Uma nova lógica de consumo: século 21

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Lógica de consumo

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eustáquio palhares

 

Coluna CONTRAPONTO – Eustáquio Palhares, jornalista

A tecnologia da informação antecipa cenários futuristas que obsoletizam prematuramente o comércio e a indústria tradicionais – e por essas bandas aqui parece que a ficha está demorando a cair – introduzindo nas rotinas produtivas a mecatrônica, a inteligência artificial, a internet das coisas, a nanotecnologia.

É, por isso, conveniente entender que a disrupção, como uma onda, espraia-se do modelo produtivo ao padrão de consumo. E nem estamos cogitando ainda do tal Metaverso, quando o cotidiano migra para a virtualidade em todos os seus aspectos: interações sociais, vida profissional, entretenimento, aprendizado, tudo…

O marketing de meados do século passado instituiu nos mercados de consumo consolidados do primeiro mundo, onde a economia era de reposição de produtos mais
do que do engajamento de novos consumidores, como no terceiro mundo, o conceito do “efeito de obsolescência planejada”.

Lógica de consumo

Os produtos eram fabricados com tempo de vida útil ou funcionalidade já prevista para se encerrar em prazos definidos, ensejando a necessidade de repô-los, substituí-los. Extinguiram-se os eletrodomésticos e outros bens de consumo que duravam “a vida toda”.

Ou pelo menos transferiam-se de gerações como dotes prezados tanto pela utilidade, ainda, quanto pela afetividade de terem pertencido aos pais ou parentes das eras anteriores.

Se “nunca acabavam”, como vender mais? A economia compartilhada, ainda incipiente no Terceiro Mundo, tende a ser uma tendência irreversível. Pagar pelo uso efetivo ou pelo serviço prestado prevalecerá sobre a aquisição de um equipamento de uso eventual ou mesmo sistemático. Revoga-se a necessidade de possuir algo para tê-lo disponível em caso de eventual uso.

Posse & uso

Esse é um valor intuído desde o começo deste século/milênio. Se ao adquirir um bem já está estabelecido o tempo que ele funcionará, pagar pelo trabalho que esse produto oferece, em certo prazo, é mais efetivo do que possuí-lo já antevendo o seu descarte.

A emblemática Apple consagra esse modelo planejando seus aparelhos, seus cobiçados I Phones para se desatualizarem a cada dois anos. E as demais linhas de PCs ou notebooks operam com a mesma concepção.

Obsolescência programada para períodos médios de três anos ao cabo dos quais requerem, mais que uma atualização dos componentes, uma substituição completa.

Com um pouco de sofisticação nessa venda disfarçada de serviço, aceita-se o aparelho a ser substituído como entrada do preço do novo produto.

Lógica de consumo

Desde o tempo em que um Volkswagen não era vendido, mas entregue, tal a disparidade entre demanda e oferta num quadro de restrito número de fornecedores nacionais, essa prática representa o real desfrute do produto por um tempo – embora a sensação/ilusão de posse – ao cabo do qual seu valor remanescente cobrirá parte do preço do novo produto.

Generalizando a prática, a aquisição de um óculos (de grau) representa uma disponibilidade provisória do produto em função da previsível degradação visual que leva o portador a um novo exame a cada biênio e a respectiva substituição de lentes, então prescritas pelo novo diagnóstico. Pagar pelos serviços de um óculo em um prazo determinado, seguindo o mesmo padrão, parece mais racional.

Status & pragmatismo

A totalidade dos bens de consumo certamente se enquadrará nesse novo paradigma. O símbolo clássico, o carro, recebe tratamento diferenciado. É certo que o carro enquanto solução de mobilidade individual parece irreversivelmente condenado por uma contingência lógica. As estruturas viárias não acompanham o crescimento da frota e quanto mais se expandem mais carros atraem.

É uma relação análoga à do açúcar com a formiga. E uma máquina de 1,2 tonelada em média, ocupando 6 metros quadrados de solo urbano, emitindo monóxido de carbono, para transportar predominantemente uma pessoa parece ser um hábito que só se mantém porque não é minimamente questionado. Até que as limitações urbanas o imponham.

Lógica de consumo

Quando o carro era, além de sonho de consumo, um símbolo de ascensão social acessível a vinte por cento da população, justificava-se que 80% de uma rua fosse reservado a ele e 20% aos pedestres, nas calçadas. Quando, pela necessidade de escala e o advento do crédito, incorporou-se grandes levas de consumidores reduzindo-se as barreiras de acesso, a exponencialização da frota a inviabiliza. Não cabe todos os carros nas vias urbanas.

Longos congestionamentos ou filas que se estendem ao longo do dia e apenas se agravam nos horários de pico parece ainda não terem sensibilizado os planejadores urbanos sobre isso. Mas os mileniais e gerações posteriores o sabem. Não lhes atraem o carro como símbolo de status ou sonho de consumo pelo que representa, pragmaticamente, o custo de manutenção em comparação com o desfrute efetivo.

Os digilógicos ou anatais ainda não se desapegaram do hábito de se dirigirem ao destino no carro para deixá-lo imóvel enquanto se ocupam do que foram fazer. Trabalhar, inclusive, com o veículo estacionado improdutivamente por toda uma jornada, quando poderia estar a serviço de outros.

O conceito da economia compartilhada se aplica particularmente a carros e imóveis ou bens de alto valor unitário cujo uso é recorrente mas não extensivo. Taí um novo paradigma a ser revisto. Desapegar-se de hábitos que apenas se mantém como tal, já extintas as circunstâncias que os geraram.

One way, padrão de rico

A considerar, ainda, que a profusão de bens de consumo vai impor uma nova relação já tardia. A questão do pós-consumo. A destinação do produto depois de usado demandando progressivamente áreas de reciclagem, reprocessamento ou tratamento que importam em novos desafios urbanos.

Entre tantos exotismos, importamos da cultura norte-americana o padrão do descartável, do one-way, porque àquela economia convinha muito mais substituir do que consertar, tal a sua afluência e a geração de consumo e demanda que isso representava.

Não é o caso de países não tão ricos onde reciclar ou estender o tempo de vida útil de um produto se adequaria melhor ao padrão econômico do consumidor.

São tempos previsíveis. A destinação do pós consumo, a inviabilidade de escoar os restos mortais dos produtos podem até gerar um novo processo econômico que será o da logística reversa. Já se prenunciou essa agenda mas ninguém quer segurar na brocha quando retiram a escada: a quem caberá fazer a carcaça percorrer o caminho de volta até onde ela surgiu…

Editado por Don Oleari 

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Don Oleari - Editor Chefão

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Radialista, Jornalista, Publicitário.
Don Oleari Corporeitcham