Grito da poesia: O existencialismo ou o grito da poesia | Aqui Wilson Côelho| 12/10

grito da poesia

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Wilson Côelho e Francis Kurkievicz

 

Aqui Wilson Côelho – escritor, poeta, tradutor (“folha corrida” no final do texto)

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Na obra de Francis Kurkievicz, B869.1 k96, os entes poeta e natureza se confundem ou se fundem no ser, mesmo que se manifestem evidentes, em alguns casos, as suas fronteiras. O poeta não é a natureza, assim como a natureza não é o poeta, mas parece impossível dissociar a natureza da poesia e, também, o poeta da natureza, onde ambos questionam a si mesmos e um ao outro.

Pensar a poesia como uma paz interior ou a natureza como uma harmonia soa-nos equivocado se tivermos como princípio os poemas de Francis Kurkievicz, em B869.1 k96, considerando que tanto a poesia quanto a natureza se sentem reprimidas por entre as molduras do tempo e do espaço da existência, sempre mediadas pelo social na dicotomia da experiência material e a angústia do ser.

 FRANCIS-KURKIEVICZ-capa-livro.jpgEm B869.1 k96, Kurkievicz persegue a poética nos rastros dos poemas impregnados dos diálogos que se estabelecem no labirinto das artes e do pensamento. Transita entre a literatura e o cinema, a pintura, a filosofia e a existência, essa em que todos acreditamos saber o que significa, mas que ninguém a consegue definir. Feliz ou infelizmente.

Por isso, são poemas repletos de perguntas, mesmo quando não se socorrem de pontos de interrogação, assim como são afirmativos, independente das exclamações.

A poesia de Kurkievicz revela o desespero do poeta, não o do autor, mas o vate que quer – através de seus versos e estrofes – decifrar a esfinge do mundo que o devora, entre um eclipse e outro, entre solstícios e equinócios. E, nessa poesia, o “eu lírico” do autor é uma espécie de narrador que coloca o poeta a bordo da Navilouca, como aquela de Torquato Neto, ora na proa, ora na popa e, na maioria das vezes, na casa das máquinas, mas nunca no leme ou controlando as velas.

É como um barco à deriva e que tem como capitão o vento e as ondas de um mar cuja bússola tem o ponteiro estonteado, onde não faz diferença se norte ou sul, porque norte e sul são dois lados da mesma moeda na geografia dos pesadelos da existência disfarçados de sonhos. As prisões se manifestam, como em Limite, de Mário Peixoto, cujo olhar subjetivo está sujeito ao que vê nas margens, desde o vazio de onde se encontra.

São poemas que denunciam o peso das fronteiras e dos maniqueísmos, ao mostrarem que a ideia de infinito é uma armadilha para esconder as finitudes do ser para a morte nos olhos dos que não sabem onde estão, assim como aponta infinitas possibilidades naquilo que nos parece um ponto final, o finito.

É uma poesia de fôlego, em muitos sentidos, menos quando nos sentencia a condição do poeta no mundo de hoje asfixiado pela subjetividade, mas também quando nos exige, como leitores, cadenciarmos nossa respiração para compreendermos a musicalidade que está na sua poesia quântica, onde “um lance de dados jamais abolirá o acaso”, como queria Mallarmé.

No melhor dos sentidos, a poesia de Kurkievicz, é uma espécie de concerto, na sua aparente forma “bem-comportada”, mas – ao mesmo tempo – ela é um desconcerto, considerando que está repleta de artimanhas que são a nossa própria necessidade de entendermos o mundo.

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Wilson, Francis, Radünz, Darós

E entender, aqui, é um exercício de desconstrução, porque o poeta nos convida a recriá-lo com todas as nossas inquietudes e nossas dúvidas ingenuamente retóricas ou “conscientemente” racionais.

Kurkievicz, mesmo expulso da República, explode com a Caverna de Platão, considerando que – para ele – mesmo do lado de fora, tudo é simulacro da realidade, ou melhor, a realidade não existe para além daquilo que se realiza, mas não passa de um apanhado de conceitos para nos conformar no mundo das aparências, mesmo duvidando do mundo das ideias. Não é por acaso que, no prefácio da obra, Denis Radünz afirma que os poemas de Kurkievicz “São os sistemas de outras ordens de conhecimento, no extracampo dos conhecimentos humanos”.

B869.1 k96 é um tratado da solidão e uma crítica ao abandono do ser humano conformado como rês no cercado de um sistema que o prepara para o corte. Ao mesmo tempo, é um grito de alerta para o sonho que não acabou, mas que resiste como uma vontade que está em potência, no desespero do existir, e não no desejo construído por uma sociedade que nos promete a “felicidade” dos adaptados.

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wilson coelho

Wilson Coêlho

Poeta, tradutor, palestrante, dramaturgo e escritor com 21 livros publicados. Licenciado e bacharel em Filosofia e Mestre em Estudos Literários pela UFES (Universidade Federal do ES); Doutor em Literatura pela Universidade Federal Fluminense e Auditor Real do Collége de Pataphysique de Paris.

Tem 26 espetáculos montados com o Grupo Tarahumaras de Teatro, com participação em festivais e seminários de teatro no país e no exterior – Espanha, Chile, Argentina, França e Cuba, ministrando palestras e oficinas.Também tem participado como jurado em concursos literários e festivais de música.

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https://www.escritas.org/pt/n/bio/francis-kurkievicz

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Don Oleari - Editor Chefão

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Radialista, Jornalista, Publicitário.
Don Oleari Corporeitcham