Eustáquio Palhares | Contraponto | O mapa e o território | 24/9

o mapa e o território

O mapa e o território

 

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eustáquio palhares

 

 

Coluna CONTRAPONTO – Eustáquio Palhares, jornalista

 

A terapia rápida popularizada nos anos 90 como Programação Neurolinguística consagrou termos e expressões que, como sempre ocorre, incorporam-se ao vocabulário cotidiano, são apropriados por correntes diversas e se tornam padrões de definições.

Ao lado de ancoragem, espelhamento, modelagem, a PNL trouxe-nos o entendimento de que o mapa não é o território. Bem, pode ser que a distinção seja anterior a essa abordagem, mas certamente ela a popularizou.

a-favor-contra.jpgE o Brasil de 2021 ratifica com excelentes ilustrações esse aforismo. A cena política brasileira tem uma descrição própria dependendo do lado em que se examina a questão. Se a oposição ao Governo, a leitura que se faz é do arreganho autoritário inclusive incitando a população a afrontar a Constituição. O que pressupõe um poder insuspeito do presidente de plantão, se se pode atribuir a ele tal poder de mobilização e o escamoteamento de que tais manifestações ocorrem por um nível de insatisfação que certamente transcendem  o mandatário.

De seu turno, os adeptos entendem que a efetiva ameaça à estabilidade constitucional deriva da usurpação de poderes no âmbito do pleno Estado de Direito, quando a instância máxima cuja razão de ser é interpretar e pacificar o entendimento da Carta Magna dispõe-se a agir pelo voluntarismo de ministros blindados por razões que são bem peculiares à nossa cultura política.

Embora o STJ seja vulnerável a uma ação destituídora do Congresso, a predominância de congressistas com telhado de vidro e potenciais réus ante uma retaliação da Corte equilibra o jogo do poder.

 millor_fernandes_imprensa_e_oposicao_o_resto_e_armazem_l2dv4dz-1.jpgE assim seguimos com as narrativas que atendem ás respectivas bolhas, tipo uma Matrix. Cada bolha se nutre de sua narrativa e por ela filtra a realidade. A imprensa tradicional assumiu um claro posicionamento de oposição sistemática, o que de certo modo compromete o próprio principio jornalístico do distanciamento que permita supor isenção e imparcialidade.

Uma tese controversa mesmo no âmbito jornalístico onde a isenção para muitos é uma abstração ou uma falácia, já que veículos e jornalistas embutem nos subtextos mais opiniões e posições do que a informação objetiva.

Aqui, não se confunde a crítica, mesmo que sistemática e necessária, com a oposição tenaz que interpreta  os fatos objetivos sempre pela ótica do contra, quaisquer que sejam os argumentos. A dita polaridade que expressa a ideologização do processo elimina as possibilidades de um debate minimamente inteligente. Descamba-se no maniqueísmo.

Legitimidade

A leitura das manifestações eloquentes do dia sete de setembro flagra a imprensa nessa incômoda posição ao optar por traduzir tais manifestações como uma provocação ou uma afronta e se abstém de reconhecer sua magnitude, sua proporção que resulta em algo caro ao exercício da autoridade: a legitimidade. É apoiar, simpatizar, apenas reconhecer quantas lideranças, individualmente, teriam a capacidade de entulhar as ruas numa manifestação de solidariedade tão retumbante? Isso não é endossar defeitos, falhas, equívocos. É apenas refletir um dado objetivo.

Há quem – e não necessariamente só a  Esquerda – julgue que o presidente cometeu estelionato eleitoral ao acenar com posturas, rupturas e decisões que não se consumaram. Ou não conseguiu implementar. Uma leitura opcional é de que, inveterado integrante do baixo clero congressista, ele representou uma descarga ou uma catarse de uma maioria insatisfeita mas sem se dar conta de que ganhar uma eleição não é exatamente assumir o Poder.

Apesar da  histórica cultura do presidencialismo, derivada direta do patriarcalismo, a Constituição de 88 outorgou um modelo parlamentarista que trava o jogo e o exercício do Governo. O establishment, ou na versão mais popularizada, o Mecanismo, joga pesado. De certo modo reprisou Fernando Collor de Melo que acreditou que ao surfar 35 milhões de votos contra Lula – ele também um outsider – estaria investido de poder para se impor a um Congresso refratário a qualquer ação que contrarie interesses corporativos ou fisiológicos mesmo.

que-pais-e-estado-minas-jornal.jpeg 24 de setembro de 2021Um congresso que pouco antes protagonizara a opera bufa dos anões do orçamento, desnudando que a Democracia Representativa se corrói na medida em que parece servir mais aos representantes que aos representados.

E o povo vem gradualmente percebendo isso desde as manifestações públicas de 2013. A catarse coletiva, em 2018, fixou-se em um nome, um outsider, um aventureiro, alguém de fora, mas que pudesse representar uma mudança, como Lula significou para muito mais que o espectro petista ou de esquerda, em 2002.

DETALHES DO ANEXO terceira-via.jpgE aí a Matrix, ou o Mapa, se confunde com o território. Sonha-se com uma “terceira via”, uma alternativa à polaridade reducionista atual  reeditando o messianismo que produz  um Collor, um Lula, um Bolsonaro.

Nenhum nome logrará dobrar a estrutura política vigente, o jogo pesado do Sistema, a não ser que a sociedade de fato intensifique suas manifestações, envolva-se, mobilize-se e contrarie a convicção predominante no meio político que o papel do povo é apenas  aquele presidido por Pilatos no julgamento mais célebre da história.

 

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Don Oleari - Editor Chefão

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Radialista, Jornalista, Publicitário.
Don Oleari Corporeitcham