
Abolição da Escravatura
O verdadeiro protagonismo da Abolição da Escravatura não está nos salões imperiais, mas nas fugas, revoltas, quilombos e resistências negras
A história do Brasil glorificou a Princesa e se esqueceu dos personagens principais de todo o enredo.

ARTIGO | DA REDAÇÃO DON OLEARI PN
Capa | imagem de Debret: Negros ao Tronco
Quer saber mais, veja a bibliografia no final da matéria.
A abolição da escravidão no Brasil, ocorrida em 13 de maio de 1888 com a assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel, é frequentemente celebrada como um marco civilizatório.
Foi um engodo. Uma análise crítica revela que esse ato foi, antes de tudo, um gesto simbólico e demagógico, carente de medidas concretas para garantir aos ex-escravizados condições dignas de vida, trabalho e inserção social.

Senhora na liteira (uma espécie de “cadeira portátil”) com dois escravos, Bahia, 1860 (Acervo Instituto Moreira Salles)
Política Social na Abolição
O Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão.
Isso não ocorreu por acaso: a economia brasileira, especialmente no Sudeste, ainda dependia fortemente do trabalho escravo nas lavouras de café.
E só foi feita diante de muita pressão da Inglaterra. E feita pela metade.
A assinatura da Lei Áurea deu-se em um contexto de pressão nacional e internacional.
Movimentos abolicionistas ganhavam força, contando com a ação de advogados, jornalistas, artistas e da população negra em resistência ativa (FERREIRA, 2005).
Internacionalmente, países como a Inglaterra exigiam o fim do trabalho escravo em suas colônias e parceiros comerciais (BETHELL, 1976).
Princesa Isabel, Mito Redentor, engabelação
A imagem da Princesa Isabel como “redentora” dos escravizados é parte de uma narrativa que ignora a pressão popular e os interesses políticos por trás da Lei Áurea.
Conforme aponta Clóvis Moura (1988), a abolição foi uma “solução política para uma crise econômica e social”, e não um ato humanitário isolado.
Isabel assinou a lei sem apresentar qualquer projeto de integração ou de indenização aos ex-escravizados.
Mas os ricos ex-proprietários de terras e escravos foram regiamente compensados financeiramente pelo fim da escravidão (MOURA, 1988).
Mas o que rolava na base dos movimentos contra a escravidão era um registro do engodo que foi a “Redentora”.
A imprensa e parte da população diziam:
“A Princesa Isabel assinou a Lei Áurea, mas se esqueceu de garantir trabalho e estabilidade para a população negras do país”.
A história do Brasil glorificou a Princesa e se esqueceu dos personagens principais de todo o enredo.
Carência de Políticas Públicas
Com a abolição, aproximadamente 700 mil pessoas foram “libertadas” sem qualquer suporte de programas do Estado.
Não houve qualquer proposta cabível em tais circunstâncias. Não houve:
- Reforma agrária ou acesso à terra;
- Políticas de educação ou capacitação profissional;
- Garantias legais de acesso ao trabalho digno;
- Assistência à moradia ou à saúde.
Os libertos foram lançados à marginalização, vivendo em condições precárias nas periferias urbanas ou vagando pelas zonas rurais, muitas vezes retornando a serviços em regime de semi-escravidão (RIBEIRO, 1995).
Elitização e Racismo Estrutural
A elite agrária, percebendo a inviabilidade econômica da escravidão diante das fugas em massa e da pressão internacional, aceitou o fim do sistema com a condição de manter o controle econômico e social.
A imigração europeia foi incentivada com subsídios públicos para substituir a mão de obra negra.
Isso reforçou a ideologia do embranquecimento, baseada em um racismo científico importado da Europa (SCHWARCZ, 1993).
Consequências Históricas
A abolição sem reparação manteve intactas as estruturas de desigualdade. Segundo Florestan Fernandes (1978), o racismo no Brasil se institucionalizou pela ausência de um projeto de integração da população negra à sociedade capitalista emergente.
A marginalização dos negros no acesso a serviços, educação e à representação política é um legado direto dessa “abolição inacabada”.
Lei Áurea foi uma enganação
A Lei Áurea foi um marco jurídico, mas não social. Sem uma estrutura de apoio, sem políticas reparatórias e sem vontade política real, a abolição foi um ato vazio, que perpetuou a exclusão racial no Brasil.
O verdadeiro protagonismo da abolição não está nos salões imperiais, mas nas fugas, revoltas, quilombos e resistências negras que forçaram o Estado a ceder.
Bibliográfia
- BETHELL, Leslie. A abolição do escravatura no Brasil. São Paulo: Cia das Letras, 1976.
- FERNANDES, Florestan. A integração do negro na sociedade de classes. São Paulo: Cédula, 1978.
- FERREIRA, Jorge. Abolicionismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.
- MOURA, Clóvis. Dialética radical do Brasil negro. São Paulo: Anita Garibaldi, 1988.
- RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. São Paulo: Cia das Letras, 1995.
- SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
Abolição da Escravatura
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