Kleber Frizzera: Paralelepípedos | 29/7

Paralelepípedos

Paralelepípedos

olho muito tempo o corpo de um poema

um filete de sangue

nas gengivas

Ana Cristina Cesar

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kleber frizzera

Imensas caixas, paralelepípedos sem janelas, apenas acessadas por uma sequência de portas, escuras, em paredes brancas, passaram a ocupar, a se somar nas rodovias que acessam à metrópole da Grande Vitória.

Guardam segredos, estes volumes prismáticos, abrigam coisas importadas do país e do mundo, eletrônicos, roupas, alimentos, entram e saem, a cada instante, de baús de caminhões, que se atropelam, acumulam mercadorias que viajaram longas distancias, que cruzaram terras e mares para abastecer a cidade faminta.

Denunciam logo suas presenças, ocupam à distância, terrenos vazios, abandonados, expondo ao passante as suas duras e longas formas geométricas, sem marcas, simplesmente pousadas, estranhas, surpreendentes, de outras galáxias ou planetas.

Mensageiros espaciais, são espiões, alimentando os libertos da natureza, alimentam (in)satisfeitos sonhos, oferecem, à vista comum, um mundo esvaziado de sentidos, repletos de objetos que não mais suportam significados fortes ou emoções qualificadas, que os tornem próximos aos humanos.

Mágicas máquinas, anestesiam os contatos com a vil matéria, anulam suas firmes resistências, rudezas e lugares, afastadas as presenças anteriores e as suadas marcas dos trabalhadores.

Seus designs, universais, não traem os sinais dos esforços e dos veios das matérias originais, não indicam os chãos das fábricas, os pisos duros de suas transformações e valores impressos, mas lisos, polidos, escorregam aos contatos com as mãos.

O que é polido e impecável não dói, … anula qualquer coisa que possa confrontá-lo. Toda negatividade é assim eliminada”, escreve Byung-Chul Han.

Serão estes mensageiros, aparentemente mudos, anúncios de um futuro cego, precursores de tempos vazios, sem gosto ou história, tempo das narrativas tristes, de homogêneos e insones acontecimentos, de locais de totais semelhanças, de igualdades sem diferenças e potencias?

Nas montanhas capixabas, tratores avançam sobre as matas, nivelam paisagens, destroem diversidades naturais, embrutecem os silêncios das árvores e apagam as pequenas falas dos pássaros e dos animais. Impassíveis, observamos a paralisia dos governos, antes alertas aos lucros, assistimos a covardia que imobiliza a vontade contra o bruto, o feroz, que tal na Amazônia, estende o braço forte contra o índio, a floresta e o incapaz.

britz-13_07_97_foto_josemar_goncalves_bar_britz-5679018-1.jpgNos ares capixabas, circulam, em longos vagões, a poeira mineral, extensas e negras pedras extraídas das minas, gerais, poeira que desmancha vales e vilas, invade rios e mares, exportada em escuros porões, que escurece de vermelhos os céus das tardes de outono.

Nos mares capixabas, chegam, flutuam e partem navios, alertam cumplicidades estranhas, interrompidas há décadas, de marinheiros bêbados, de portuários selvagens, declamando a Internacional em madrugadas insones, feitas de noitadas de conversas e cervejas intermináveis na varanda do Britz Bar.

Seres híbridos, estamos sendo enviados a futuros em que a virtualidade nos torna cyborgs, seres metade máquinas, metade humanos, turbinados para a captura dos estímulos, dos pensamentos, das emoções e que imaginam a expansão do corpo e razão. Rompidos os limites naturais, fisiológicos, que bloqueiam a exploração sem fim do planeta, super-homens, supermulheres, investigaremos mais ao fundo, mais ao longe, com mais sensíveis observações, os segredos e as leis do universo e da vida.

Libertos os espíritos da prisão, tornam-se supérfluos os objetos e as máquinas materiais de sobrevivência, dispensáveis os seus mecanismos e instrumentos e produtos singulares. Objetos e serviços de extração e produção, universais, lisos e suficientes, distribuídos, em tempos recordes, por uma logística global, serão o fundo, o cenário impessoal a serem preenchidos por idênticos plantéis.

Neste mundo próximo, viveremos em um insensível labirinto, desorientados, cercados por estas muitas e multiplicadas caixas prismáticas, iguais, brancos paralelepípedos logísticos, e nos esforçaremos, inutilmente, sem fins, sem desejos, sem jornadas, em alcançar uma meta reversa.

Kleber Frizzera

Julho 2022

Graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Minas Gerais (1971) e mestrado em Arquitetura pela Universidade Federal de Minas Gerais (1998). Foi secretário municipal de desenvolvimento da cidade da Prefeitura de Vitória/ES (2006/2012) e professor adjunto da Universidade Federal do Espírito Santo ( 1978/2015) https://www.ufes.br/. Tem experiência na área de Arquitetura e Urbanismo, com ênfase em Fundamentos de Arquitetura e Urbanismo, atuando principalmente em projetos de arquitetura, arquitetura teoria e crítica, arquitetura áreas centrais, planejamento territorial e renovação urbana.

Paralelepípedos

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Don Oleari - Editor Chefão

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Radialista, Jornalista, Publicitário.
Don Oleari Corporeitcham