Kleber Frizzera: Felicidade | 18/6

Felicidade

Felicidade

A publicidade se baseia em uma coisa, e apenas uma: a felicidade.

Mas o que é felicidade?

A felicidade é o momento que precede aquele em que você percebe que precisa de mais felicidade (Don Draper, Mad Men).

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Atualmente, entre os programas mais acessados e apreciados no Youtube e canais a cabo, destacam-se os que apresentam ambientes internos, residências ou apartamentos, profusamente decorados, que passaram por processos de reconfiguração e atualização.

Desde minúsculos lugares a amplas moradias de famosos, reformas de cozinhas, banheiros e adaptações de espaços abandonados, sucessos de visualizações e likes, arquitetos e decoradores informam as últimas sugestões, anunciam mudanças de usos, novas modas e as qualidades da vida privada.

Somos estimulados a alterar nossas moradias, corrigir erros e abandonar valores passados, fazer parte daqueles habitantes que assumem identidades singulares, culturais, sexuais, de gênero. E finalmente, após a reforma de nossos gostos e apartamentos, iremos partilhar da alegria e da felicidade propostas pelos satisfeitos clientes ou por entusiasmados projetistas.

Porque mais e mais pessoas se declaram infelizes em suas casas, com seus imóveis recém comprados e invistam tantos esforços e recursos para simular estas propostas visuais e virtuais de felicidade?

felicidade-esta-nas-coisas-simples-bulldog-1-1.jpgPara Aristóteles, a boa vida é uma vida feliz. Além da saúde, prosperidade e ser moralmente virtuoso, o ser humano feliz é aquele que é livre, participa da vida pública, é respeitado pelas suas obras e pelos seus amigos. A vida feliz ou uma vida completa não poderia se reduzir a uma vida privada, no interior do recinto da casa, mas é aquela vivida em comum, em uma sociedade livre.

O individualismo se tornou o valor supremo da sociedade, exigindo que produzamos nossos corpos e intelectos, capazes de competir no mercado da economia e da fama. A modelagem corporal, os investimentos em aperfeiçoamento pessoal, em redes sociais e marketing pessoal, passaram a ser necessidades básicas para criar e expor uma figura única, um sujeito capaz de destacar-se na multidão.

Esta personagem criada demanda um cenário especial, onde possa expor a sua classe, suas particularidades, posição e opção estética. A casa passa a ser este lugar/palco, onde o corpo e a mente mostram aos convidados a qualidade de suas escolhas e a beleza de suas narrativas, cabendo aos arquitetos/cenógrafos desenhar os gestos possíveis, as práticas aceitáveis, as experiências e emoções sugeridas à felicidade terrena.

A pandemia, que nos impôs um recolhimento doméstico e os consequentes trabalhos e ensinos remotos, confirmou e justificou o mundo privado como lugar privilegiado da prazeres sensíveis e felizes, como o lugar do brilho solitário.

O mundo da cidade, dos conflitos, contradições, do caos, campo de batalha das conquistas, materiais e simbólicas, é o lugar da violência. Nele não há solidariedade, respeito, somente enfrentamentos, disputas.

Ao contrário, o lar, refúgio do individuo, detém em seus interiores locais aprazíveis, desde carpintarias doces, ripadinhos ligeiros, móveis macios, cozinhas abertas, pisos esmaltados, iluminações brilhantes e varandas gourmets, e recorta, no mundo agressivo, um paraíso terrestre, segregado dos sofrimentos e das perdas coletivas.

Na imprevisibilidade do futuro, diante das precariedades e fragilidades da vida, diante dos riscos ambientais globais, das desigualdades sociais, das guerras, o interior das moradias, em seguidas reformas, parece garantir e oferecer uma felicidade contínua, um porto seguro.

Mas no instante que a falta do contato com o olhar e a pele do outro, na ausência dos múltiplos e dos diferentes, diante do igual, do repetido, do semelhante, uma insatisfação permanente, “quando eu esperava pela felicidade, era a infelicidade que se aproximava, quando eu esperava encontrar a luz, defrontava-me com as trevas”, uma carência absurda me faz desejar uma outra reforma final, um up grade para o paraíso celeste.

Kleber Frizzera – Junho 2022

Kleber Frizzera, professor do Departamento de Arquitetura da Ufes (Universidade Federal do ES), engenheiro, arquiteto e mestre em arquitetura pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), secretário de Desenvolvimento da Prefeitura de Vitória/ES de 2003 a 2010.

https://car.ufes.br/departamento-de-arquitetura-e-urbanismo

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Don Oleari - Editor Chefão

Don Oleari - Editor Chefão

Radialista, Jornalista, Publicitário.
Don Oleari Corporeitcham