Iracema sem chão – Auritha Tabajara, cordelista | 30/4

Auritha Tabajara

Auritha Tabajara

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Rubens-Pontes
Coluna AQUI RUBENS PONTES – Meu poema de sábado –

O Portal Don Oleari  abriu neste mês de abril  seus espaços sem fronteiras para levar aos seu público-leitores o interessante registro contido no Projeto “Originários do Agora – Música Ancestral Contemporânea”, revelação de um cenário desmistificador  sobre a cultura indígena no Espírito Santo. Leia aqui: – https://donoleari.com.br/coral-guarani/

Coral Guarani Kuara’y Retxakã, de Aracruz/ES, lança canções ancestrais com influência contemporânea | 22/4

O episódio nos faz voltar no tempo quando, em 1535, índios  da tribo Tupinambás,  armados com arco e flecha, manifestaram hostilidade aos invasores de suas terras na já então Capitania do Espírito Santo. Seu canto era um brado  guerreiro, contra ponto às canções do Coral Kuara’y Retixabã dos guaranis de Aracruz, regido pelo cacique Karai.

Registre–se que antes de aportarem no nosso litoral  as naves da Descoberta, o território brasileiro era o habitat de 3 milhões de indígenas , 900 mil deles ao longo da costa., inclusive do Espírito Santo.

Em terras capixabas,  o território era ocupado por tribos de sete  etnias, Pataxó, Kreenak, Tupininquim, Guarani, Puri, Coropó e Botocudos,a maioria em condições primarias da  vida na selva, agrupamentos que sequer construíam tabas, malocas,  dormindo ao léu, no chão sem abrigo,  outras praticando antropofagia, como os botocudos.

Da luta contra brancos invasores, a maior parte deles perdeu seus espaços, conquistados por luta armada ou evangelizados pelos missionários cristãos.

Senso do IBGE de 2010  aponta a existência de apenas 10  mil índios no Estado, aculturados e integrados ao meio em que vivem

É assim que na atualidade  capixaba encontramos ainda tímidas  manifestações do pensamento indianista oralmente  transmitidos através de gerações.

O coral do maestro  Karaí é exemplar, mas mesmo o Portal Dom Oleari se mostra surpreso quando constata ganhar dimensão internacional o nome de uma poeta indígena brasileira, a cordelista Auritha  Tabajara, sobrenome da  tribo que ocupou áreas do Nordeste brasileiro.

Parêntesis do Portal:

Em Cariacica é reverenciada a memória de um indio Tabajara, concretizada em um terreiro de Umbanda, uma lenda que sobrevive ao tempo decorrido em centenas de anos, desde  cidade inca plantada na Cordilheira dos Andes, em sucessivas reencarnações  até o solo capixaba. Assunto em levantamento.

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Auritha Tabajara

Em entrevista ao podcast DiverEM, em Belo Horizonte, Auritha Tabajara confessa:

“Minha avó é minha referência e a minha incentivadora em tudo. Ela não sabe ler, não sabe escrever. Ninguém da minha família sabe”.

Mulher indígena, lésbica e cordelista, é autora do livro “Coração na aldeia, pés no mundo”. 

O Portal Don Oleari, por esta Coluna, sente-se valorizado ao publicar o Cordel da surpreendente poeta

tabajara Auritha: Iracema sem chão.

Rubens Pontes

Capim Branco, MG.

Iracema sem chão

Auritha Tabajara

Sou Auritha Tabajara

Nascida longe da praia,

Fascinada pelas notas

E Melodia da jandaia.

No Ceará foi à festa

Meu leito foi a floresta

Na companhia de Maia.

Minha essência ancestral

Me encontra cordelizando,

Em amparo faz-me existir,

Ao mundo eu vou contando,

Que minha forma de amar,

Ninguém vai colonizar,

Da arte vou me armando.

Filha da mãe Natureza

Mulher indígena eu sou,

Com a força feminina

Cinco século atravessou,

Cada vez mais sábia e forte,

Seu medo não é morte

Que o preconceito gerou.

Hoje essa mulher levanta

Com letra e voz autoral,

Contra toda violência,

Por um amor ancestral,

De um corpo esvaziado,

Usado sem ser amado,

Na lei do homem normal.

E baseado na bíblia,

O homem veio ditar,

Sua fé diz que é pecado,

O mesmo sexo amar,

E com massacre e doença,

Nossa língua e nossa crença,

Tentaram assassinar.

Essa força feminina,

Traz um sagrado poder,

Pois nascemos da floresta,,

E com ela vamos morrer,

É nossa ancestralidade

E nossa diversidade,

Que nos faz sobreviver.

Minha avó é referência,

Desde o tempo de menina,

Até me tornar mulher,

Nas histórias que ela ensina,

Estou pronta para voar,

A minha forma de amar

Raiz que nunca termina.

Fui casada tive filhos,

Quatro para variar,

Vitória Kawenne Cauê,

Ana vem comigo ficar,

Vitória e Cauê morreram,

E para o meu desespero,

Kawenne não sei onde está.

Eu são sou como Iracema,

A de José de Alencar,

Virgem dos lábios de mel,

Sem história pra lembrar,

Trago comigo a memória,

Sou Auritha com história,

Mulher livre para amar.

Sou lésbica, sou indígena,

Resistindo a violência

Nordestina, feminista,

Sou mulher de resistência

Ao regime a dominação,

Vivo a descriminação

Desigualdade e persistência.

Auritha Tabajara (1980) é escritora, contadora de histórias, cordelista e poeta da etnia Tabajara. Mora em São Paulo.

https://www.instagram.com/ita.tabajara/

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Don Oleari - Editor Chefão

Don Oleari - Editor Chefão

Radialista, Jornalista, Publicitário.
Don Oleari Corporeitcham