Eustáquio Palhares | O pai dos caminhos | 7/6

O pai dos caminhos

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eustaquio palhares

 

 

Coluna CONTRAPONTO – Eustáquio Palhares, jornalista, multimídia

Depois da pausa das interdições da Covid vem aí a 23ª edição da caminhada Os Passos de Anchieta, um evento que evoca muito, em se tratando do Espírito Santo e nosso acanhamento cultural, o “voo do besouro”. O bichinho bojudo que pelas leis da aerodinâmica não podia voar, mas como não estudou física…

Os Passos de Anchieta têm conseguido romper o complexo capixaba da lata de caranguejo e se tornar consenso como um projeto que se mostra plural na geração de benefícios. Desperta uma natural simpatia e ainda que de início encontrasse restrição por evocar uma figura religiosa católica logo as pessoas entenderam que o evento transcendia essa dimensão. Não há como recusar ao agora São José de Anchieta uma estatura gigantesca naquele Brasil que começava a se construir no século XVI.

Ainda que possa gerar questionamento dos espíritos críticos e mesmo anticlericais que lhe imputam a legitimação de genocídios ou a contaminação dos aborígenes não se pode contestar sua integridade em relação à sua fé. O testemunho de sua coragem, seu empenho, sua entrega. Mesmo que lá nas suas origens sua fé justificasse queimar seres humanos na fogueira em testemunho de um cristianismo que a figura inspi. radora, Jesus, certamente jamais aprovaria.

Os Passos de Anchieta foi criado com o propósito de dotar o Espírito Santo de um projeto cultural, histórico, turístico e mesmo religioso. Dado ao vulto que o inspira, não há como desconectar a dimensão religiosa que de certo modo torna-se até uma segmentação turística. Mas os seus criadores visaram mais.

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O “aquecimento”, feito em janeiro

E o consenso em torno da iniciativa acabou até por restringi-la ´porque sua popularidade sugeriu receitas financeiras que nunca se realizaram. Até porque nunca se intentou mais do que obter o estritamente necessário para a sustentação do empreendimento, visto que se fosse adotado por alguma entidade pública certamente estaria fadado ao progressivo murchamento até sua extinção. Seria uma gratificante lembrança, nada mais.

Mas o que interessa examinar é porque Os Passos de Anchieta cativam. Colocando-se como uma versão tropical de algumas rotas místicas consagradas, entre elas o Caminho de Santiago, na Espanha, o que se obtém nos Passos é a experiência fundamental que as longas caminhadas ensejam: uma introspecção que não raramente explode numa expansão de consciência. O caminho é o pretexto do caminhar. Mas ao caminhar o caminhante – perdoe tantas aliterações – conecta algo de si que o seu cotidiano, principalmente urbano, não permite. Aí temos uma experiência mais familiar à cultura oriental, a do swami.

O mestre de si que dorme em cada um e poucas vezes tem tempo de se manifestar porque a mente está permanentemente ocupada com os estímulos externos. Em qualquer circunstância. A introspecção conduz à reflexão e daí uma visão de fora de si dos seus vários papéis sociais certamente permite uma compreensão que não se alcança no torpor do cotidiano.

Exceto os aficionados de plantão as pessoas não cultivam o hábito de saírem caminhando por aí, nem a configuração urbana auxilia. As cidades foram feitas para os carros, ou pelo menos eles têm prioridades. Quando se cria uma mística de caminho e se induz as pessoas a caminharem o efeito é automático. Brotam tantos insights, eventualmente temperado por calos e cansaços, que se tende a atribuir ao caminho efeitos prodigiosos que nada são do que o aflorar de conteúdos incubados na pessoa esperando a oportunidade de transbordarem na  consciência. O dito caminho dos 30 cm, a distância média do cérebro ao coração.

A Rota mística mais famosa do mundo, o Caminho de Santiago, remonta ao século VIII, ainda no primeiro milênio, tendo por destino o Campo di Stela, depois Compostela, onde estaria – estaria, as tradições adoram esse futuro do pretérito, para não se comprometer com imprecisões históricas – sepultado o apóstolo Tiago. Tornou-se rota de peregrinação devido à lenda de que sobre o tumulo choveram estrelas.
Principalmente os turismológos e os jornalistas sabem que se a lenda for mais atraente que a história ou a versão mais convincente que o fato, fiquemos com os segundos.

Mas era uma rota, embora tradicional, modesta, discreta, cumprida por fiéis e devotos, a exemplo do que se tem aqui no Brasil, as peregrinações de Aparecida ou do Padre Cícero, em Juazeiro. Em 1996, o compositor e incipiente escritor Paulo Coelho a promoveu mundialmente com o seu livro O Diário de Um Mago.

Coelho mesmo não a percorreu inteiramente, mas o modo como a descreveu, mistificando inclusive alguns personagens que por isso passaram a detesta-lo, conferiu-lhe um retumbante sucesso. O Caminho de Santiago era percorrido, até a intervenção literária de Paulo Coelho, por menos gente que caminha nos Passos de Anchieta. Depois do livro, tornou-se uma meca mundial de caminhada, inspirou vários livros e filmes e, essencialmente, dotou a Espanha tão ciosa da fonte de renda que é o turismo, de um novo filão.

Como o ES foi o cenário preferido de um vulto histórico tão relevante como o Padre Anchieta, imaginou-se que as comunidades se apropriariam desse dado histórico com sentimento de pertencimento e elevação de sua autoestima. Isso ainda está por melhor concretizar-se. Um dos efeitos mais preciosos, entretanto, desse empreendimento foi sua fecundidade.

A experiência dos Passos, competentemente divulgada na mídia nacional, inspirou o surgimento de vários caminhos brasileiros. Muitas coletividades identificaram atributos históricos ou apenas naturais que permitiam criar suas versões de caminho, e assim o fizeram, contando-se hoje dezenas de rotas do gênero em todos os quadrantes brasileiros. De certa forma, espontânea ou involuntariamente, Os Passos de Anchieta tornou-se o Pai dos Caminhos Brasileiros.

Serviço:

23ª edição da caminhada Os Passos de Anchieta

Data: 16 a 19 de junho 2022

 

O pai dos caminhos

https://ospassosdeanchieta.com/

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Don Oleari - Editor Chefão

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Radialista, Jornalista, Publicitário.
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