“Cheio de Dedos” – Um drama delicadíssimo em atos de nervosismo

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Cheio de Dedos
Cheio de Dedos

CRÕNICA  | 

NEC = Nota do Editor Chefão, Don Oleari |

Rodrigo Melo Rego, nosso colaborador das colunas AS CERTINHAS DO OLEARI E POESIA e AS CERTINHAS DO OLEARI + POESIA ERÓTICA, se inspira em outro brilhante colaborador, o jornalista, radialista, cronista e médico RENATO FISCHER, sempre ligado na linguagem e nos costumes da patuleia.

Melo Rego sempre se ocultou atrás de uma silhueta por razões objetivas: ativo no mercado de comunicação, prefere manter seu emprego (Don Oleari).

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Rodrigo M. Rego

CRÔNICA |

RODRIGO MELO REGO 

Na pequena e pacata cidade de Quietópolis — onde até os passarinhos pedem licença antes de cantar — vivia Eleutério.

Era um homem que, dizem as más (ou boas?) línguas, tão cheio de dedos que parecia ter vinte mãos invisíveis em volta dele, todas com manicure em dia e altamente sensíveis a qualquer esbarrão emocional.

Eleutério não era apenas melindroso. Era um caso clínico de “suscetibilite aguda”.

Bastava alguém dizer “Bom dia, Eleutério!” com um tom levemente mais animado que o habitual, e pronto:

“Ah, então você acha que ontem o meu dia foi ruim, é isso? Só porque hoje é ‘bom?”

E saia dali bufando, como se tivesse sido atacado por um exército de ironias mal-intencionadas.

Um dia, no mercadinho da Dona Zuleide, um senhor comentou:

“A chuva ontem foi boa pro feijão, né?”

“Feijão? Tá me chamando de flatulento, é? Que insinuação é essa?”, gritou Eleutério, derrubando um pacote de ervilha em protesto passivo-agressivo.

Era difícil conviver com Eleutério. Reuniões de condomínio eram cenas de tensão.

Ninguém ousava sugerir trocar a cor do portão:

“Ah, então agora marrom não presta mais? É uma crítica velada ao meu paletó, só pode.”

No grupo da família, emojis eram armas letais. Mandou um “joinha”? Ele interpretava como sarcasmo. Mandou um coração?

“Tá debochando da minha sensibilidade”.

Silêncio? “Me ignoram, é isso?!”

A vizinhança, em solidariedade, fez até um curso de “Comunicação Não Agressiva Para Lidar Com Eleutério“, ministrado por um monge budista e uma professora de maternal. Mesmo assim, nada parecia bastar.

Mas, numa reviravolta digna de novela das nove, algo aconteceu.

Eleutério conheceu Dona Neuzinha, uma senhora especialista em jardinagem… e em lidar com plantas sensíveis. Com delicadeza, Neuzinha lhe disse:

“Você não é cheio de dedos, meu caro. Você é uma orquídea humana.”

Ele sorriu. Pela primeira vez, não se ofendeu. Talvez, só talvez… fosse verdade.

Desde então, Eleutério melhorou um pouco.

Agora, ao menos, só se ofende três vezes por dia. Um progresso.

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Don Oleari - Editor Chefão

Radialista, Jornalista, Publicitário.
Don Oleari Corporeitcham