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Rubens Pontes | Negro, pobre, alcoólatra, Lima Barreto morreu antes de sua obra torná-lo imortal | Poema em prosa, Lima Barreto | 16/9

negro, pobre

Negro, pobre

COLUNA AQUI RUBENS PONTES

MEUS POEMAS DE SÁBADO

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Rubens Pontes,
jornalista

A Coluna pinça na História da cultura brasileira nomes que a valorizam.

Discriminados em seu tempo, principalmente por serem negros ou mulatos, ainda assim são muitos os intelectuais que abriram espaços e se firmaram com destaque no cenário da literatura brasileira.

Um deles, negro, neto de escravos, Adão Ventura Ferreira dos Reis nasceu em Santo Antônio do Itambé, antigo distrito de Serro, em Minas Gerais, no ano de 1939.

Publicou seis livros de poesia, com maior destaque para “A cor da pele’, editado em 1980.

Um de seus poemas – “Negro Forro” – foi selecionado pelo crítico e curador literário Ítalo Moriconi para integrar a antologia “Os cem melhores poemas do século” (2001).

Suas obras foram traduzidas para várias línguas, entre elas o inglês, o espanhol, o alemão e o húngaro.

Minha carta de alforria

Não me deu fazendas,

Nem dinheiro no banco,

Nem bigodes retorcidos.

Minha carta de alforria

Costurou meus passos

Aos corredores da noite de minha pele.

Poetas e escritores negros

LIMA BARRETO

Desde Machado de Assis, a literatura brasileira tem sido valorizada com a presença de intelectuais negros e mulatos, praticamente todos vinculados a antepassados que vieram da África para ocupar com seus senhores escravagistas as selvagens terras recém descobertas e nelas, a propósito, plantar polos de civilização.

Cruz e Souza, Solano Trindade, Carolina Maria de Jesus, a cordelista Jarid Arraes, Abdias do Nascimento, Adão Ventura, Edmilson de Almeida, Elisa Lucinda, são apenas alguns nomes que afloram à nossa memória.

 capa-policarpo-1-1.jpg 16 de setembro de 2023 77 KBBiografia dramática

A Coluna deste sábado, no entanto, se detém em uma figura singular, um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos, que nos surpreende e emociona ao ler sua dramática biografia.

Afonso Henrique de Lima Barreto, neto de escravos, órfão de mãe aos 6 anos, foi em vida apontado como escritor marginal, vítima de preconceito por ser mulato, pobre e alcoólatra.

Seus principais trabalhos no campo da literatura só foram reconhecidos como obras clássicas depois de sua morte, aos 41 anos de idade, vitimado por ataque cardíaco, depois de sucessivas internações em manicômios.

Triste fim de Policarpo Quaresma” e “Clara dos Anjos” foram dois de seus romances, de maior repercussão entre críticos e leitores, também fora do Brasil.

Escreveu extensa obra – As aventuras do dr. Bogoloff, Numa e a Ninfa, Vida e morte de M.Z., Gonzaga de As, Histórias e Sonhos, os Bruzundungas, Bagatelas, Diário do Hospício.

Poucos aficionados da minha geração deixaram de deleitar-se com a leitura de “O homem que falava javanês”, bem humorado conto de Lima Barreto.

O outro lado da moeda

Vivendo numa família desestruturada e sem dinheiro, sem conseguir ir além do curso secundário, Lima Barreto foi vencido pelo alcoolismo. Buscava fugir da realidade a ele imposta pela conduta do pai demente que oscilava entre um mutismo fechado e gritos alucinados.

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lima barreto, primeira internação

A consequência foi inevitável. No ano de 1914 foi internado em um manicômio.

Na noite de Natal de 1919 sofreu recaída e voltou a ser internado.

Foi nesse período passado no Hospital Nacional dos Alienados – para onde eram levados epiléticos, crianças com atraso mental, tuberculosos, alcóolatras, portadores de doenças sexualmente transmitidas – que registrou, escrevendo com lápis em 79 tiras de papel,  como era seu tratamento contra o alcoolismo e o que via e ouvia no hospital psiquiátrico, dando origem ao livro “Diário do hospício”, contundente libelo contra o drama ali vivido pelos internados, denominando o hospital psiquiátrico como representação do inferno:

– Somos uma grande abóboda de trevas, de negro absoluto. Não é mais o dia azul cobalto, não é mais o negror da noite picado de estrelas palpitantes; é a treva absoluta, é toda ausência de luz, é o mistério impenetrável e um não poderás ir além que confessam a nossa própria inteligência e o próprio pensamento.

Lima Barreto nunca conseguiu abstrair-se da bebida, reconhecendo sua incapacidade de superar a dependência do vício.

No dia 1º de novembro de 1922, Lima Barreto morreu.

Sua obra, magnificamente escrita, por preconceito dos escritores contemporâneos, não alcançou em vida o reconhecimento que somente, e finalmente, décadas decorridas, superados os julgamentos morais, seus livros passaram a ocupar com o destaque merecido as estantes das bibliotecas nacionais e internacionais.

Confissão

Internado em hospício, Lima Barreto deixou registrado o texto que a Coluna publica, na íntegra:

Ao pegar no lápis para explicar bem estas notas que vou escrevendo no Hospício, cercado de delirantes cujos delírios mal compreendo, nessa incoerência verbal de manicômio, e que um diz, outro diz aquilo, e que parecendo conversar, as ideias e os sentidos das frases de cada um dos interlocutores vão cada qual para seu lado, eu me lembro muito bem que um amigo da minha família, médico ele mesmo de loucos, me deu, logo ao adoecer do meu pai, o livro de Maudsley “O crime e a loucura”. A obra me impressionou muito e de há muito premedito repetir-lhe a leitura.

Saído dela, escrevi um decálogo para o governo da minha vida; entre os seus artigos havia o mandamento de não beber alcóolicos, coisa aconselhada para evitar a loucura.

Nunca o cumpri e fiz mal. Muitas causas influíram para que eu voltasse a beber; mas de todas elas, foi um sentimento ou pressentimento, um medo, sem razão nem explicação de uma catástrofe doméstica sempre presente.  Adivinhava a morte do meu pai e eu sem dinheiro para enterra-lo; previa moléstias com tratamento e eu sem recursos… Eu me aborrecia e procurava distrair-me, ficar na cidade, avançar pelas noites a dentro; e assim conheci o chopp, o whisky, as noitadas, amanhecendo na casa  deste ou daquele.

Com esse depoimento de um dos maiores e trágicos escritores brasileiros, por mais tudo que não foi dito e pelo que foi possível dizer, a Coluna se fecha com o ‘de acordo” de Don Oleari, o Editor Chefão.

Ao pé da coluna, poema escrito por Lima Barreto como prosa. Por último, uma das frases mais conhecidas do poeta e escritor: – “Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil.”

Rubens Pontes, jornalista

Capim Branco, MG

Obra consultada: História Bizarra da Literatura Brasileira. Marcel Verrumo, Editora Planeta, SP.

Poema em prosa

Lima Barreto

Casar, para ela, não era negócio de paixão, nem se inseria no sentimento ou nos sentidos; era uma ideia, uma pura ideia.

Aquela sua inteligência rudimentar tinha separado da ideia de casar o amor, o prazer dos sentidos, uma tal ou qual liberdade, a maternidade, até o noivo.

Desde menina, ouvia a mamãe dizer: “Aprenda a fazer isso, porque quando você se casar”… ou senão: “Você precisa aprender a pregar botões, porque quando você se casar…”

A todo instante e a toda hora, lá vinha aquele – “porque, quando você se casar…” –

– e a menina foi se convencendo de que toda a existência só tendia para o casamento

A instrução, as satisfações íntimas, a alegria, tudo isso era inútil; a vida se resumia numa coisa: casar.

De resto, não era só dentro de sua família que ela encontrava aquela preocupação.

No colégio, na rua, em casa das famílias conhecidas, só se falava em casar.

“Sabe, Dona Maricota, a Lili casou-se, não fez grande negócio, pois parece que o noivo não é lá grande coisa”;

ou então: “A Zezé está doida para arranjar casamento, mas é tão feia, meu Deus!…”

A vida, o mundo, a variedade intensa dos sentimentos, das ideias, o nosso próprio direito à felicidade, foram parecendo ninharias para aquele cerebrozinho; e, de tal forma casar-se se lhe representou coisa importante,

uma espécie de dever, que não se casar, ficar solteira, “tia”, parecia-lhe um crime, uma vergonha.

De natureza muito pobre, sem capacidade para sentir qualquer coisa profunda e intensamente, sem quantidade emocional para a paixão ou para um grande afeto na sua inteligência a ideia de “casar-se” incrustou-se teimosamente como uma obsessão.

Negro, pobre

Edição, Don Oleari – [email protected]

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Don Oleari - Editor Chefão

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Radialista, Jornalista, Publicitário.
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