Antonio Delfim Netto
Um querido amigo, Antonio Delfim Netto. No entanto, nem sempre fomos amigos
Nota da redação: Atualizada e reproduzida a pedidos por ter saído com incorreções.
ARTIGO |

Ives Gandra Martins
Em 1968, quando era o todo-poderoso Ministro da Fazenda do governo Costa e Silva, Delfim Netto pediu o confisco dos meus bens e a abertura de um Inquérito Policial Militar (IPM) contra mim.
Ele acreditava que os honorários advocatícios que recebi de um cliente, cuja defesa eu conduzia com vitórias em primeira instância, eram produto de sonegação. Na época, isso se tornou manchete nos jornais.
O pedido ocorreu em pleno Ato Institucional nº 5, e muitos dos que respondiam a IPMs não retornavam, como foi o caso do jornalista Vladimir Herzog.
Felizmente, quem mandava iniciar o inquérito era o ministro da Justiça, Gama e Silva, meu antigo professor na Faculdade de Direito da USP.
Ele compreendeu que os honorários não tinham relação com a vida do cliente, especialmente porque eu estava ganhando a causa. O Ministro nunca me intimou.
Quando a notícia se espalhou, eu mesmo disse aos jornais que o Ministro poderia me investigar, pois não tinha nada a esconder. Vale ressaltar que os honorários foram descobertos porque eu os declarei em um período em que poucos faziam isso.
Com o tempo, Delfim e eu passamos a manter relações. Ele mesmo declarou que a briga não era pessoal, mas técnica. Assim, nos tornamos amigos.
Em 1986, fundamos a Academia Internacional de Direito e Economia, com a participação de renomados economistas como Roberto Campos, Ernane Galvêas, Mário Henrique Simonsen, Carlos Langoni e Afonso Celso Pastore, além de juristas como Manoel Gonçalves, Celso Bastos e Moreira Alves.
Fui o primeiro presidente Academia Internacional de Direito e Economia.
Nossa amizade se fortaleceu. Em 1986/1987, após uma audiência pública na Assembleia Nacional Constituinte, na qual Delfim presidia a subcomissão de reforma da ordem econômica, ele chegou a afirmar ao jornal Estado de São Paulo que eu seria um excelente candidato a prefeito da cidade.
Escrevemos quatro livros juntos e fizemos várias palestras. Sempre admirei Delfim pela sua capacidade de expressar ideias de forma precisa e cirúrgica.
Ele era um economista esplêndido, um cidadão pragmático e engajado. Mesmo tendo participado do governo militar, manteve contato com todas as áreas acadêmicas e políticas.
Foi deputado e titular da FEA na Universidade de São Paulo. Nosso último encontro foi em uma palestra que realizamos juntos, há dois ou três anos, na Fecomércio.
Muitas pessoas se perguntaram como nos tornamos amigos após os acontecimentos de 1968. José Renato Nalini comentou que meu “baú de ressentimentos” não tem fundo, o que possibilitou a amizade.
Estou convencido de que o Brasil perdeu um grande economista. Hoje, o país carece de economistas reconhecidos internacionalmente, atuantes no setor público.
Embora Roberto Campos Neto seja um excelente presidente do Banco Central, sentimos falta de figuras como Delfim, que, em um momento crítico, ajudaram a implementar o Plano Real e a enfrentar a crise da década de 1980, mantendo a inflação sob controle e permitindo um crescimento exponencial nos anos 1970.
Mesmo em períodos inflacionários, o Brasil não enfrentou uma “hiperinflação”, mas sim uma “superinflação” que não desorganizou a economia.
Sinto muito pela morte de Delfim. Conversei com Galvêas, pouco antes de sua morte aos 99 anos, sobre a importância de Delfim para o Brasil.
Juntos, fundamos a Academia Internacional de Direito e Economia para promover o diálogo entre economistas e juristas.
A falta de um economista como Delfim será sentida, pois mesmo nos últimos anos, ele, apesar da doença, mantinha seu humor e capacidade de análise únicos.
Tenho a impressão de que o Brasil está perdendo suas grandes inteligências. É necessário renovar essas vozes, mas para isso, precisamos adotar uma abordagem menos ideológica e mais pragmática, voltando o olhar para a ciência, a cultura, a educação e o crescimento do país, em vez de se prender a ressentimentos do passado.
Ives Gandra da Silva Martins é professor emérito das universidades Mackenzie, Unip, Unifieo, UniFMU, do Ciee/O Estado de São Paulo, das Escolas de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), Superior de Guerra (ESG) e da Magistratura do Tribunal Regional Federal – 1ª Região.
É também professor honorário das Universidades Austral (Argentina), San Martin de Porres (Peru) e Vasili Goldis (Romênia), doutor honoris causa das Universidades de Craiova (Romênia) e das PUCs PR e RS, catedrático da Universidade do Minho (Portugal), presidente do Conselho Superior de Direito da Fecomércio-SP, ex-presidente da Academia Paulista de Letras (APL) e do Instituto dos Advogados de São Paulo (Iasp).
Antonio Delfim Netto
Edição, Don Oleari – [email protected] | https://twitter.com/donoleari
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