Vania Sarlo
Vania Sarlo, a socialite que abriu as portas do carnaval para o “soçaite”.
NEC = Nota do Editor Chefão, Don Oleari |
Anilson Ferreira escreve uma crônica rica em detalhes sobre uma personagem fascinante em momentos testemunhados pelo repórter atento.
Anilson sugere à escola de samba Piedade fazer de Vania Sarlo o samba-enredo do próximo carnaval (Don Oleari).
IN MEMORIAM |
ANILSON FERREIRA

Conheci Vania na década de 1970, no meio da Rua Garciano Neves, em Vitoria ES, onde ensaiava a Piedade. De imediato, meu faro de jovem repórter viu ali uma forte personagem que me rendeu inúmeras “bombas” no samba, na sociedade e na política.
Morreu de causas naturais aos 86 anos. Ela foi porta-bandeira nos anos 1970.
Foi a primeira dama da alta sociedade de Vitória/ES a ir para o mundo do samba e ser a estrela número um da escola Unidos da Piedade, a velha escola do Morro da Piedade, Centro Velho da capital do ES.
Logo ao ouvir Vania para o programa Castelo Mendonça da Rádio Vitória, ela disse:
“Maurinho, meu mestre-sala, vê se aparece para ensaiar. Já falei para o presidente da Piedade, Katuia Saad, que o carnaval está chegando, ou você só vai aparecer na avenida Princesa Izabel?”
Claro que deu um “rebu” daqueles, mas Maurinho apareceu. Os dois tiraram nota dez e a Piedade foi campeã.
Na sociedade, Vania era aguardada com ansiedade. Sua chegada era triunfal, bem maquiada, com vestidos chamativos . Ao lado de seu marido, o médico Tina Tirone, formavam um casal vip.
Uísque baleado
Em uma festa no Praia Tênis Clube, ao tomar um uísque, disse:
“Esta bebida é mais falsa que promessa de político.”
“Sou uma lady, porra”
Em uma solenidade de posse de prefeito de Vitória, era tanta gente empurrando Vania que ela disse:
“Só não xingo porque sou uma lady, porra!”
Em um carnaval, ao perguntar a Vania sobre o desfile da São Torqueto, veio a resposta:
“A escola está tão feia que nem comentário merece.”
Maria Nilce e Helio Dorea
Vania sempre foi a maior amiga da colunista Maria Nilce, do Jornal da Cidade, que era adversária do colunista de A Gazeta, Helio Dorea.
Mas Vania não se metia na briga. Aparecia pouco na coluna de Dorea; na de Maria, era todo dia.
Vania foi casada com o jornalista Carlos Alberto Tuna, com quem teve a filha Samanta Sarlo. Com o médico e compositor Tina Tirone, teve o filho Tiago Sarlo.
Vania foi candidata a vereadora, foi bem votada, mas não se elegeu. O mesmo aconteceu com seu filho Tiago.
No carnaval, Vania teve vários mestres-sala, dentre eles Maurinho, Ronaldo, Kira, Welinton, Edinho da Mangueira, Beto e outros.
Com todos, a nota dez foi garantida. As escolas foram Piedade, Jucutuquara, Chegou o Que Faltava, Originais do Contorno, Mocidade da Praia, Lira do Moscoso e muitas outras.
Eu não lamentei a morte de Vania, nem escrevi nas redes sociais os clichês como “estou triste”, “lamento” e outros.
Vania, com certeza, não iria gostar nada disso, pois veio ao mundo para ser uma mulher à frente de seu tempo.
Participava de rodas de samba em bares nos morros; na sociedade, bebia champanhe; mas, no Bar do Mano Gim, em Jucutuquara, e outros, era cerveja em copo de plástico e não perdia a pose.
Gays, travestis e lésbicas
Era venerada pelos gays, travestis e lésbicas, que viam nela quase uma deusa viva.
Portanto, de onde estiver, com sua voz grave, Vania deve estar soltando sua famosa gargalhada e rindo de tudo que está acontecendo.
Termino este texto convocando a Piedade a dedicar a ela o próximo carnaval.
O enredo deve se chamar “Vania Sarlo: dos palácios e salões elegantes ao morro e vice-versa”.
Será nota dez, com certeza.
De seu fã e repórter, que tanto te entrevistou,
Anilson Ferreira.
Vania Sarlo
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