alisamentos

ARTIGO |
Kleber Frizzera
Todos estes momentos se perderão como lágrimas na chuva – Blade Runner
Uma profunda infelicidade, uma longa melancolia e um estreito circuito de medos se abatem sobre a vida ordinária, no mundo da família como na experiência cotidiana da cidade,
se estabelece uma ausência que faz necessário preencher com objetos, marcenarias e arranjos que buscam ordenar sentidos ao mundo, onde solitários casais e poucos filhos se debatem entre fracassados afetos e sonhos de acúmulos e riquezas,
em abandonos e inseguranças que erguem regras e muros nas cidades, impedem encontros, demandam normalidade, quando nas ruas, traficantes, policiais e milicias operam o mal, assassinatos e repressões rigorosas, sem contar um mais humano próximo igual,
qual livros de autoajuda, regras sagradas, intensas epifanias, em templos ou academias buscam salvações e satisfações, anseiam viagens, gostos premium, ensaiam gozos que se encerram em segundos, redenções que se desfazem em depressões e sofrimentos.
A cidade, vivida na solidão dos carros, exige fluidez, cobra apressados movimentos entre trabalhos inúteis, inúmeros eventos e agendas, exige ambições desmedidas, diante de outros (des)iguais, diante de ardentes ilusões, diante das somadas doenças que engolem amargas terapias e poções milagrosas,
e este medo que nos consome, suas sombras e segregações, suas histórias de violências e explorações, onde se instala um desejo de morte, um luto permanente, um gosto amargo nas insônias noites.
Os tempos se encerrarão, vencidos, e pouco ainda nos restará, aos humanos e ao planeta, consumidos pelo capitalismo, pelas inteligências e ilusões artificiais, sem mais amigos, esperanças, amores,
enquanto o vento sul sibila nas ruas e bate janelas, movimenta poeira e folhas soltas, anuncia desastres próximos, sujeitos se abrigam silenciosos, inquietos, preocupados em dobrar esquinas e escapar do destino iminente, e
mesmo assim multidões de empreendedores ampliam esforços, disputam a sobrevivência da espécie, em luta com saberes outros que expulsam os músculos e cérebros do orgulho e das recompensas do trabalho.
O fim está próximo, informam cientistas e apocalípticos, nos sobra adiá-lo, ou enfrentá-lo ou ultrapassado o ponto de retorno, quando a casa está em chamas e o presente logo se torna o tempo que resta, acompanhar a máxima estoica – sem esperança e sem medo-, como humanos e animais, indefesos espectadores do Dies Irae.
Kleber Frizzera
janeiro 26
Alisamentos
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Kleber Frizzera
Graduado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Minas Gerais (1971) e mestrado em Arquitetura pela Ufes Universidade Federal do ES (1998).
Foi secretário municipal de desenvolvimento da Prefeitura de Vitória/ES (2006/2012) e professor adjunto da Universidade Federal do Espírito Santo ( 1978/2015) – https://www.ufes.br/.
Tem experiência na área de Arquitetura e Urbanismo, com ênfase em Fundamentos de Arquitetura e Urbanismo, atuando principalmente em projetos de arquitetura, arquitetura teoria e crítica, arquitetura áreas centrais, planejamento territorial e renovação urbana.




