Alexandre Caetano: “Tribunal racial da Secretaria de Educação do ES decidiu que agora eu sou branco”

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Tribunal racial da Secretaria de Educação do ES

Tribunal racial da Secretaria de Educação do ES não reconhece pardos no registro de nascimento como afrodescendentes

Tribunal racial da Sedu decidiu: “Alexandre, você agora é branco!

Capa| Foto de anos atrás, no casamento do meu primo, em Brasília. Sentados no mesa, eu, meu pai e meu irmão caçula. Atrás, dois primos, incluindo o noivo, e meu tio Darly, infelizmente já falecido. Você vê algum branco aí?

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Alexandre Caetano, jornalista e professor

ARTIGO |

ALEXANDRE CAETANO

A Comissão de Heteroidentificação do Concurso Público de Admissão de Professores da Secretaria de Educação do Espírito Santo transformou-se numa espécie de tribunal racial e decidiu que eu agora sou branco.

Ou seja, minha família, meus amigos e até o cartório de Cachoeiro de Itapemirim, onde fui registrado ao nascer, sempre estiveram errados em relação à minha identidade.

Eu não sou pardo, como sempre me reconheci e fui reconhecido desde que me conheço por gente, como sempre registrei em documentos e sempre que questionado sobre minha cor.

Segundo a comissão, tenho pele clara, embora uma das bancas da comissão tenha até reconhecido que ela é “morena clara”, mas isso não é suficiente para me transformar em pardo: portanto, sou branco e não sabia nesse tempo todo.

A pitoresca sentença nega a minha condição afrodescendente, como tenho preferido me identificar nas últimas três décadas.

Entendo que o termo “pardo” é um conceito criado pela ideologia eugenista que, em meados do século XIX, acreditava que através da miscigenação proporcionada com a vinda de levas de imigrantes europeus, em cerca de um século seria possível “embranquecer” a população brasileira.

Dessa forma, supostamente se acabaria com o que eles consideravam fontes do atraso do Brasil, a existência de uma população formada em sua maioria por pretos, indígenas e mestiços.

Assim, ser pardo, na ideologia eugenista, ainda muito forte quando eu nasci, há 62 anos atrás, deveria representar a condição de não-negro.

Isto é, a negação das raízes africanas e indígenas por parte dos mestiços, especialmente os de pele mais clara, que deveriam, portanto, procurar numa suposta ascendência europeia a sua origem étnica.

Só tem um problema, no meu caso.

Ninguém na minha família jamais se identificou como branco.

Tribunal racial da Secretaria de Educação do ES
Uma foto de meus bisavós, pais da minha avó paterna. Manoel de Oliveira Lima, conhecido como Velho Bimbarra, catraieiro em Paul, Vila Velha/ES. Minha bisavó se chamava Margarida.

Se não bastasse a cor e as característica fenotípicas (lábios grossos, nariz achatado e a cor “morena”), sempre carreguei orgulhosamente a herança cultural da minha avó paterna, a Dona Odete, e do meu bisavô, Manoel de Oliveira Lima.

Meu bisavô era conhecido como o Velho Bimbarra, catraieiro em Paul, Vila Velha/ES, nas primeiras décadas do século XX.

Minha avó, oficialmente, em seus documentos, era chamada Margarida de Oliveira Lima Caetano.

Mas ninguém a conhecia assim, nem nas ruas próximas onde residiu até a sua morte, no Bairro dos Ferroviários, em Cachoeiro de Itapemirim.

Em 1910, quando nasceu, o tabelião do cartório de Argolas se recusou a registrar o nome que os pais, negros pobres que viviam em Paul, haviam escolhido para ela e impôs o Margarida.

Minha avó passou a vida toda sendo chamada e conhecida como Odete, ninguém a chamava por outro nome.

Algo confuso para mim quando era criança e costumava passar férias na casa dos meus avós, a quem sempre fui muito ligado.

A história da minha ancestralidade africana possui lacunas próprias da tradição oral, que foi passada a mim e meus irmãos por meio da minha vó Odete e de duas das minhas tias-avós, irmãs dela, Nice e Yayá (Joana).

Nela estão presentes os elementos africanos e indígenas.

Enquanto era vivo, meu avô João pouco me contou sobre seus pais e ancestrais italianos e eu também nunca tive muito interesse em conhecer.

Embora nesse caso, como era de se esperar num país que durante séculos invisibilizou gerações de negros e indígenas que ajudaram a construir a identidade do que chamamos de povo brasileiro, os vestígios documentais existam e sejam muito mais acessíveis.

Assim, eu provavelmente jamais saberei quando e em que navio negreiro a mãe do Velho Bimbara veio para o Brasil.

Também é muito difícil esclarecer quem teria sido Corda, ancestral da minha avó, provavelmente por parte da mãe dela, a vó Gaida, uma indígena cujo nome dado pelos “civilizados” era Joana, que vivia amarrada por cordas, das quais se soltou um dia e nunca mais foi vista.

Minha vó Odete era uma mulher de temperamento e personalidade muito fortes, algo que ficou muito marcado na formação dos seus filhos e, principalmente, nas filhas, mas também nos netos e netas que estiveram mais próximos dela, como foi o meu caso e dos meus irmãos.

O parecer do tribunal racial da Sedu, que negou o critério e o princípio constitucional da autodeclaração, reafirmado nos documentos que carrego desde a certidão de nascimento, foi para mim como um soco na boca do estômago, porque joga no lixo a própria construção da minha identidade ao longo dos meus quase 62 anos de vida.

Não posso e não vou aceitar que assassinem o meu passado e minha própria história, que apaguem o que me foi passado pela minha avó, minhas tias Nice e Yayá e meus demais ancestrais, que estão presentes naquilo que sou, nos meus hábitos e costumes, na minha vida.

Não teria vergonha de ser branco, se essa fosse minha identidade e me reconhecesse nela, mas eu nunca me vi e nem me identifiquei com ela.

Não posso mais fazer isso a essa altura da vida.

Alexandre Caetano, jornalista e professor

Tribunal racial da Secretaria de Educação do ES

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Don Oleari - Editor Chefão

Radialista, Jornalista, Publicitário.
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