Todas as vias: Eustáquio Palhares | Contraponto | 20/11

Todas as vias

 

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eustáquio palhares | Foto de uma viagem à Tailândia

 

Contraponto | Eustáquio Palhares, jornalista

 

O cenário político está tragicômico, reverberando o velho “seria cômico se não fosse trágico”.  Convém entender o espectro desse quadro, a rigor um teatro  de personas e narrativas  que se divide entre esquerdofrênicos, esquerdófobos e isentões.

Esses últimos festejam o lançamento oficial da candidatura do ex-juiz e ministro da Justiça Sérgio Moro, cacifado pela imagem de carrasco inexorável de corruptos ricos que sempre estiveram a salvo da Justiça que alcança os mortais comuns. Ou jamais foram cogitados como réus das bandalheiras que desde sempre  prosperaram  à sombra da pátria mãe tão distraída,  com a conivência de uma elite indigna desse nome.

A entronização de Moro como candidato é um grande alento para os que não se conformam com a polarização reducionista – e imbecilizante – entre os símbolos da esquerda e da direita, desejando, na prática,  que Bolsonaro fosse enforcado com as tripas de Lula (pedindo  vênia a Daniel Cohen Bendit, Paris, 1968).

Depois que as eleições de 2018 desmoralizaram todas as pesquisas, particularmente desnudando-as como resultados manipulados para captar o voto “útil”, as pesquisas atuais pouco falam à grande maioria dos eleitores. Há os racionalistas que se fiam por elas e creditam-lhe a função digna de sensores  do momento. Há os que acham que elas podem, no máximo, aferir o humor volátil do eleitorado em determinado momento sem garantia de que ele se mantenha.

O certo é que a candidatura anunciada de Sérgio Moro enriquece o cenário da disputa, embora a suspeita de que uma fratura do centro-direita venha a favorecer a esquerda. É o preço da democracia. Embora a gente não se canse de pagar para ver, esperanças se renovando a cada eleição e nunca esterilizadas pelas sucessivas decepções.

E para animar mais o cenário prometendo um desfile rico de intenções, propostas, soluções salvadoras e compromissos, o PSDB vai debater ainda quem escolhe internamente para configurar a “quarta” via. O show promete.

Lula é conhecido e sua vida pregressa é invisível apenas ao fundamentalismo petista, produzindo uma decepção maior do que Maluf, Sarney, Renan, Jarbas Barbalho, Eduardo Cunha e afins desde que desses sempre se esperou o que entregaram. Lula representou a fadiga de material da sociedade com a representação política tradicional. Era o subversivo que deveria invadir o banquete da burguesia para detona-lo.

 esquerda-direita.jpg Em vez disso caiu de quatro nos acepipes e iguarias oferecidos aos comensais e mandou uma banana para os “cumpanhêros” que o aguardavam atrás dos muros esperando ele abrir a porta da mansão.  Deixou como legado a maior corrupção e a maior crise econômica da história brasileira.

Bolsonaro está sendo conhecido. Para os adeptos, a confirmação de que o cara do senso comum pode melhorar o Brasil se o Congresso e o STF deixarem; para os opositores a negação da civilidade, o cortejo ao arbítrio, a truculência que depõe contra a solenidade de cargo esperada de um presidente, agravada por uma incapacidade gerencial que ameaça deixar a inflação saltar de um dígito, descontrolando-se. Em ambos os casos, narrativas de lado a lado prevalecendo sobre uma percepção da realidade que melhor se definirá na perspectiva histórica.

E agora surge a terceira via encarnada em Sérgio Moro. Seu discurso na solenidade midiática  de filiação ao Podemos soou como música aos ouvidos dos então órfãos de uma opção. Patriotismo, desprendimento pela causa maior da nação, a persona do novo que propõe mais que uma cara nova, nova postura política afiançada pela sua trajetória de juiz intransigente com a corrupção, notadamente as de grande porte, historicamente blindadas pelos conluios de uma tradicional cleptocracia, foram os atributos que ele reivindicou.

Uma intransigência tão rígida que o levou a abdicar do Ministério para se manter coerente com seu postulado ao entender que o rigor com que se propôs a enfrentar a corrupção deveria ser “flexibilizado”. E a partir daí enunciou seu plano de Governo,  estendendo-se  em propostas para as constatar as mazelas que perduram.

Aqui caímos no “Dèja vu”. Pouco diferente do que outros propuseram e supostamente com a mesma convicção da viabilidade de suas propostas.  Vide Bolsonaro refutando veementemente, quando candidato,  a possibilidade de acordo com o Centrão e sua reconsideração posterior, à luz das efetivas regras do jogo que se joga em Brasília, de que “O Centrão faz parte…” ou que o estupro é inevitável, em nome da governabilidade.

Bolsonaro, aliás, de certo modo replica a experiência do então caçador de Marajás Fernando Collor de Mello, ungido ao Planalto com 35 milhões de votos, sobre os quais entendeu ter plena autoridade presidencial e por isso o Congresso lhe renderia reverência, senão subordinação.  Um Congresso que pouco tempo antes experimentara a vergonha dos “anões do Orçamento” e desde sempre se mostra mais  escancaradamente  orientado pelo fisiologismo da casa do que para as  demandas de uma agenda nacional séria. E o caçador de marajás viu-se cassado a partir das evidências de um Fiat Elba.

Talvez soe como impertinente ceticismo duvidar das palavras de uma personalidade que não foi ainda efetivamente testada e, por isso, não se pode atribuir-lhe um papel que outros já desempenharam em condições idênticas, como candidatos.

Mas convém examinar o contexto político e cultural que historicamente manieta e engessa mesmo políticos bem intencionados, frustrando-lhes as ações,  com o que  decepcionam  os que nele apostaram.

Os que suspiram com algum alívio pela entrada em cena de Moro ponderam que ele poderá se cercar de bons quadros e  tem formação cultural para entabular o diálogo tão necessário aos consensos requeridos por uma agenda disruptiva. Em termos mais chulos, ponderam que saberá se cercar de “putas velhas” que lhe guarnecerão nas inevitáveis negociações que são da essência do jogo político. O termo já supõe inferências igualmente chulas, desde que são as prostitutas mais rodadas que cobram michês mais baratos.

Outros nomes que já se prenunciam e que formariam a escuderia do sempre mencionado Luciano Hulk não garantem a consistência requerida por uma gestão transformadora. Dentre esses cita-se Paulo Hartung, alavancado por um excelente trabalho de promoção na mídia nacional e seu próprio currículo de gestor que promoveu o equilíbrio fiscal do ES, contrastando com a regra nacional de estados deficitários.

Mas conhecido por exibir melhor desenvoltura quando não enfrenta o contraditório, o debate franco,  ou quando pode impor a tal “unanimidade bonapartista”. E Pérsio Arida, um dos recorrentemente festejados “pais” do Plano Real que um dia será melhor explicado à luz da economia política com o artifício das URVs. Nunca se mediu a inflação da URV, um indexador que representou um pacto da sociedade para zerar a inflação quando deixasse de vigorar.

Dificilmente qualquer via, seja a primeira, segunda, terceira, décima via será bem sucedida no propósito de implementar a agenda reestruturante que o Brasil necessita. À direita, à esquerda, ao centro, social-democrata,  liberal, corrupto ou fascista, o nome que se sufragar deverá se subordinar aos ágios e pedágios cobrados por um Congresso historicamente fisiológico.

Uma instância em que a maioria dos seus integrantes está enredada em processos judiciais cujo desfecho depende de uma Corte Constitucional que avocou para si poderes que a Constituição não lhe outorga. E que assim permanecerá ao menos enquanto perdurar sua atual formação. Ignorar essa circunstância remete à enxugação de gelo, à fixação de prego na areia.

Assim como a pandemia atropelou hábitos, costumes, prioridades e toda uma cultura comportamental, talvez a crise instaure consensos até aqui  inconcebíveis. A sociedade necessita compreender a necessidade de um pacto digno do nome em que tacitamente haja  concessões de parte a parte, de modo que todos cedam para que o coletivo ganhe.

Uma primeira ação nesse sentido é valorizar a formação do Poder Legislativo, tão fortalecido por uma Constituição Parlamentarista que até aqui inviabiliza o Governo. Essa ação deve compreender essencialmente que o voto para o deputado e senador é mais importante que o voto para o presidente. Um congresso à altura das expectativas do eleitorado provê sobejamente as deficiências de qualquer presidente medíocre. A recíproca não é verdadeira.

Editado por Don Oleari

https://donoleari.com.br/

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Don Oleari - Editor Chefão

Don Oleari - Editor Chefão

Radialista, Jornalista, Publicitário.
Don Oleari Corporeitcham