Eustáquio Palhares: Matrix | 18/10

Matrix

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eustáquio palhares

 

Contraponto – Eustáquio Palhares, jornalista

 

Hélio Couto é um terapeuta que se vale de um explícito ecletismo intelectual para arrebanhar muitos adeptos pela internet.

Dentre os vários conceitos de leitura da realidade, metáforas didáticas para um público não iniciado, ele cunhou a expressão Matrix, inspirada no célebre filme, para definir um estado de esquizofrenia social em que o mundo real parece descolado do mundo como é percebido.

 helio-couto-frase.jpgIsso se aplica em várias áreas humanas, desde a medicina, com o conflito de narrativas sobre a Covid, a discussão entre ciência e empirismo e a questão das vacinas, advogadas radicalmente por uns e questionadas por outras.

Cada banda buscando reduzir o oponente a rótulos como negacionistas ou cienciólatras. Como sempre, só a peneira do tempo dará o veredito final.  O que importa agora é avaliar os pesos na balança das opiniões, sem subir em qualquer dos pratos.

Na economia também pode se constatar esse efeito Matrix. Trabalham-se indicadores que a partir de dados estatísticos projetam abstrações, métricas que teoricamente deveriam inspirar os investimentos ou as decisões de consumo. E aqui, sem qualquer alusão à guerra de rótulos inspirada pela polarização política, entra um claro efeito rebanho. Pessoas fiam-se nos clichês e convenções, pautam-se por eles e se conduzem por dados compartilhados que, assim, encontram validade.

 inflacao-carrinhos-de-compra.pngVeja-se o caso da inflação. Ressalve-se que nada há de novo nesse fato, sempre foi assim. O  aumento dos preços se baseia em um indexador, o IPCA, construído a partir da suposta ponderação de categorias distintas de preços.

Mas o resultado final é coisa de matrix. Imagine que a inflação oficial  acumulada dos últimos 12 meses em setembro  foi de 10,25%.

Claro que a melhor coisa de uma cifra dessas é que ela regula a remuneração dos investimentos e, como tal, inibe o famigerado rentismo financeiro, quando a pessoa prefere aplicar seus recursos para fazer receitas recorrentes – no popular, ganhar juros – do que alocá-los em alguma atividade produtiva, o que representa efetiva geração de riqueza.

Por o dinheiro para “trabalhar”  passa a não compensar, melhor prospectar uma oportunidade de entrega de produto e serviço e fazê-lo. Todos ganham com isso e a sociedade agradece.

Pegue a sua lista de supermercados de setembro de 2020 e compare-a com a do mês passado para verificar se os preços cresceram só os tais 10,25%. Ressalve-se que nesse caso deve haver uma estimativa da inflação pessoal, já que não cabe uma métrica uniforme.

O peso da alimentação varia nos diferentes orçamentos familiares, normalmente mais elevado para as famílias de baixa renda. Assim como o peso de outros componentes de uma cesta básica de consumo que inclua transportes, despesas pessoais, medicamentos.

E se a evolução desses preços não é acompanhada da proporcional evolução dos seus rendimentos, obviamente que 10,25% ao ano é apenas uma ficção desejável.

Só recentemente,  o que rendeu um Nobel de economia a um psicólogo, constatou-se que, diferentemente do que sempre apregoaram os manuais de economia, o consumidor não se guia por uma avaliação criteriosa e racional do custo/benefício do produto ou serviço que lhe é oferecido.

 capa-livro-rapido-e-devagar.jpgA teoria econômica professava que o consumidor sempre exercia sua propensão ao consumo em função dessa criteriosa avaliação ou pela taxa de juros vigente. Se fosse alta, não apenas desestimularia o consumo como intensificaria no consumidor o desejo de poupar.

A teoria econômica necessitava combinar com a realidade. Aí surge Daniel Kahneman e seus estudos sobre economia comportamental que lhe valeram o Nobel de Economia em 2002.

Autor de um livro-referência –  “Rápido e devagar” – explica como as pessoas se movem por sentimento ligados ao impulso imediato na decisão da compra. Quando se dispõe a racionalizar, normalmente a decisão é outra. Na verdade uma constatação que pode levar a uma generalização filosófica: a vida é mental, logo subjetiva.

O mundo não é o que é mas como percebemos. Logo, trocar filtros, crenças, convicções deve ser fundamental. Quando a gente muda, o mundo muda.

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Matrix

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Don Oleari - Editor Chefão

Don Oleari - Editor Chefão

Radialista, Jornalista, Publicitário.
Don Oleari Corporeitcham