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Coluna AQUI RUBENS PONTES
O primeiro contato do colunista com Santa Teresa, no Espírito Santo, ocorreu em fins de 1985.
À época trabalhando na Editora Expressão e Cultura, grupo editorial do Rio de Janeiro, fora incumbido de recolher subsídios para a edição do livro “Orquídeas do Estado do Espírito Santo”, de Augusto Rushi. O livro foi editado em janeiro de 1986 em versão bilingue, português-inglês.
O que não podia ser previsto era o retorno, tanto tempo já percorrido desde então, à fascinante cidade, já agora honrado como um dos colunistas do Portal Don Oleari – www.donoleari.com.br – com enfoque em outra área, também pioneira, implantada na região pelos imigrantes italianos: a produção de vinhos.
O Editor Chefão, Oswaldo Oleari, ele próprio reconhecido “engólogo”, destacou a importância para o Espírito Santo dessa vocação, despertada sua atenção para o vinho Grano D’oro, produzido com uma uva nova, frutado, aromático, bem encorpado, que não passa por envelhecimento em madeira, produzido por indicação da Embrapa à Cantina Mattiello.
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Santa Teresa, subindo a serra, fica a 78 quilômetros de Vitória, a capital do ES. A história de sua implantação remonta a 1874, quando 60 famílias de imigrantes italianos, das 150 instaladas inicialmente em Santa Leopoldina, foram para lá deslocadas, fundando o núcleo que ficou conhecido como a Colonização Italiana do Brasil.

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A historiadora Larissa Arrivabene chama a atenção para a exuberante biodiversidade da área de Santa Teresa, uma das mais acentuadas do Mundo, com quarenta por cento de seu território composto pela Mata Atlântica, abrigando quase todas as espécies de beija-flores que a fez conhecida como “Cidade dos Colibris” e despertou atenção mundial para o trabalho ali desenvolvido por Augusto Ruschi.

Nela, continua aberto o Bar Elite, um dos mais antigos da cidade e do Espírito Santo, ponto obrigatório de parada da “tchiurma” do Portal Don Oleari. Há um tempim, a turma degustou no Bar Elite uma garrafa do vinho Tabocas.

Ainda assim, o Espirito Santo é o segundo maior importador de vinho do País, com 2 milhões de garrafas anualmente consumidas.
Confirmando seu pioneirismo no setor, Santa Teresa produziu o primeiro espumante do ES, com o nome do seu criador “Sperandio”: 18 mil garrafas por ano. Atualmente, o processo de sua fabricação é o “Método Champenoise”, desenvolvido na França, próprio para produção artesanal.
Em Santa Teresa, enquanto os parreirais eram insuficientes para produção de vinhos de uva, os fabricantes produziam, e ainda hoje produzem, vinho de jabuticaba fermentada, muito consumido no Estado.
Nesse friorento fim-de-semana, abro uma garrafa de vinho Tabocas (*), um ótimo cabernet savignon produzido na região, no belo Vale do Tabocas, quatro vezes premiado em certames nacionais, situado entre os melhores vinhos brasileiros, e ergo a taça em saudação aos imigrantes italianos que nos trouxeram, em troca do fraternal acolhimento em nossos rincões, a cultura do vinho, a bebida para nós abençoada desde a Última Ceia da doutrina cristã.

A Itália, nossa inspiração, é a maior produtora mundial de vinho, com 260 milhões de hectolitros, seguida da França, Espanha e Portugal, este muito distante em volume.
No Brasil, o maior produtor é o Município Flores da Cunha, no Rio Grande do Sul.
A bebida tem sido cantada em prosa e verso, desde quando, nas Bodas de Canaã, Jesus, a pedido de sua mãe, Maria, transformou toneis de água em vinho – dizem que um vinho de excelente qualidade.
Nosso poema, fechando a Coluna, é uma ode à bebida que sempre avocamos ao desejar aos amigos “saúde!”, saudando a terra dos beija-flores.
Rubens Pontes, jornalista.
Capim Branco, MG
Ode ao Vinho
Pablo Neruda
Vinho da cor do dia,
vinho da cor da noite,
vinho com pés de púrpura
ou sangue de topázio,
vinho, rutilante filho
da terra,
vinho, liso como uma espada de ouro,
suave como um antigo veludo,
vinho encaracolado e suspenso,
amoroso, marinho,
jamais coubeste numa taça,
numa canção, num homem,
num coro, tens o sentido gregário,
ou pelo menos, comum.
Às vezes
alimentas-te de recordações
mortais,
na tua onda vamos de tumba em tumba,
canteiro de gelado sepulcro,
e choramos transitórias lágrimas,
mas o teu formoso traje de Primavera
é diferente,
o coração sobe aos ramos,
o vento move o dia,
nada fica dentro da tua imóvel alma.
O vinho
move a Primavera,
cresce como uma planta de alegria,
os muros desmoronam-se,
os penhascos, fecham-se os abismos,
nasce o canto.
Ó tu, jarro de vinho no deserto
com a doce amada minha,
disse o velho poeta.
Que o cântaro de vinho
ao peso do amor afogue o seu beijo.
Meu amor, subitamente
a tua nádega é curva plena da taça,
o teu peito o cacho,
a luz do álcool a tua cabeleira,
as uvas os teus mamilos,
o teu umbigo o selo puro
estampado no teu ventre de ânfora,
e o teu amor a cascata
de vinho perene,
a claridade que inunda os meus sentidos,
o esplendor terrestre da vida.
Mas tu, vinho da vida, não és
somente amor, escaldante beijo
ou coração queimado, és também
amizade dos seres, transparência,
coro de disciplina,
abundância de flores.
Amo, quando se fala
à mesa, da luz de uma garrafa
de inteligente vinho.
Que o bebam,
que recordem em cada
gota de ouro ou taça de topázio
ou colher de púrpura que o Outono trabalhou
até encher de vinho as vasilhas
e que o músculo homem aprenda,
no cerimonial do seu negócio,
a recordar a terra e os seus deveres,
a propagar o cântico do fruto.
(Tradução de Luis Pignatelli)
Editado por Don Oleari, o “engólogo”

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