Erondina Machado
IN MEMORIAM
Capa | Imagem da velha palmatória com que Sinhá Andrade puniu o pobre aluno, autor do artigo.
Veja poema de Cora Coralina em homenagem ao Professor.
ARTIGO |

de Freitas
ALENCAR GARCIA DE FREITAS
Vitória – ES, 15/10/2025 – 08h15m
Este 15 de outubro, Dia do Professor, instituído inicialmente pelo Imperador Dom Pedro I, me traz à memória, mais uma vez, o nome da minha saudosa e inesquecível mestra Erondina Machado.
Foi ela quem teve a missão de me ensinar as primeiras letras, depois de uma breve e infeliz passagem por outra escola.
Antes, estudei alguns dias com Sinhá Andrade, dona de uma escola particular no centro da minha cidade, Aimorés/MG, frequentada apenas por filhos de ricos.
Não me pergunte como fui parar ali, um filho de dona Guilhermina, viúva, lavadeira e mãe de quase uma dúzia de filhos.
Penso que talvez tenha sido por obra de algum rico, querendo bancar o caridoso.
Com uns oito anos, eu era o único menino pobre naquela escola.
Era ignorado pela dona e pelos alunos.
Sinhá Andrade sempre encontrava motivos para me punir: usava a palmatória, mandava que eu me ajoelhasse sobre grãos de milho.
Enquanto isso, os meninos ricos riam de mim por eu usar tamancos. Não suportando mais tanta humilhação, fugi da escola.
Foi então que conheci dona Erondina, da família Machado, moradora do centro da cidade de Aimorés.
Ela lecionava numa escolinha no bairro da Igrejinha, onde nosso atual Editor Chefão, Don Oleari, morou por volta dos 8 anos de idade.
Todos os dias, saía de casa e por onde passava arrebanhava as crianças pobres, levando-as com ela.
Chegava à escola cercada por um monte de meninos e meninas, cada um fazendo questão de carregar nem que fosse um caderno ou um lápis.
Foi, para mim, a experiência mais gratificante. Era como se eu houvesse saído do inferno e ido direto para o céu.
De lá para cá, muita coisa mudou — e para melhor — tanto para os alunos quanto para os professores.
Estes, no entanto, ainda precisam ser mais valorizados, em especial no que diz respeito aos salários e à formação acadêmica.
O professor é aquele por quem todo médico, engenheiro, advogado ou juiz passou um dia.
Minha carinhosa e respeitosa homenagem a esse grande mestre (Alencar Garcia de Freitas).

“Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”, frase de Cora Coralina, no poema Exaltação de Aninha (O Professor)
Exaltação de aninha (O professor)
Cora Coralina
Professor, sois o sal da terra e a luz do mundo.
Sem vós tudo seria baço e a terra escura.
Professor, faze de tua cadeira,
a cátedra de um mestre.
Se souberes elevar teu magistério,
ele te elevará à magnificência.
Tu és um jovem, sê, com o tempo e competência,
um excelente mestre.
Meu jovem professor, quem mais ensina e quem mais aprende?
O professor ou o aluno?
De quem maior responsabilidade na classe,
do professor ou do aluno?
Professor, sê um mestre. Há uma diferença sutil
entre este e aquele.
Este leciona e vai prestes a outros afazeres.
Aquele mestreia e ajuda seus discípulos.
O professor tem uma tabela a que se apega.
O mestre excede a qualquer tabela e é sempre um mestre.
Feliz é o professor que aprende ensinando.
A criatura humana pode ter qualidades e faculdades.
Podemos aperfeiçoar as duas.
A mais importante faculdade de quem ensina
é a sua ascendência sobre a classe
ascendência é uma irradiação magnética, dominadora
que se impõe sem palavras ou gestos,
sem criar atritos, ordem e aproveitamento.
É uma força sensível que emana da personalidade
e a faz querida e respeitada, aceita.
Pode ser consciente, pode ser desenvolvida na escola,
no lar, no trabalho e na sociedade.
Um poder condutor sobre o auditório, filhos, dependentes, alunos.
É tranqüila e atuante. É um alto comando obscuro
e sempre presente. É a marca dos líderes.
A estrada da vida é uma reta marcada de encruzilhadas.
Caminhos certos e errados, encontros e desencontros
do começo ao fim.
Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.
O melhor professor nem sempre é o de mais saber,
é sim aquele que, modesto, tem a faculdade de transferir
e manter o respeito e a disciplina da classe….
Do livro: “vintém de cobre: meias confissões de aninha”, ed. Global gaia, 2007, 9ª ed., sp
Erondina Machado
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