Eustáquio Palhares: A República do Espírito Santo – 24/6

Espírito Santo, do tamanho de uma Finlândia, Suécia, Noruega, Dinamarca. Ou, na Europa, uma Suiça. Os serviços disponibilizados pelo ente público ao cidadão são operados no município, ambiente natural da cidadania.

Coluna Contraponto – Eustáquio Palhares

Os Estados modernos são recentes, pelo menos por esta banda ocidental do planeta. Estamos falando de culturas recentes alinhavando grupos por identidades étnicas, territoriais que plasmavam usos e costumes. Daí as claras demarcações e os sensos de identidade em torno de linguagem e territorialidade, surgindo as nações e suas institucionalizações políticas, os Estados.

espírito santo
Sapiens e Harari

Como observa Yuval Noah Harari no seu portentoso “Sapiens”, Estados, como empresas, clubes, associações são essencialmente ideias coletivas que não existem de fato vindo a fazê-lo enquanto uma abstração compartilhada por um conjunto.

Aí demarcam-se fronteiras, estabelecem-se as regras de ordenamento dos grupos dentro de cada espaço e o mundo se concerta nos quase dois centos de países  em que se retalha o planeta. Mas sempre abstratamente, convencionando-se que latitudes, longitudes, rios, montanhas e acidentes geográficos limitam onde um país acaba e o outro começa. Sendo o homem um animal simbólico para o qual símbolos preponderam como uma forma superior de expressão de uma ideia, mais do que palavras, os símbolos passam então a representar a realidade.

O Brasil é uma confederação de estados que se tornou, por força da Constituição, um Estado unitário, abolindo a autonomia dos estados que na sua suposta autodeterminação decidiam-se – ou não – por serem entes federados. Diferentemente dos Estados Unidos, por exemplo, onde esse modelo confederativo vigora.

laurentino_gomes.jpg
Laurentino Gomes

Esse é um gigantesco paradigma a ser questionado, discutido. Se temos uma identidade “brasileira” por força de uma nacionalidade construída nos últimos 200 anos, de colônia a império e a república, é oportuno revisitar esse paradigma.

Laurentino Gomes, na sua memorável trilogia 1808-1822-1889 clareia um aspecto pouco explícíto de nossa história e revela como a partir do golpe militar de 1889, liderado por um relutante Deodoro da Fonseca, construiu-se um país a partir de um estamento militar com a constrangedora alienação do povo em nome do qual se o instituiu.

O Estado nascendo antes de uma sociedade que o legitimasse.

Reduzirmos nosso senso de grupo ao ente federado talvez fosse o melhor modo de nos apropriarmos do que é nosso de fato, o que inclui a mesma identidade forjada nos costumes, história regional e familiaridade territorial.

Se o Espírito Santo for um país, já tem todos os atributos para alcançar a prosperidade de um território equivalente a alguns da Escandinávia, como Finlândia, Suécia, Noruega, Dinamarca. Ou, na Europa, uma Suiça.

Espírito Santo

Dados que levantei na Receita Federal há seis anos registravam que a soma dos tributos federais arrecadados no território do Espírito Santo subiam a R$ 18 bilhões. O repasse de recursos da União para o ES alcançou, naquele período, R$ 2 bilhões.

O orçamento do Estado naquele exercício, melhor traduzindo, a soma de dinheiro que o Governo do Estado tinha para custear a máquina administrativa, oferecer serviços que justifiquem os impostos e fazer algum investimento, era de R$ 15 bilhões.

Ou seja, a União nos levava 120% dos recursos que contávamos para custear nossos gastos de sociedade. Os serviços disponibilizados pelo ente público ao cidadão são operados no município, ambiente natural da cidadania. Quanto mais próximo de seus usuários os centros de decisão estiverem, melhor podem gerir o que disponibilizam, inclusive orientados ou informados pelo retorno crítico da clientela.

Por que não fazê-lo, então? E nós, em cima do Rio de Janeiro, ao lado de Minas, embaixo da Bahia, porta ao mar para todo o Brasil central cobrando o merecido pedágio para o mundo…

Ah, sobra o atavismo e o sentimento patriótico de “ser brasileiro”. Outra abstração. Se um executivo tiver que tomar uma decisão entre sua empresa e o país, escolher entre algo que beneficie sua corporação e prejudique o país ou vice-versa, por quem acha que penderá?

A gente pode deixar combinado que na Copa do Mundo, nas Olimpíadas, nas competições esportivas onde se toca o hino nacional, a gente segue torcendo pelo vizinho Brasil. Experimentando aquele “arrepio” que só rola nesses momentos…

espírito santo
Eustaquio Palhares

Eustáquio Palhares é jornalista

eustaquio-palhares-logomarca

 

 

 

 

https://finland.fi/pt/

https://donoleari.com.br/gado-jumento-eustaquio-palhares/

Espírito Santo

COMPARTILHE:

Share on facebook
Share on twitter
Share on pinterest
Share on linkedin
Share on whatsapp
Don Oleari - Editor Chefão

Don Oleari - Editor Chefão

Radialista, Jornalista, Publicitário.
Don Oleari Corporeitcham