Rubens Pontes | O meu sonho capixaba, de Pedro Sevylla de Juana | 25/6

O meu poema

 

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Rubens-Pontes

Coluna

AQUI RUBENS PONTES –

Meu poema de sábado

 

 

“No alto da coluna do Penedo

ao modo de São Simão o Estilista,

deixo o relato do meu sonho capixaba”

 

O Portal Don Oleari rende homenagem solidária a todos os que, no País ou fora das nossas fronteiras, entoam loas ao Espírito Santo, seus emblemas, suas lendas, sua História, seus valores humanos, suas conquistas.

Dentro dessa visão, a Coluna deste sábado teve sua atenção voltada para o acadêmico espanhol Pedro  Sevylla de Juana, autor de  28 livros,” Prêmio Internacional Vargas LLosa de Romance”, erudito escritor que se mostrou encantado com Vitória e interessado leitor dos nossos autores.

Pedro Sevylla de Juana nasceu em Valdeperoonde, província de Palencia, onde se juntam La Tierra de Campos e El Cerrato, na Espanha, no dia 16 de março de 1946.

Com a intenção de entender os mistérios da existência, aprendeu a ler aos três anos de idade; para explicar as suas razões, aos doze se iniciou na escrita.

Cumpriu seu tempo, e já depois dos setenta transita a etapa de maior liberdade e ousadia, tendo vivido em Palencia, Valladolid, Barcelona e Madrid e passado temporadas em Genebra, Estoril, Tanger, Paris e Amsterdã.

Publicitário, conferencista, tradutor, articulista, poeta, ensaísta, crítico e narrador, publicou vinte e oito livros e colabora com diversas revistas da Europa e América, tanto em língua espanhola como portuguesa. Seus trabalhos integram seis antologias internacionais.

Destaque do Portal Don Oleari

Pedro Sevylla de Juana é acadêmico correspondente da Academia Espírito-santense de Letras, sediado em El Escorial, onde se dedica por inteiro às suas paixões mais arraigadas: viver, ler e escrever.

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pedro e renata

O escritor espanhol visitou Vitória em dezembro de 2020, conheceu sítios históricos capitaneado por Renata Bonfim, autora de “O Coração de Medusa”, obra por ele traduzida para edição espanhola. Proferiu palestra na UFES e no Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, mostrando-se encantado com tudo que viu e sobretudo sentiu.

A Coluna selecionou um de seus poemas “O Meu Sonho Capixaba, no qual alguns dos nossos poetas são nominalmente citados, entre eles Matusalém Dias de Moura, Adelina Tecla Correia Lyrio, Haidée Nicolussi, Maria Antonieta de Siqueira Tatagiba, Maria Bernadete Cunha de Lyra.

Extenso e belo poema no qual seus 400 versos contam uma história de arte e de cultura, “O Meu Sonho Capixaba” é uma narrativa produzida por um espanhol que poderia ter seu nome, com honra e glória, incluído no extenso e vitorioso panorama da nossa arte poética.

Rubens Pontes

Capim Branco, MG

 

O meu sonho capixaba

Pedro Sevylla de Juana

 

Passava eu o tempo me alimentando

de história, geografia e literatura,

de uma terra mais interessante

que nenhuma outra. Eram dias

e noites de trabalho intenso,

comendo e dormindo menos que um sabiá.

Olhando as estrelas para

as individualizar e as reconhecer,

caí num sono profundo com a cabeça

apoiada na mesa do jardim.

 

Tudo começa quando o planeta Terra

se torna habitável,

recebendo nos meteoritos a essência

e os primeiros indícios

da vida mais singela.

 

Logo aconteceu o período Cambriano,

lá na era Paleozoica,

faz disso

quinhentos milhões

de anos,

quando a existência estourou na totalidade

produzindo

a gigantesca explosão de vida

da que tanto se escreveu.

Eu era um trilobita

naquela época remota,

artrópode de três lóbulos, que,

certamente,

tinha visto com grande interesse,

já fossilizado, na aula de ciências

naturais do colégio La Salle.

 

Vivia fazendo amigos na água

para me defender dos inimigos,

ignorando que, fora,

a vida não seria possível

até que a camada de ozônio alcançasse

uma espessura suficiente

para deter as radiações solares

mais perigosas.

 

Estando no período Devônico

– abro um parêntese para dizer

que vem o nome do condado de Devon,

próximo a Cornwall,

onde passei um verão

estudando inglês com meus filhos –

assim pois, no Devônico

vejo deslizar mansamente,

ainda ingênuo, o primeiro entardecer

de uma solene primavera,

sossego indescritível

roto pelo ritmo inarmônico

do incremento e desaparição

de espécies evolutivas.

 

Enquanto eu salto da estrofe anterior

transcorrem centenas de milhões de anos,

e depois de esse lapso

a Terra muda na sua totalidade.

Os movimentos das placas tectônicas

sobre o manto

desfazem a crescida Pangeia,

estabelecendo ao sul

um supercontinente

conhecido como Gonduana.

 

Uma parte formidável dele

é o intrincado labirinto de possibilidades

que agora se chama Brasil.

A terra fecunda atravessada

por um casal de colibris,

atual Estado de Espírito Santo,

só era um campo carecente de frutos,

nem sequer os que produziriam

no seu momento

os melhores açúcar e café do mundo.

 

Na borda contemplo uma ilha alta e formosa

de origem vulcânica.

Há lava ardente no seu interior

embora não tenha nome ainda.

Emergindo da água mais próxima

aparece um promontório granítico

que algum de nós denominou

Penedo.

 

Pois bem,

no topo do Penedo

éramos quatro líricos épicos

sentados em círculo.

Cordados entusiastas do equilíbrio e da harmonia,

os quatro sonhadores intentávamos

produzir uma música espontânea

que, com algo de choro,

decidimos chamar Samba.

 

Joaquim Machado de Assis,

autodidata de vivo engenho,

vida plácida de literato grande,

superioridade intelectual,

serenidade e firmeza num rosto

cercado pela linha do cabelo,

barba e bigode crescidos,

lhe interessava tudo, admirava a Carola,

e vindo de baixo

chegou a ser o primeiro presidente

da Academia

Brasileira de Letras.

 

Hilda Hilst

filha única e aluna de internato,

a verdade, o amor, a liberdade e a dita,

ressoavam nela como palavras crescidas no cume

das nuvens inacessíveis.

Necessitava ser feliz

e a felicidade e o desejo,

horizonte atrás do horizonte,

brincavam com ela às escondidas.

Entroncada no tempo e no espaço,

catarata intermitente, égua alada

e bandeira ondeando agitada de dúvidas,

seu instante arderá

indefinidamente.

 

Antônio de Castro Alves,

cabeleira ao vento reclamando

liberdade e justiça para os oprimidos

– mocidade e morte –

vinte e quatro anos de existência,

vividos com intensidade poética admirável,

lhe bastaram para deixar

uma inspirada obra em duas vertentes,

épica e lírica,

complementares.

 

Sobre o já Penedo,

perto da não Vitória ainda

mas sempre ilha acolhedora,

no anoitecer quieto

quebrado pela indômita perseverança

do tempo transcorrendo e transcorrendo,

os quatro vates donos de uma

irreprimível paixão criadora,

soprávamos música na trombeta

de quem ia  ser meu amigo Satchmo.

 

É fácil compreender

que o Penedo é para a Ilha

o que a Ilha é para o Brasil e o Continente:

sentinela da entrada,

defesa

e farol.

 

A erosão e o homem foram tirando

e tirando,

mas então era mais alto o Rochedo,

mais dilatado, maior;

por isso pude me encontrar ali

com escritores amigos:

_____Garota de Sacramento,

mulher de favela,

saiu teu livro desse Quarto de despejo,

voou alto e longe, pombinha mensageira,

choveu o dinheiro em forma de dilúvio universal

e te chegou na distribuição

uma parte pequena.

_____Discutíamos Ester Abreu e eu

sobre alguns aspectos confusos de Don Juan

baixando aos infernos

para surgir de novo

andrógino,

triunfante,

celestial.

_____Miscigenação. Diz de mim Gilberto

de Mello Freyre, que sou a afortunada conjunção

de origens miscíveis, de misturadas culturas;

e assegura que é a mestiçagem

o princípio do progresso progressivo

e a constante dos avanços todos.

 

Fronteiriço eu, estava no centro

quando pude contemplar desde o Penedo,

trezentos e sessenta graus ao redor,

os trigais,

mar de primavera em Valdepero, ermida

de San Pedro e da Virgen del Consuelo,

castelo, arco da muralha,

colegiada de Husillos, sítios históricos de Muqui

e São Mateus,

Santuário de Nossa Senhora da Penha

e frei Pedro Palácios na gruta,

estações de Marechal Floriano e Matilde,

os troncos erguidos

e firmes da Mata Atlântica Capixaba,

a Pedra Soares de Ponto Belo.

Fazia calor e chovia.

 

Eu vi abaixo o alentejano Vasco

Fernandes Coutinho na Prainha,

desembarcando da nau Gloria

com a decidida intenção de estabelecer

a Vila do Espírito Santo e, depois,

Vila Nova de ser necessário

como aconteceu logo.

O sonhei desse jeito

ao contemplar seu marcial porte,

adereços de gala,

num retrato majestoso

do acervo da Casa da Memória

em Vila Velha.

 

Acho que observei, estou convencido,

o Padre José de Anchieta

caminhando catorze léguas

pelo caminho da praia,

desde Reritiba até Vitória,

onde se alçavam a igreja e o colégio

de São Tiago.

 

Vivi o momento prateado da vertigem

na Ladeira de Pelourinho em Vitória.

Maria Ortiz se fez heroína

– madeira em chamas, pedras, água fervente –

ardor e coragem contagiosos

contra os atacantes

holandeses.

 

Alagava o sol minhas pupilas,

não obstante, pude pensar

que é obrigação do escravo escapar,

e de quem assina um contrato

conseguir que se cumpra

do principio ao fim

no tempo acordado.

 

Pelo que tenho lido de Afonso Claudio,

que se tornou abolicionista em Recife,

efeito natural e lógico;

e o que ouvi da boca do protagonista quando

desde Mestre Álvaro chegou a meu amado Rochedo,

Elisiário escapou da morte pela audácia

de sua vontade indomável.

 

Ide a Queimado, em Serra,

vereis que aí estão,

ainda firmes, os restos da igreja

lembrando – causa e consequência –

os inolvidáveis acontecimentos.

 

Elos de uma cadeia inacabável,

os anos chegam

a mil novecentos e vinte e dois

quando,

Amazônia cultural com a força

de um período geológico,

Brasil dá á luz

o Modernismo.

 

Leitor fascinado desde a infância,

no Penedo leio a revista Klaxon

junto a Mario e Oswald de Andrade,

confidência do Itabirano Carlos

Drummond, também de Andrade,

Pagu, Tarsila e Bandeira;

sete amantes

da liberdade e da renovação

escrevendo, pintando, ruas cheias de gente,

pessoas que saem das casas

e caminham pelos povos

e pelas cidades,

falando de suas coisas em sua linguagem clara.

Abaporu e Antropofagia, potência

para impulsionar A máquina do mundo

que transportará  o Brasil ao mundo

com o mundo.

 

Penso em Pagu no Largo de São Francisco.

A inteligente, bela e forte lutadora,

saia azul e branca de normalista,

lábios pintados de roxo,

caminho à Escola Normal onde aprendia,

chamava a atenção dos estudantes

da Faculdade de Direito.

Amei a Pagu ao ler Parque Industrial,

ainda a amo.

 

Eu queria escrever

um soneto com o conteúdo deste poema;

pois sei

que o soneto, mais que diamante literário

é turmalina de Paraíba.

Contudo

o soneto exige a perfeição

para alcançar seu efeito mais atraente.

 

Estamos em terra de sonetistas,

tenho na minha memória exemplos

como os de Beatriz Monjardim

em Floradas de inverno

mais os de Ainda o soneto de Athayr Cagnin

ou os Sonetos insones de Matusalém Dias de Moura.

Em consequência,

o soneto foi descartado

dada minha incapacidade manifesta.

 

Nas escritoras capixabas pretendo

homenagear as mulheres

que tiveram

obstáculos de toda espécie

para desembrulhar sua paixão criadora e,

perseverantes, os venceram.

 

Adelina Tecla Correia Lyrio, capixaba

desde o ano 1863,

foi avançada na publicação de

poemas próprios em jornais,

participando nas campanhas abolicionistas

e nos saraus literários onde

se declamavam poemas

escritos pelas mulheres.

 

Haydée Nicolussi,

nascida em Alfredo Chaves no ano 1905,

com produção literária reconhecida

em todo o país,

“originalidade de estilo e audácia de ideias”,

publicou o livro Festa na sombra, depois

de sair da cadeia acusada

de ter participado na Revolta Vermelha

a favor da reforma agrária.

 

Maria Antonieta de Siqueira Tatagiba,

de São Pedro de Itabapoana,

nascida em 1916  morreu na idade

dos elegidos, trinta e três anos.

Dificuldades econômicas a impediram

seguir os estudos de medicina.

Foi a primeira mulher

capixaba

em publicar um livro.

Divulgou, em 1927, Frauta agreste,

de poesia rítmica cheia de beleza.

“A Natureza toda é frescor, louçania…”

 

Maria Bernardette Cunha de Lyra,

nascida em Conceição da Barra

no ano 1938,

ocupa a cadeira número 1 da Academia

Espírito-santense de Letras,

e tem publicada uma obra copiosa e magnífica

onde ilumina as mulheres

e o mundo feminino.

 

E assim, há outras autoras,

capixabas de raiz, coração ou pensamento,

muito valiosas.

 

Nestes tempos de incerteza,

ano dois mil e vinte,

quando a pandemia abate as pessoas

em várias vertentes,

Ester Abreu assume a presidência

da Academia Espírito-santense de Letras,

instituição sólida que pronto

cumprirá cem anos.

 

A mesma Ester

o dia dez de agosto convoca a reunião

dos acadêmicos de cadeira

e membros correspondentes.

 

Por isso, todos nós,

ocupamos o Penedo às dezoito horas,

vestindo máscara facial

e mantendo a distância social preventiva.

Tratados os assuntos comuns

cada um fala dos seus trabalhos atuais

e dos propósitos

para um futuro que não mostra a nariz.

 

Eu exponho a minha conclusão.

Filosofia, metafísica, teosofia, naturalismo,

sociologia, psicologia: entendo a espécie

humana no conjunto e nas partes:

homo homini lupus; amor, primeira

força

metafórica.

Estou bem preparado: me disse eu.

Mas, sei aonde vou?

Não estou seguro, embora este sonho

quiçá marque o caminho.

 

No alto da coluna do Penedo,

ao modo de São Simão o Estilita,

deixo o relato de meu sonho capixaba

para que vocês,

se esse é seu gosto,

possam interpretá-lo.

 

PS de J, Vitória ES, através dos séculos.

https://pedrosevylla.com/

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O meu sonho

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Don Oleari - Editor Chefão

Don Oleari - Editor Chefão

Radialista, Jornalista, Publicitário.
Don Oleari Corporeitcham