Aqui Rubens Pontes apresenta Orlando Eller: Tem saúva na lavoura | 14/10

tem saúva na lavoura

Tem saúva na lavoura…

orlando eller

Orlando Eller, jornalista

NEC = Nota do Editor Chefão, Don Oleari –

Por mais que tenha escarafunchado o tal Gugou, não consegui achar a música de Arlindo Marques Júnior e Roberto Roberti e gravada em 1955 pela saudosa dupla Alvarenga e Ranchinho sobre a saúva. 

Outubro está aí, novamente; mês em que, por tradição e cultura de passado não muito distante, os agricultores batiam palhada, ato de capinar espaços das lavouras colhidas, e amontoavam os restos em coivaras, que eram depois queimadas para que o solo estivesse limpo para receber sementes após a primeira chuva.

Quando podiam, eles derrubavam novos eitos de floresta virgem ou, então, botavam ao chão capoeirões para abrir espaços a novos plantios, de café, de milho, de feijão e de arroz, principalmente. 

Então, outubro também era tempo em que habitualmente  se abria a estação das chuvas de verão. Havia umidade de sobra e mormaço no céu e na terra. Cupins e saúvas, entre outros insetos, já estavam de prontidão para seus vôos nupciais, em ritual de disseminação de colônias. O vôo dos cupins ocorria em início de noite, e era prenúncio de chuvas. 

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tanajura-içá

As içás, ou tanajuras (fêmeas aladas das saúvas), só alçavam vôos em tardes de forte mormaço, depois que a terra tivesse recebido as primeiras chuvas. Era preciso que o solo estivesse molhado e, pois, amolecido, para ser facilmente perfurado para construção de seus ninhos. Ali, após vedar o furo de entrada, permaneciam solitárias, como em bunker seguro, pondo os ovos fecundados da primeira ninhada.

Contemplar cupins e tanajuras no tempo certo em busca de um lugar protegido para procriar fez parte da primeira lição de sustentabilidade que tive; foi quando comecei a perceber que todas as coisas à minha volta faziam parte de um equilíbrio inteligente, essencial à existência e à sobrevivência. Foi precioso admirar que ambos descartavam suas asas tão logo encontrassem onde nidificar; porque voar então já não era mais estratégico, mas empecilho à nova fase do processo.

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papagaio chauá

Outubro era também mês em que os homens caçavam filhotes de papagaios, em especial os chauás, admiráveis cabeças vermelhas que se domesticavam rapidamente e imitavam tolas graças humanas.

Vigiavam o vaivém deles para descobrir em que árvore, entre as antigas ainda existentes no cume das montanhas, poderiam estar os ninhos. E quando lhes dava a sensação de que os filhotes poderiam estar empenados e prontos para alçar vôo, derrubavam o pau a machado. A sorte entrava em jogo e no jogo dela quase sempre morria a ninhada inteira.

Com o passar do tempo e dos ares, outubro tornou-se igualmente o mês de eleições. Uma nova estação de vôo em que, quase nunca, as asas são descartadas por terem deixado de ser estratégicas ou por se tornarem empecilho. Dia desses minha irmã Maria Eller, professora pública estadual escaldada, quis saber:

“Você se lembra, a  gente era criança lá na roça quando papai cantava uma música que dizia: “Tem saúva na lavoura, tem saúva no quintal, mas onde tem mais saúva é no Distrito Federal”?

Claro que me lembro. Ele a cantava a caminho da roça, no eito do cafezal, na paradinha para refresco à sombra de um arbusto. Como exímio conhecedor de saúvas, que insistiam em destruir parte das suas parcas lavouras, ele sabia que delas provinham as tanajuras, as içás aladas, como em carreata espacial em busca de mais um trono para reinar em colônia operária pronta para colher o pomar seguinte.

Meu pai tinha aprendido, eu nunca soube onde, breve trecho de uma marchinha de Carnaval composta por Arlindo Marques Júnior e Roberto Roberti e gravada em 1955, poucos meses após o suicídio de Getúlio Vargas, pela dupla Alvarenga e Ranchinho. Diz a letra:

Marcha da Saúva

Ou o Brasil acaba com a saúva,

ou a saúva acaba com o Brasil.

Ou o Brasil acaba com a saúva,

ou a saúva, acaba com o Brasil.

 

Tem saúva na lavoura,

tem saúva no quintal,

mas onde tem mais saúva

é no Distrito Federal.

 

Quá, quá, quá, quá,

essa é a pior saúva, seu Cabral.

Quem não trabalha

mete a mão no capital.

À época, eu mal completara onze anos. Sabia o que eram saúvas, porque na guerra muitas vezes a elas declarada, pés descalços e enxada à mão, me punha a remover toda a terra extraída por elas durante a construção de suas colônias. Era necessário deixar livres suas portas de entrada para facilitar a injeção de veneno.

Praga vigorosa no ambiente desequilibrado, saúvas sempre foram  tristeza para agricultores. Lembro-me que, sem qualquer proteção e com uso de bombas ineficientes, aplicavam formicida Tatu, BHC (ou HCB, no dizer deles) e Blemco. Muitas vezes ajudei a fazê-lo sob a tortura de ser ferido nos pés pelas pinças cortadeiras enquanto meu pai cantava o extrato da marchinha.

Acho que saúvas deixaram de ser o pior problema na lavoura brasileira. Porque já é possível há bom tempo interferir contra elas com armas químicas.  Os agricultores já lhes oferecem, gratuitamente, boas porções de isca venenosa que elas trocam por qualquer folha, suculenta que seja. E isso tem reduzindo drasticamente a eficiência das colônias.

Um dia, quem sabe, na colônia humana não se invente um milagre, algo capaz de tornar a corrupção crime hediondo, por letra que se aplique e que seja efetiva de assim manter sob controle esta ânsia tão desgraçada de ser saúva, quando não tanajura ou cupim que voam e se multiplicam como praga que o diabo abençoa.

Orlando Eller, Jornalista

https://donoleari.com.br/debora-oliveira/

 

https://www.youtube.com/watch?v=bwEUxX4FFX0

Tem saúva na lavoura

Tem saúva na lavoura

Tem saúva na lavoura

Tem saúva na lavoura

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Don Oleari - Editor Chefão

Don Oleari - Editor Chefão

Radialista, Jornalista, Publicitário.
Don Oleari Corporeitcham