Rubens Pontes | Lundum, de Domingos Caldas Barbosa | 16/7

Lundum

Lundum

“Eu tenho uma Nhanhazinha

A quem tiro o meu chapéu

É tão bela tão galante

Parece coisa do Céu”.

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Rubens-Pontes

AQUI RUBENS PONTES – MEU POEMA DE SÁBADO

 

No nosso tempo não é incomum, ainda que seja raro, poeta ser também compositor. Vinícius de Moraes é um exemplo de poeta e compositor que tentou também ser cantor, mas, aí, sem êxito. Seus maiores sucessos tiveram a participação de compositores e instrumentistas.

“Garota de Ipanema” é uma mostra.

Dolores Duran, poeta e compositora, também intérprete, foi autora da canção “A noite do meu bem”, obra prima de poesia e melodia.

A História evidencia que essa associação de poesia e composição musical remonta a tempos imemoriais, e o nome de Domingos Caldas Barbosa, filho de um português com uma escrava negra angolana, nascido no Rio de Janeiro em 1740, ganhou destaque que se alongou no tempo.

Poeta e músico, divulgador em Portugal de lundus e modinhas, foi membro da Nova Arcádia de Lisboa e considerado o primeiro nome importante da música popular brasileira e lusitana.

Tornou-se um mundano padre católico, tonsurado em Coimbra, e ao mesmo tempo músico popular que conquistou espaços com suas trovas improvisadas ao som de sua viola de cordas de arame.

Domingos Caldas Barbosa foi além, e, num espaço de tempo medido por sua vida, levou a modinha tipicamente brasileira, com algumas transformações, a ser executada como música erudita nos salões da alta corte portuguesa.

A respeito da importância de sua obra, Manuel Bandeira fez o seguinte comentário:

“Caldas Barbosa é o primeiro brasileiro onde encontramos uma poesia de sabor inteiramente nosso. Algumas peças de “Viola de Lereno” pareciam poesia popular de hoje, se não se levar em conta a correção e elegância da dicção”.

Sua poesia, toda ela inspirada nas formas populares, modinhas e lunduns, não foi compreendida por José Veríssimo, que só viu na “Viola de Lereno” os “requebros da musa mulata a disfarçar a mesquinhez de inspiração e de forma.”

No entanto, bastaria corrermos os olhos pelos poetas que o antecederam para verificarmos logo a importância de sua contribuição à poesia brasileira. Contribuição das mais respeitáveis, seja pela graça espontânea com que este filho de português e de africana soube por em versos seus anseios e tormentos, esperanças e emoções”.

Patrono da Cadeira 3 da Academia Brasileira de Música, o poeta faleceu aos 61 anos  em 9 de novembro de 1800 no palácio do Conde de Pombeiro, em Bemposta, Lisboa.

Foi sepultado no dia seguinte na Igreja de Nossa Senhora dos Anjos.

“Lundum”, um dos seus poemas, foi selecionado pelo Portal Don Oleari e pela Coluna  como identificação de sua pitoresca forma de versejar.

Rubens Pontes

Capim Branco, MG

 

Lundum

Domingos Caldas Barbosa

 

Eu tenho uma Nhanhazinha

A quem tiro o meu chapéu;

É tão bela tão galante,

Parece coisa do Céu.

Ai céu!

Ela é minha iaiá,

O seu moleque sou eu.

Eu tenho uma Nhanhazinha

Que eu não a posso entender;

Depois de me ver penar,

Só então diz que me quer.

 

Ai céu!

Ela é minha iaiá,

O seu moleque sou eu.

Eu tenho uma Nhanhazinha

A melhor que há nesta rua;

Não há dengue como o seu,

Nem chulice como a sua.

Ai céu!

Ela é minha iaiá,

O seu moleque sou eu.

 

Eu tenho uma Nhanhazinha

Muito guapa muito rica;

O ser formosa me agrada,

O ser ingrata me pica.

 

Ai céu!

Ela é minha iaiá,

O seu moleque sou eu.

Eu tenho uma Nhanhazinha

De quem sou sempre moleque;

Ela vê-me estar ardendo,

E não me abana com o leque.

Ai céu!

Ela é minha iaiá,

O seu moleque sou eu.

Eu tenho uma Nhanhazinha

Por quem chora o coração;

E tanto chorei por ela,

Que fiquei sendo chorão.

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(Viola de Lereno, v. 2, 19)

 

 

 

Lundum

Lundum

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Domingos Caldas Barbosa

O Poeta da Viola, da Modinha e do Lundu (1740-1800)

José Ramos Tinhorão | (7/2/1928 – 3/8/2021)

https://iela.ufsc.br/noticia/o-brasil-nao-conhece-o-brasil-jose-ramos-tinhorao-o-intelectual-do-povo

Sicoob deve movimentar R$ 41 bilhões em crédito rural no Plano Safra 2022/2023

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Don Oleari - Editor Chefão

Don Oleari - Editor Chefão

Radialista, Jornalista, Publicitário.
Don Oleari Corporeitcham