O dia do homem – Eustáquio Palhares | 17/7

dia do homem
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Eustáquio Palhares

 

Dia do homem

Coluna CONTRAPONTO – Eustáquio Palhares, jornalista

Eis que dia 15 de julho passou a se comemorar o Dia do Homem, o contraponto nacional à data internacional  de 19 de novembro instituída por um médico de Trinidad e Tobago, Jerome Teelucksingh, para reforçar  uma mensagem dos cuidados de saúde que os homens devem adotar.

 19-nov-dia-do-homeme.pngNo Brasil, muito antes, numa brincadeira de escritores paulistas, instituíra-se a celebração desse dia pela Ordem Nacional dos Escritores, mas com a data de 15 de julho. Nesse caso, a homenagem não se ateve  às  necessidades de higidez masculina mas ao resgate do gênero que, mesmo com o machismo inercial da sociedade patriarcal, vem  perdendo terreno há anos.

Há um célebre poema do escritor inglês Rudyard Kipling, “Se”, que estabelece patamares improváveis para que um homem se identifique como tal.

Leia o poema no final do texto de Eustáquio Palhares.

Dia do homem

A criação da homenagem tenta resgatar a isonomia dos gêneros. O machismo é percebido como a atitude absolutamente descontextualizada de uma sociedade que é predominantemente feminina no conjunto da população.  Do eleitorado à audiência de mídia, permeando  universidades e mesmo o mundo do trabalho. Na verdade  o machismo virou outro armário, devido a necessidade de enrustir uma orientação que se pretende alforriar parcialmente com  um  “dia do gênero”.

Afinal, o outro gênero vem sendo resgatado (e celebrado, festejado, paparicado)  por ações que vão desde à explicita segmentação como uma Delegacia  de Mulher ao  Dia Internacional da Mulher. Tanto reconhecimento  ou celebração da mulher na mão contrária da repulsa ao machismo requer, por justiça, admitir a contribuição modesta, um pouco além daquela do zangão na colmeia, que o homem entrega à família e à sociedade.

Veja-se que um registro de nascimento dispensa a paternidade, prezando apenas a maternidade. O que importa e pelo qual o recém-nascido é identificado, é o nome da mãe. Ao homem concede-se o crédito de um acidente de percurso na vida da genitora.

A descartabilidade do homem com a emergência social  da mulher e no Brasil,  ainda sem o radicalismo  que é evidente no Primeiro Mundo e mais acentuadamente ainda na Escandinávia,  se espalha por vários aspectos que vão do lar aos divãs. Com efeito, a função paterna deixou de ser privativa do pai, mas de quem efetivamente vier a desempenhar tal papel.

Mesmo que sendo … uma mulher. E na reconfiguração da família, o homem se viu apeado do papel nobre de provedor, em nome do qual descarregava toda a extenuante ocupação dos afazeres domésticos na mulher, para ser mais um integrante de um conjunto em que muitas vezes não se mostra tão imprescindível para manter.

Apesar da recalcitrância  inercial  do  machismo, a isonomia dos gêneros evolui principalmente no campo da autonomia buscado por empreendedores de  ambos (ambos?)  sexos. É onde se distingue claramente os atributos inerentes aos gêneros. Talvez por isso, e aí também, a mulher leve tamanha vantagem competitiva com sua orientação multifocada, holística, adaptável,  contrapondo-se ao padrão sequencial, monofocado,  do elemento masculino.

dia-do-homem.jpgPermanece  um  mistério da natureza, assim como  o besouro voa.  contrariando as leis da aerodinâmica, como um homem consegue mascar chicletes e andar. As mais radicais juram que nós não conseguimos sequer encontrar uma cueca na gaveta das cuecas.

Dia do homem

Os séculos de opressão patriarcal em todas as sociedades só encontraram exceção nas comunidades indígenas onde o senso intuitivo de uma divindade feminina instituiu os conselhos das Mães e a conexão com a Natureza. E mesmo aí temos reconhecidos os  atributos da maternidade provedora. O longo império do patriarcalismo fermentou um radicalismo feminino como lógica reação de subversão a uma ordem estabelecida. Daí o caráter revolucionário do feminismo desde que a revolução é por essência uma inversão das polaridades que são revolvidas, os extremos se alternando.

A história mostra que qualquer opressão traz em si o germe de sua destruição, por isso é sensato   que a parte de cima se coloque ao lado da parte despejada para baixo. Quem sempre purgou a opressão pode até ter se sentir no direito de devolvê-la mas na perspectiva da harmonia e da justiça deve buscar a igualdade. É mais coerente com a própria intuição – e vocação – feminina de prezar mais a harmonia que o conflito. Inclusive poupando-se da recarga de Lavoisier (“toda ação gera uma reação…”)

O espírito humano transcende a questão do gênero embora as peculiaridades, atributos e predisposições de cada um. A psicanálise reservou ao homem (ou à função paterna) a interdição do incesto ou a imposição da lei e à mulher a emanação do carinho e acolhimento. São padrões que se revogam agora à luz de um novo comportamento, novos costumes, uma nova moral. Inclusive a que defende a identidade sexual como um constructo social ou mesmo uma opção.

Ideologia de gênero à parte, é evidente que os atributos de cada um lhes conferem  talentos e aptidões específicas, sem barrar as  adaptações que as circunstâncias possam ditar. De minha parte e assumindo honestamente a condição do meu gênero, sempre percebi na mulher a expressão mais refinada  da natureza, com suas características de oralidade, nuances, resiliência, adaptabilidade,  de subtextos em que a fala dissimula a ideia, com sua força dissimulada na fragilidade aparente cuja expressão é a  capacidade de desestabilizar  o homem pelo choro.

Particularmente ainda, o que mais tenho a lamentar dessas constatações é que o advento da emancipação feminina ocorre numa época em que a idade e a decadência física me interditam a possibilidade de ser tratado por elas como desejaria: um objeto de consumo a ser coisificado. Eventualmente descartado, mas depois de bem usado.

Na revisão do  texto tradicional que escala Deus no papel de Pai, o que encontramos  é menção à Divindade, à Força, à Energia. Ave Femina!

Se

Rudyard Kipling 

Se és capaz de manter tua calma, quando,
todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,
e para esses no entanto achar uma desculpa.

Se és capaz de esperar sem te desesperares,
ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
e não parecer bom demais, nem pretensioso.

Se és capaz de pensar – sem que a isso só te atires,
de sonhar – sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,
tratar da mesma forma a esses dois impostores.

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,
em armadilhas as verdades que disseste
E as coisas, por que deste a vida estraçalhadas,
e refazê-las com o bem pouco que te reste.

Se és capaz de arriscar numa única parada,
tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
resignado, tornar ao ponto de partida.

De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
a dar seja o que for que neles ainda existe.
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,
e, entre Reis, não perder a naturalidade.
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
se a todos podes ser de alguma utilidade.

Se és capaz de dar, segundo por segundo,
ao minuto fatal todo valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
e – o que ainda é muito mais – és um Homem, meu filho!

Rudyard Kipling
Nota: Traduçaõ do poema “If”, 1895

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https://www.pensador.com/frase/NTIzMTg/

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https://donoleari.com.br/exposicao-rick-rodrigues-don-oleari/

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Don Oleari - Editor Chefão

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Radialista, Jornalista, Publicitário.
Don Oleari Corporeitcham