as malhas
as malhas cada vez mais finas e elásticas que cobrem, deixando tudo à mostra.
CRÕNICA |

RENATO FISCHER
Fazer o que gosta. O que der na telha. Sem censura ou suor. Isso que é vida. Mas já na infância a gente aprende que o mundo não funciona assim.
O universo conspira contra. A começar pela mãe. A maior censora que nos atravessa o caminho. Pensava até que poderíamos nascer sem mãe.
Tipo, nascer de uma árvore. Que não fala e não pode correr atrás da gente. Principalmente portando uma vara. A vara, veja que ironia, nasce das árvores.
Eu gostaria de ser cantor. Seria o melhor do que gosto. Meu talento, no entanto, me aconselha a ficar calado.
Não atazanar os ouvidos alheios. Nem os meus ouvidos suportam e por isso minha incursão pelo caminho não passou do banheiro. Por pouco tempo e com a basculante fechada.
O jeito foi viver fazendo coisas que não gosto.
Trabalhar é de lascar. Sinto pena de mim quando penso em fazer isso.
Ainda mais quando sei que burro trabalha pra burro e não ganha dinheiro.
Estudar foi outra tragédia que me aconteceu.
Talvez eu tenha sido, no meu subconsciente, o maior serial killer de professores.
Principalmente os de português. Sentia tanta raiva, que preferia ser como os animais.
Falar só o necessário. Mugir, latir ou relinchar. Ou cantar como os pássaros. Nada de escrever ou estudar analise sintática.
Já que se tem que trabalhar, gostaria de fazer apenas uma coisa: nada.
Mandar os outros fazerem por mim. Quando me perguntassem o que faço, responderia: nada. Faço parte da sociedade do nadismo.
Só encho o saco dos outros. Olha que beleza! Em vez de comemorar o sextou, poderia celebrar o segundou, terçou, quartou ou o quintou. Viver escarificando a albugínea.
Jogar bola seria uma boa. Mas a natureza, mais uma vez, foi perversa comigo. Me deu pernas de pau.
Só consigo fazer gol contra. A melhor contribuição que dou ao meu time é quando peco substituição. Aí o time melhora e, muitas vezes, até vira o placar.
E fazer ginástica? Prefiro uma chibata.
Quando alguém me diz que gosta de academia, tenho vontade de dar na cara do mentiroso.
Aquilo é torturante. Quando chego, sinto vontade de voltar. Infelizmente sou obrigado. Me calo e meto o malho.
Cheguei a contratar um personal trainer pra me obrigar a cumprir minhas obrigações.
Se não, empaco. Não saio da toca. Se tivesse dinheiro contrataria alguém pra correr por mim.
Além do cansaço imposto, sinto ali uma atmosfera de empáfia e exibição. Pra me humilhar.
Cada um levantando um peso maior que o outro; mostrando bíceps e tríceps mais volumosos. Temo que um dia comecem a exibir seus corpos cavernosos e me deixar ainda mais deprê.
Pior se disserem que não usam Tadala.
Mas as mulheres me impõem tortura maior. Elas não se importam com bíceps, mas os glúteos são exibidos como um troféu de copa do mundo.
O torneio das coxas e as abóbadas mamárias também fazem parte do arsenal perturbador.
Contam ainda com o apoio avassalador da indústria têxtil e o luxo da alta costura.
Aquelas malhas cada vez mais finas e elásticas que cobrem, deixando à mostra.
Acompanham toda silhueta das montanhas e vales como uma relva fina.
Pra perturbar severamente o transeunte; às vezes o fazendo tropeçar.
Eu já quase caí da esteira.
Os costureiros ainda põem mais pimenta. Estão agora a fazer um chuleio no meio da cobertura traseira pra submergir ainda mais a malha entre as montanhas.
Você consegue ir lá dentro sem tocar. Algumas conseguem transcender à parte frontal e mostrar as depressões e elevações regionais.
O inferno está posto.
Dia desses uma assassina resolveu fazer agachamentos na minha frente. Com aquela malha do chuleio.
Deitado eu estava e ali fiquei. À espera da ambulância.
as malhas
Edição, Don Oleari
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