Capitania. O primeiro teve uma administração corrupta que prejudicou interesses da elite local para favorecimento de seus amigos pessoais.

Já na administração do Visconde de Barbacena foi enviada uma ordem para realizar o cumprimento da cota de ouro anual, que era estipulada pela Coroa. Para cumprir essa cota, foi autorizada a realização da “derrama”, a cobrança obrigatória com o objetivo de alcançar as cem arrobas de ouro. Isso causou indignação porque a economia local estava em crise, em virtude da redução do ouro extraído.

A possibilidade de uma derrama alarmou a elite local e a levou a planejar a eclosão do movimento para o dia em que a medida fosse concretizada.

Intelectuais e sacerdotes ligados ao movimento, movidos por sentimento de brasilidade, tinham sonhos maiores:

– proclamação de uma república aos moldes dos Estados Unidos, para o que tiveram alguns distantes acenos de apoio de americanos e   franceses;

– realização de eleições anuais;

– incentivo à instalação de manufaturas como forma de diversificar a produção econômica das Minas Gerais;

– formação de uma milícia nacional composta pelos próprios cidadãos das Minas Gerais.

Na questão do trabalho escravo, não existia consenso entre os inconfidentes. Assim, alguns defendiam a libertação dos escravos, mas outros defendiam a permanência da escravidão caso a capitania alcançasse sua independência.

O FIM DO SONHO

Tudo terminou quando o Visconde de Barbacena ordenou a suspensão da derrama e deu início a prisões e interrogatórios.

Todo o processo de julgamento dos presos por envolvimento na conspiração estendeu-se durante três anos e foi uma demonstração de poder da Coroa como forma de desencorajar outras conspirações.

A leitura da sentença, conforme afirmação do historiador Boris Fausto, estendeu-se por dezoito horas.

As condenações incluíram penas como degredo (expulsão para a África), prisão perpétua, condenação à morte.

1789

Maria, Rainha de Portugal, perdoou todos os condenados à morte, menos Tiradentes, preso no Rio de Janeiro em maio de 1789. Tiradentes foi enforcado no dia 21 de abril de 1792 no Rio de Janeiro, segundo os registros. 

Fontes

SCHWARCZ, Lilia Moritz e STARLING Heloísa Murgel. Brasil: Uma Biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp, 2013.

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Don Oleari - Editor Chefão

Don Oleari - Editor Chefão

Radialista, Jornalista, Publicitário.
Don Oleari Corporeitcham