
Um alentado estudo inédito sobre Eleições Presidenciais no Brasil de 1989 a 2022 para ser lido atentamente.
ESPECIAL ELEIÇÃO PRESIDENCIAL DE 1989 A 2022
A reprodução só pode ser autorizada pelos autores do estudo.



Gutemberg Hespanha Brasil
Carlos Umberto Felipe
José Weber Freire Macedo
Em junho de 1997 foi aprovada a reeleição para Presidente da República, permitindo uma segunda candidatura para Fernando Henrique Cardoso.
Gutemberg Hespanha Brasil é professor aposentado da UFES;
José Weber Macedo é ex-reitor da UFES e UNIVASF e professor aposentado da UNIVASF;
Carlos Umberto Felipe é engenheiro, jornalista aposentado.
A pesquisa
De 1964 a 1985 o Brasil viveu uma ditadura. Depois veio a Constituinte e a promulgação da Constituição de 1988 com as primeiras eleições presidenciais ocorrendo em outubro de 1989.

A primeira eleição 100% eletrônica no Brasil foi no ano 2000, também municipal.
De 1989 a 2022 foram nove eleições presidenciais. Observados em conjunto, os resultados eleitorais desses nove pleitos são paradoxais?
“Cada eleição é uma eleição”
Parece que sim, e que não. Existe um mote já consagrado de que “cada eleição é uma eleição” e que o eleitorado é muito sensível às conjunturas, sendo muitas decisões de voto decorrentes de acontecimentos tipicamente localizados.
Além disso, desde a eleição presidencial de 1989, muitas coisas extraordinárias ocorreram, além da passagem do tempo.

A ditadura de 1964 a 1985 uniu comportamentos e pessoas de todo tipo.
Durante o período era “politicamente incorreto”, muito apropriadamente, não aparentar atitudes a favor da oposição e contra o governo de plantão, em qualquer nível.
No entanto, sempre existiu discretamente uma direita silenciosa, que incorporava todas as características comportamentais das elites brasileiras (patrimonialista, às vezes autoritária, elitista etc….
No entanto, são também manifestações da esquerda, expostas no início do movimento e manifestadas como conservadorismo (costumes).
Democracia, Extremos, Esquerda/Direita, Espectro Político
Existem várias classificações para o chamado “Espectro Político”.
A escala, com diversas agregações, é usual: “Extrema Esquerda” – “Esquerda” – “Centro Esquerda” – “Centro” – “Centro Direita” – “Direita” – “Extrema Direita” e os “Indiferentes”.

Porque simplesmente observa-se a existência das muitas opções, gradações, e grande fluidez/volubilidade do voto dos eleitores que transitam entre essas diversas possibilidades, excetuando-se, possivelmente, os extremos.
Os “Indiferentes”, nessa pesquisa, são aqueles que votam em branco e nulo, ou não comparecem para votar.
Existe uma polarização clara esquerda X direita, ambas obliteradas por ideologias?
Usualmente esses extremos, na economia estão associados ao totalmente intervencionista (Estado grande demais, mais à esquerda) ou o totalmente liberal (o domínio completo do Mercado, mais à direita).
Nunca podemos esquecer que o único sistema que permite a manutenção dessas convicções opostas, satisfatoriamente, é a democracia.
Mas, na política, quando se age tratando os outros políticos como inimigos e não como adversários, como assinala o historiador e político Michael Ignatieff – “Enemies vs. Adversaries”. The New York Times, 16/10/2013 – prevalece o caos ou o desastre.
O denominado “Centro”, por estas bandas, eventualmente contém um grupo denominado Centrão.
Seus integrantes têm como principais características: volubilidade, maleabilidade, flexibilidade.
E são afeitos a negociatas e favorecimentos. Transitam, sem qualquer constrangimento, por toda parte do espectro político.
No entanto, parece que uma das principais medidas dos governos eleitos é destruir o contrário – o seu oposto, esquerda ou direita – ou seja, cada um quer destruir o que o outro fez, e seu modus operandi. Isso se observa desde 1989.
Lembramos que a esquerda votou contra a Constituição e o Plano real, privatizações, lei de responsabilidade fiscal.
A direita, no Poder, quis destruir o voto eletrônico, os órgãos de controle ambiental, de apoio a cultura, de ciência e tecnologia.
Muitos exemplos
Particularmente, gostamos da democracia. Tem-se que dar um tempo aos governos eleitos para “dizerem ao que vieram”, afinal, foram eleitos pelo povo; e não é demais lembrar dos processos de impeachment de dois presidentes, que perderam o mandato.
É preciso considerar que o eleitor brasileiro médio pode já estar ficando altamente desiludido.
Comentários sobre Resultados das Eleições Presidenciais de 1989 a 2022
Suponha-se que numa avaliação a posteriori, um candidato que atingiu 5% dos votos, relativos ao eleitorado total, seja considerado uma “candidatura competitiva”.
É evidente que quase sempre existem avaliações a priori, mas, podem aparecer surpresas.

Assim, na eleição de 1989 cinco candidaturas competitivas dividiram o eleitorado: Maluf, Mário Covas, jornalista Marília Gabriela, Lula, Ronando Caiado, Collor, Brizola, que não aparece na foto.
Além disso, excetuando-se os dois candidatos mais votados, os demais perfazem 43,1% (relativo ao eleitorado total).
Os outros candidatos foram: Guilherme Afif, Ulysses Guimarães, Roberto Freire, Aureliano Chaves, Ronaldo Caiado, Affonso Camargo, Enéas Carneiro, Marronzinho, Paulo Gontijo, Zamir, Lívia Maria, Eudes Mattar, Fernando Gabeira, Celso Brant, Pedreira, Manoel Horta e Correa).
1994 e 1998
Em 1994 e 1998 Fernando Henrique Cardoso venceu no primeiro turno, impulsionado pelo sucesso do Plano Real.
Exceto os dois mais votados, os demais candidatos não somaram mais do que 12,5% e 9,7%, sempre relativo ao eleitorado total.
Os candidatos de 1994 foram: Fernando Henrique Cardoso, Lula, Enéas Carneiro, Orestes Quércia, Leonel Brizola, Esperidião Amin, Carlos Antonio Gomes e Hernani Fortuna.
No pleito de 1998 os candidatos foram: Fernando H. Cardoso, Lula, Ciro Gomes, Enéas Carneiro, Ivan Frota, Alfredo Sirkis, José Maria de Almeida, João de Deus, José Maria Eymael, Thereza Ruiz, Sérgio Bueno e Vasco Neto.
2002, quatro candidatos
Nas eleições de 2002 foram quatro candidaturas competitivas: Lula da Silva, José Serra, Anthony Garotinho, Ciro Gomes.
Excetuando-se os dois candidatos mais votados, os demais perfazem 22,4%; os outros candidatos foram: Zé Maria e Rui Costa Pimenta.
Em 2006, 2010 e 2014
Em 2006 foram três candidaturas competitivas e, excetuando-se os dois candidatos mais votados, os demais perfazem, 7,4%, 15,3% e 18,1%, respectivamente.
Os candidatos em 2006 foram:
Lula, Geraldo Alckmin, Heloísa Helena, Cristovam Buarque, Ana Maria Rangel, José Maria Eymael, Luciano Bivar e Rui Costa Pimenta.
Nas eleições de 2010 os candidatos foram:
Dilma Rousseff, José Serra, Marina Silva, Plínio de Arruda Sampaio, José Maria Eymael, José Maria de Almeida, Levy Fidélix, Ivan Pinheiro e Rui Costa Pimenta.
O pleito de 2014 teve os seguintes candidatos:
Dilma Rousseff, Aécio Neves, Marina Silva, Luciana Genro, Pastor Everaldo, Eduardo Jorge, Levy Fidélix, José Maria de Almeida, José Maria Eymael, Mauro Iasi e Rui Costa Pimenta.
2018
Eleições 2018 — candidatos à Presidência da República: Álvaro Dias (Podemos), Cabo Daciolo (Patriota), Ciro Gomes (PDT), Eymael (DC), Fernando Haddad (PT), Geraldo Alckmin (PSDB), Guilherme Boulos (PSOL), Henrique Meirelles (MDB), Jair Bolsonaro (PSL), João Amoêdo (Novo), João Goulart Filho (PPL), Marina Silva (Rede) e Vera Lúcia (PSTU).
Observação histórica: Lula havia sido registrado originalmente como candidato do PT, mas o TSE indeferiu sua candidatura em 1º de setembro de 2018. Fernando Haddad, que inicialmente era vice, foi registrado como substituto e passou a disputar a Presidência.
O TSE disponibiliza inclusive os dados oficiais de candidatos, fotos, coligações e propostas de governo de 2018.
2022
Nas eleições de 2022 foram duas candidaturas bastante competitivas – Lula e Jair Bolsonaro – altamente polarizadas; e, excetuando-se os dois candidatos mais votados, os demais perfazem apenas 6,3%.
Os outros candidatos foram:
Simone Tebet, Ciro Gomes, Soraya Thronicke, Luiz Felipe d’Ávila, Kelmon luís da Silva Souza, Leonardo Péricles Vieira Roque, Sofia Pádua Manzano, Vera Lúcia Pereira da Silva e Jose maria Eymael.
Nas eleições de 2002, 2006 e 2010, Lula e depois Dilma Rousseff venceram após disputas em dois turnos, com transferências significativas de votos dos candidatos eliminados.
Nas eleições de 2014 observa-se forte competitividade entre Dilma e Aécio Neves, e aumento da polarização política.
Embora Dilma tenha vencido com 51,64% dos votos válidos, seus votos corresponderam a apenas 38,15% do eleitorado total, evidenciando a diferença entre votos válidos e apoio em relação ao conjunto dos eleitores.
Em 2018, a disputa foi marcada pela ascensão de Jair Bolsonaro, que venceu após ampla vantagem no primeiro turno.
Em 2022, Lula e Bolsonaro protagonizaram uma eleição altamente polarizada, com pequena diferença de votos e reduzido espaço para candidaturas alternativas.
Ressalte-se que tanto Lula quanto Bolsonaro foram presidentes que chegaram ao poder com grande expectativa popular de mudanças.
Lula obteve alguns avanços, eventualmente sob contextos econômicos favoráveis, mas não promoveu transformações estruturais duradouras.
Bolsonaro, por sua vez, frustrou parte das expectativas de mudança, enfrentando dificuldades políticas e os efeitos da pandemia.
Por isso, na opinião de muitos brasileiros o país ainda continua precisando de grandes mudanças.
Tabela Resumo dos resultados eleitorais finais
Não se pode dizer que o eleitor não vem tentando mudar e alcançar resultados que signifiquem conquistas permanentes para a melhoria de vida da população brasileira.
É o que indica a Tabela 1. Os resultados das eleições presidenciais desde 1989 sugerem que os brasileiros estão tentando escolher dentre os candidatos disponíveis e, quase sempre, não sobram muitas opções. Na verdade, o que tivemos numa visão simplificada:
(i) 1989 eleição em segundo turno: Caçador de marajás X esquerda radical.
(ii) 1994 eleição em primeiro turno: Plano real/redução da inflação X esquerda radical.
(iii) 1998 eleição em primeiro turno: reeleição (muitos não gostaram, e até FHC se arrependeu) X esquerda radical.
Ocorreu a privatização da Vale.
(iv) 2002 eleição em segundo turno: continuidade, desvalorização do real em 1999, racionamento de energia em 2001 (Serra) X esquerda desradicalizada (carta ao povo brasileiro, Lulinha “Paz e amor”, O salvador da pátria).
(v) 2006 eleição em segundo turno: esquerda (mensalão, herança maldita, manutenção do legado econômico de FHC) x (Alkimim).
(vi) 2010 eleição em segundo turno: esquerda (primeira mulher presidente, Dilma, a mãe do PAC, “A mulher do Lula”) x (Serra).
(vii) 2014 eleição em segundo turno: esquerda (manifestações de 2013 e crise política e econômica) x (Aécio). A polarização do “nós” e “eles”, fica mais clara.
(viii) 2018 e 2022. A polarização do “nós” e “eles” (e todas as outras polarizações: rico/ pobre etc.), se intensifica.
Em 2018, Lula comanda a eleição da prisão. Em 2022, Lula se une ao Centro e diz que criou uma “Frente ampla”.
O que se nota é que o Brasil não é de um grupo partidário único, nem exatamente bipartidário, mas que vem se cristalizando uma polarização acentuada (como ilustra a Figura 1).
Também mostra uma alta “alienação eleitoral”, e outros resultados:
(a) Não existe um padrão aparente entre os resultados das eleições presidenciais realizadas nesses trinta anos.
(b) De 1989 a 2022 o eleitorado brasileiro cresceu 90,6%, e, a cada quatro anos, a taxa de crescimento é cada vez menor, consoante a transição demográfica ainda em andamento no país.
(c) O ex Presidente FHC foi o único candidato eleito em primeiro turno; e isso nas duas eleições que concorreu, tendo Lula como segundo em ambas.
(d) Na eleição de Collor em 1989, ocorrida em segundo turno, observou-se a mais baixa alienação eleitoral: 19,4% (no turno 1 a taxa foi de 17,6%).
(e) Em 1998 também houve eleição no turno 1 possivelmente indicando que boa parte do eleitorado gostou do que estava acontecendo, mas com grande alienação eleitoral, 36,2% (foi por causa da aprovação da reeleição?).
(f) A diferença entre o percentual total de “brancos+nulos+abstenção” entre os dois turnos nunca foi superior a 1,78% de 1989 a 2022 (Figura 2).
Figura 1
Aumento dos votos brancos/nulos e do não-comparecimento para votar
É preciso lembrar que no Brasil o voto é obrigatório.
E não precisa ser nenhum anarquista clássico ou um filósofo niilista para decidir pelo voto nulo ou se abster de votar.
Basta observar a quantidade de coisas erradas sendo feitas nos três poderes da república (executivo, legislativo e judiciário).
Observa-se também o aumento da abstenção e o crescimento do eleitorado idoso, acima de 70 anos, desde 2010, tendo em conta a transição demográfica ainda em curso.
Estarão os idosos mais descontentes com a política? Não vale a pena sair de casa para votar nas listas de candidatos disponíveis?
Observe-se que o eleitorado entre 16 e 18 anos vem ampliando a participação.
Figura 2
Pesquisa Datafolha: Razões de voto para
Presidente da República, outubro/2018
O Instituto Datafolha realizou pesquisa eleitoral nos dias 17 e 18 de outubro de 2018 (margem de erro de 2%) e divulgada em 22/10/2018.
Foi feita uma interessante pergunta, de resposta espontânea e múltipla, aos que já tinham decidido candidato na data da pesquisa:
“Por quais motivos você pretende votar em …….?’”. A conexão dos resultados dessa pesquisa e o resultado do segundo turno está na tabela 2.
Tabela 2 – Pesquisa Eleições Presidente 2018, Datafolha,17-18/10/2018, e Resultado do Turno 2
| A
Pesquisa Eleitoral Datafolha (17-18/out) e Resultado Turno 2 (28/out) – 2018 |
B Resultado – (%) Eleitorado | C Votos – Turno 2 | D % Votos Anti (Pesquisa DataFolha) | E Votos Anti (estimado) | F Estimativa Votos do candidato | G % dos votos sobre Eleitorado |
| JAIR BOLSONARO | 39,2 | 57.797.847 | 25,0 | 14.449.462 | 43.348.385 | 29,4 |
| FERNANDO HADDAD | 31,9 | 47.040.906 | 20,0 | 9.408.181 | 37.632.725 | 25,5 |
| Alienação Eleitoral (Br+Nu+Abst) | 28,8 | 42.466.402 | ||||
| Total eleitores aptos | 100,0 | 147.306.275 |
Fonte: (i) TSE. (ii) http://datafolha.folha.uol.com.br/eleicoes/2018/10/1983550-desejo-de-mudanca-e-rejeicao-ao-pt-alavancam-candidatura-de-bolsonaro.shtml. Nota: A primeira concepção dessa tabela foi devida ao Prof. Elder F. Marques Nunes.
Como se vê, relativamente ao Eleitorado total os votos em Bolsonaro atribuídos por simples rejeição ao PT (anti-PT) somam 9,8% (aproximadamente 14,449 milhões de eleitores.
A coluna E foi obtida, multiplicando-se os percentuais da coluna D, pelo total de eleitores na coluna C).
Enquanto os votos de Fernando Haddad atribuídos por simples rejeição ao Jair Bolsonaro (anti-Bolsonaro), somam 6,4% (aproximadamente 9,408 milhões de eleitores).
Associe-se a essas estimativas o fato de que 28,8% dos eleitores de algum modo não atribuíram seu voto a nenhum dos candidatos disputando no segundo turno – cerca de 42,4 milhões de eleitores.
A chamada alienação eleitoral. Tudo isso é muito significativo, ou pelo menos, pode-se pensar que seja.
O que se viu em 2018 foi que a população se desencantou com Dilma Roussef e o grande tempo de permanência do PT no poder.
A representante do PT saiu em agosto de 2016 com a entrada do vice Michel Temer.
Dilma deixou uma recessão econômica severa, com encolhimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2015 e em 2016, e aumento da inflação.
Confrontando com os resultados das urnas (votos válidos) o erro percentual observado foi de -3,9% dos votos para Jair Bolsonaro e +3,9% para Fernando Haddad.
Ou seja, a pesquisa superestimou o resultado de Bolsonaro e subestimou o de Haddad.
Assim, a despeito do erro da pesquisa, os dados da tabela acima nos indicam que cerca de 29% do eleitorado se polariza com certa fidelidade no espectro Direita – centro direita-direita-extrema direita – enquanto, do mesmo modo, cerca de 26% no espectro Esquerda (centro esquerda-esquerda-extrema esquerda).
A coluna F foi obtida subtraindo-se os votos totais de cada candidato na coluna C, pelos votos “anti” na coluna E.
A coluna G é o resultado percentual da divisão dos votos da coluna F pelo eleitorado total na coluna C.
A polarização está estabelecida. E a moderação? Nesse cenário cristalizado, restam cerca de 45% do Eleitorado.
Observe-se que o desencanto com “as eleições / os candidatos / o processo eleitoral / a obrigatoriedade do voto / etc”, de acordo com a tabela 1 (última coluna), oscilou nesses 30 anos de eleições entre 19,4% e 36,2%.
Após as eleições de 2022 diversas pesquisas tentaram mensurar o espectro político abrangido pelo eleitorado, ou seja, suas ideologias no nível da polarização “Direita X Esquerda”.
Os resultados não diferem muito dessa seção – incluindo-se o erro da pesquisa, para mais ou para menos. Mas isso fica para outro estudo.
Um exercício especulativo
Adotando-se o espectro político apresentado no início do texto, faz-se um exercício especulativo para as próximas eleições, admitindo a existência de grande polarização na sociedade brasileira em 2026.
É conveniente lembrar que alguma polarização apareceu na eleição de 2014, mas não tão acentuada quanto depois do impeachment da presidente Dilma.
Por isso, no desenvolvimento subsequente acentua- se as eleições de 2018 e 2022.
Um limite mínimo para a alienação eleitoral.
Sempre existirá algum tipo de “abstencionismo no voto”: falecimentos, não obrigatoriedade do voto das faixas etárias, 70 anos ou mais e 16 a 18 anos, impossibilidades reais de não comparecimento aos locais de votação, intenção convicta de votar em branco ou nulo – não acredita em ninguém ou rejeita todos os candidatos.
Tome-se como estimativa básica percentual o mínimo verificado na eleição de 1989 (turno 1), cerca de 17% (17,6%).
Note-se que esse valor é aproximadamente o mesmo derivado da soma dos percentuais mínimos observados para votos brancos, nulos e abstenções no período 1989-2022.
Considerando-se o desencanto atual das pessoas com o processo político e o Brasil, dificilmente ocorrerá um valor menor que esse para a soma de brancos, nulos e não-comparecimento.
Observando-se os percentuais de votos do PT desde 1989, pode-se estabelecer como uma boa estimativa do eleitorado fervoroso do PT, algo em torno de 20 a 22% como alcançado no turno 1 em 1998 – 20,24%) e 2018 (21,28%.
Os excedentes a essa quantidade podem ser devido aos votos “anti”, como discutido em seção anterior.
Ressalte-se que o percentual médio do PT no primeiro turno em todo o período (1989 a 2022) foi de 27,45%.
Mesmo em 2026, pode-se considerar ainda razoável as estimativas dos votos da esquerda e direita derivadas da pesquisa de 2018 para fazer exercícios especulativos; isso porque, tomando-se como base os percentuais sobre o eleitorado total (como na tabela 1), Bolsonaro teve um decréscimo de 2,03% em 2022 e Lula um acréscimo de 6,64% com relação a Haddad.
Isso nos conduz a uma média para a “Direita” de 38,2% e para a “Esquerda”, de 35,3%.
Com essas considerações, pode-se construir alguns cenários específicos, como na tabela 3.
Os cenários são baseados no que ocorreu nas nove eleições apresentadas, mas dizem também que muita coisa está indefinida, como deveria ser.
Sempre existem o acaso, o marketing dos partidos e das campanhas, os conflitos humanos e outras coisas.
Na tabela 3, “Direita” (entre aspas), refere-se à agregação extrema direita e direita, e, na medida da aproximação do dia das eleições, às contribuições da centro-direita e possivelmente centro.
De maneira similar “Esquerda” (entre aspas) refere-se à agregação extrema esquerda e esquerda, e, na medida da aproximação do dia das eleições, às contribuições da centro-esquerda e possivelmente centro.
É muito claro que nenhum dos cenários acontecerá exatamente.
No Cenário 1, o resultado será decidido pelo comportamento de 28% do eleitorado; no cenário 2 tem-se ainda 10% dos eleitores indefinidos; e, no cenário 3, apenas 2% dos eleitores decidem o resultado definitivo.
Muitos cenários podem ser elaborados. Enfim, várias coisas estão praticamente determinadas, mas, “Cada Eleição é uma Eleição”.
Tabela 3 – Três Cenários
| Resultado Parcial | Cenário 1 | Cenário 2 | Cenário 3 |
| “Direita” | 29 | 38 | 37 |
| “Esquerda” | 26 | 35 | 37 |
| “Brancos+Nulos+Abstenção” | 17 | 17 | 24 |
| Centro / Eleitorado flutuante ou indeciso | 28 | 10 | 2 |
| Total | 100 | 100 | 100 |
Nota: percentuais sobre o total de eleitores.
Para finalizar
Lições das eleições presidenciais no Brasil desde 1989, especialmente de 2018 e 2022, e do que se observa nas pesquisas realizadas por diversos institutos desde 2023:
- Nenhum candidato consegue vencer apenas com sua base de seguidores fiéis. É preciso atrair e aglutinar apoios e seguidores mais ao centro.
- Como ilustram as pesquisas de avaliação do governo e de intenção de voto, existe um contingente mínimo, praticamente fixo, polarizado nos extremos “esquerda e direita”, temporariamente denominados “lulistas e bolsonaristas”.
- Fica clara a importância dos eleitores de “centro”; temporariamente chamados “não lulistas e não bolsonaristas” como nas eleições de 2018 e 2022.
- Mas não se deve desconsiderar que o eleitor estar oscilando entre os extremos signifique que seja garantia de apoio ao Centro.
- No entanto, é possível que quem rejeite os extremos, seja de Centro.
Por quanto tempo mais vamos ficar no estilo “morcegal” e do “morde-e-assopra” da política brasileira que não leva a quase nada, pois ninguém confia em ninguém mais?
A quem interessa a polarização de tudo? Certamente não às pessoas comuns. O mercado deve funcionar onde funciona. O Estado deve ser firme onde é necessária sua atuação. O óbvio.
Mas isso não necessariamente ocorre. Muitos parecem jogar quase sempre um jogo de soma zero, uma política do tudo ou nada, e ninguém sai do lugar, quando muito movem-se lentamente no tempo adiando sempre o futuro- deslocando-o para mais longe no tempo.
O fato de se ter um país com dois lados, duas vertentes políticas (e econômicas) bem definidas, pode até ser uma vantagem, se não se autodestruírem, ou seja, se conseguirem se auto tolerar pelo menos no médio prazo.
Teremos que constatar o seguinte: não se consegue resolver o país sem a aceitação de uma parte das atividades e pressupostos do outro.
Afinal, é possível os dois lados estarem completamente errados? Talvez sim.
Nota sobre os Dados
A principal fonte dos dados eleitorais usados na pesquisa é o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), especialmente o “Repositório de dados eleitorais” ou o “Portal de Dados Abertos do TSE”, em https://dadosabertos.tse.jus.br/.
Uma versão completa do artigo, incluindo um apêndice com tabelas detalhadas para os anos eleitorais encontra-se disponível com os autores.
Eleições Presidenciais no Brasil
Sobre os autores
Gutemberg Hespanha Brasil é professor aposentado da UFES;
José Weber Macedo é ex-reitor da UFES e UNIVASF e professor aposentado da UNIVASF;
Carlos Umberto Felipe é engenheiro/jornalista aposentado.
Edição, Don Oleari [email protected] | https://twitter.com/donoleari
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