Eustáquio Palhares: Do que morremos | 12/8

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do que morremos
eustaquio palhares, jornalista

Do que morremos? efeito manada? Rebanho?

 

Eustáquio Palhares | Coluna CONTRAPONTO

 

Vila Velha/ES foi abalada por uma tragédia na última semana, quando um jovem, na exuberância dos  seus 22 anos, típica família “bem de vida” como se designa as famílias que medeiam da classe média para cima na pirâmide social, condição indicada pelo local nobre de residência, na orla praiana, protagonizou uma madrugada de horror, matando os pais e matando-se em seguida.

Como jornalista, embora entendendo que as então editorias de cidade e polícia eram os efetivos cursos básicos de jornalismo, sempre questionei o noticiário policial  que muito mais que cumprir o ritual da informação comunitária descambava no cortejo  ao lado mórbido de cada um.  Aquela fração de indizível sadismo que completa o mosaico de nossa personalidade. Não por acaso a receita clássica das tiragens bem sucedidas eram os assuntos envolvendo sangue, sexo e escândalos. O futebol contribuía suplementarmente, mas aí para um segmento bem definido.

O melhor proveito que se poderia dar à banalização das desgraças pessoais seria tomá-las como registros de comportamento a serem examinados, dissecados, estudados  criteriosamente para entender suas causas reais que sempre ficavam encobertas pelas motivações aparentes ou formais. Tentar entend-las em busca de uma prevenção ou mitigação dos fatores determinantes.

Claro que isso não poderia ser função jornalística, embora profissionais que melhor atinassem para sua função social devessem  incluir na cobertura do evento o diagnóstico de especialistas que ajudassem a sua compreensão. No âmbito público, políticas de saúde específica deveriam estar direcionadas para trabalhar cada fato  como um caso, um projeto pedagógico, uma experiência, que revolvesse desde as  causas mais remotas às mais explícitas do ato que resultou no trauma, na tragédia, na profunda perda que, sem que o percebamos, nos afeta, lateja em nossa inconsciência como uma ameaça difusa e permanente. E por aí também nos adoece.

O QUE NOS CERCA

Atribui-se a Martin Luther King o dito de que não o incomodava a maldade dos maus, mas a indiferença (ou omissão) dos bons. Em outras palavras, como também nos ensina a parábola bíblica dos dez talentos, não é sobre não fazer o mal, mas fazer o bem o quanto puder. Quando uma tragédia pavorosa como essa colhe uma família, para além da instintiva comiseração, consternação e compaixão, talvez devêssemos estender o olhar além e tentar divisar o que nos cerca.

Os fundamentos que nos norteavam se esgarçaram com a celeridade das transformações sociais do último meio século. A família reconfigurou-se, resgataram-se temas demonizados ao tempo em que se proscreveram práticas que refletiam  padrões hegemônicos de uma classe social. Vide as afirmações identitárias, o multiculturalismo, o politicamente correto, a institucionalização da “normose”.

As formas de alienação também se modificaram, variando do consumismo ao entorpecimento ideológico, uma visão de vida e mundo excludente onde a ideia não se afirma pela sua consistência mas por uma subjetividade até narcísica. A minha ideologia, o meu lado, o meu partido…

A sociedade ainda é tratada como um coletivo mas é ostensiva sua fragmentação quando os segmentos e corporações tratam seus interesses e desejos como “direitos” legítimos e inalienáveis. O corporativismo retalha a sociedade numa atitude irracional que insiste em considerar  que a soma das partes pode ser maior que o todo.

A política não ofereceu as respostas desejadas. Questão de tempo, talvez, mas o certo é que a democracia representativa, a exemplo de muitas ideias excelentes, tem se mostrado excelente enquanto ideia, mas na prática a representação tem, historicamente, servido muito mais aos representantes que aos representados. Sim, com todas as suas deficiências ainda é o melhor sistema ante as alternativas autoritárias, antilibertárias que se lhe contrapõem.

Aqui um adendo: a resignação bovina da sociedade não atina para muitas causas que se batem pela liberdade e a proclamam veementemente das trincheiras da oposição. Mostra-se historicamente, porém, como mera  estratégia de conquista de poder, pois  logo que o assume, imediatamente confisca exatamente a liberdade, suprime as garantias individuais. E, quais tutores solícitos, determinam o que são os interesses do povo. Como alguém que logo que transpusesse o rio explodisse a ponte…

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Bem, esse parece ser o fundo de tragédias como as mencionadas no começo deste texto. Se a política não oferece respostas mas sim um eterno e recorrente exercício de aposta na próxima eleição, a religião se colocou como alternativa. À falta de promoção de uma consciência coletiva que a ideologia não logrou,  busca transformar o indivíduo como célula dessa  consciência.

As religiões têm um bom trunfo, porque a dimensão da transcendência parece inerente ao Espírito humano e acenar para essa inclinação pode ser efetivo. Aqui o sentimento de rebanho não deve ser tratado pejorativamente no conceito de alienados, mas de quem se conforta com um senso de pertencimento a um grupo, um bando, uma tribo.

Só que as religiões , enquanto instituições, padecem das características que todas as instituições sofrem, refletindo o ideário dos que as comandam. A rigor, as religiões  infantilizaram e confundiram a humanidade com alegorias sobre uma realidade transcendental. A fé fixou-se nos símbolos e não no que representam, sacralizando o folclore de um povo.

A sabedoria indígena trataria isso como “olhar para o dedo que aponta para a lua”. A Bíblica, como é conhecida desde a Vulgata, a tradução de São Jerônimo do grego para o latim, tem quatro camadas de interpretação simbólica que vão do sentido literal ao sentido esotérico. Mas o que se proclama, com exercícios mnemônicos de capítulos e versículos, é a sua literalidade. Mais ao Oriente se encontram luzes mais claras que a Física Quântica vem atestando como fundamentos da realidade, mas isso é outro assunto…

manada-efeito-psicologia.jpgQuando nossos filhos morrem ou nos matam temos aí a medida mais aterradora da nossa patologia, O pior é que nos solidarizamos com a dor das vítimas até a próxima manchete ou notícia. Por que o organismo doente que excreta esse tumor mantém-se ativo, não tratado e certamente reincidirá em fatos semelhantes mesmo quando  são debitados à fatalidade ou ao infausto destino dos que o sofrerem.

O Estado deveria prover programas que mitigassem os fatores potencializadores, mas o Estado existe principalmente para se autoprover. Assim, seguimos como manada que ao ver um do bando cair, lança um olhar para trás e segue a jornada resignado com a aleatoriedade da desgraça. Entorpecidos naquilo que mais nos faz humanos, a alteridade.

Eustáquio Palhares, jornalista

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Don Oleari - Editor Chefão

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Radialista, Jornalista, Publicitário.
Don Oleari Corporeitcham