O médico e o louco
Quem conta um conto, aumenta um ponto

NEC = Nota do Editor Chefão, Don Oleari |
Trata-se de mais um presente para nosso jornal.
Manoel Goes Neto, inquieto produtor cultural, dileto e ativo colaborador do nosso time, manda a notícia do lançamento do livro do médico e escritor – veja linki lá embaixo – e acrescenta:

Ele é um contista de mão cheia. Encaminho o primeiro de muitos que vão deliciar nossos leitores. Manoel Goes Neto”.
Ora, ora, minha senhora, perdi um Vellozo Lucas para outros saitis por aí – o Luiz Paulo – mas ganho um Vellozo Lucas bem no nosso modelo.
Médico, louco, roqueiro, apreciador de vinhos, pensador.
Pra nosotros não precisa mais nada e minha meia dúzia e meia de leitores há de concordar ao ler seu conto aí prabaixo.
Além do mais, abrigar um do clã da saudosa Mariazinha Vellozo Lucas é um privilégio.
Mariazinha sempre me tratou como gente. Eu a chamava de minha madrinha, pois sempre valorizou meu trabalho, me apoiou e me prestigiou.
Seja bem-vindo, Sérgio Vellozo Lucas, médico, louco. Como se dizia nas antigas, todos nós temos um pouco.
Festejando agora com uma taça de vinho, um bom Carmenére, e com Imigrant Song, como Rockoroa que continuo sendo. Vamuquivamu (Don Oleari).

CONTO |
O MÉDICO E O LOUCO
SÉRGIO VELLOZO LUCAS
Aconteceu numa sexta-feira como outra qualquer, eu estava dividido entre a expectativa do fim de semana e o cansaço da lida que ainda não tinha acabado.
Eram quatro da tarde, eu tinha compromisso até às oito e meia da noite, quando Sueli, minha secretária, me transferiu o telefonema de uma colega.
– Sergio, me faz o favor de atender uma amiga da minha mãe. É uma senhora muito elegante de Cachoeiro, que passou a ter uma insônia severa e os remédios tradicionais já não fazem mais efeito.
A colega era uma boa amiga e o seu pedido era irrecusável para mim. Apesar da agenda cheia eu marquei a consulta da elegante senhora de Cachoeiro de Itapemirim/ES para as 20h30m.
O dia foi particularmente difícil, pacientes com o perfil de desafiar o terapeuta e outros em situação de sofrimento emocional que despertam em mim uma empatia ao mesmo tempo útil para a abordagem e desgastante para a minha própria saúde mental.
Quando deu 20h30m eu estava exausto, mas a elegante senhora de Cachoeiro já estava na minha sala de espera.
Eu consegui, às duras penas, manter a concentração e levar a consulta de forma efetiva, sem deixar transparecer nenhum incômodo.
A consulta teria sido até prazerosa em outras circunstâncias, a senhora era mesmo muito elegante, tinha uma conversa erudita e ainda não apresentava danos visíveis causados pelo período de insônia.
O pior era a dependência de benzodiazepínicos, mas não era um caso muito difícil, ela parecia disciplinada e disposta.
A minha cabeça é que tinha passado do ponto. Quando a consulta terminou eu estava a ponto de explodir, só pensava em ir embora pra casa, tomar uma taça de vinho na varanda e não pensar em mais nada.
Juntei rapidamente minhas coisas na mochila e saí imediatamente após a paciente, deixei que Sueli fechasse o consultório.
Peguei o carro planejando colocar um som pesado, quando estou mentalmente extenuado um clássico do rock pauleira costuma zerar a minha cabeça.
O dr. Sergio sai pra passear e o roqueiro que subloca um cantinho do meu cérebro assume o controle sem nenhuma cerimônia.
Escolhi Led Zeppelin para operar a metamorfose, logo Robert Plant estava urrando Immigrant Song pelos auto falantes do carro.
Ah, ah, aah, AAH,
Ah, ah, aah, AAH.
We come from the land
Of the ice and snow
From the midnight sun
Were the hot spring blow…
Eu batucava furiosamente no console do carro e berrava a plenos pulmões junto com Robert Plant.
Podia sentir fisicamente o estresse se esvaindo, fluía do meu corpo para o espaço sideral pelos meus dedos e pela minha boca, levado pela poderosa melodia do Zeppelin.
Em poucos minutos minha mente já estava acompanhando os nobres vikings em Valhalla, longe dos problemas desse mundo, mas o meu carro parou num sinal fechado aqui mesmo na Enseada do Suá.
Nada que pudesse atrapalhar a minha performance vocal, eu continuei me esgoelando sem cerimônia.
O solo da guitarra de Jimmy Page assumiu a música e deu um tempo para mim e o Robert Plant darmos uma respirada nos vocais, nesse momento eu olhei distraidamente para o carro ao lado.
A elegante senhora de Cachoeiro estava sentada no banco de trás de um SUV, pilotado por um motorista uniformizado de boné e tudo, com a cara muito séria.
Ela estava olhando diretamente para mim com os olhos arregalados e a boca escancarada numa expressão de incredulidade. Estupefata!
Me senti como um menino surpreendido brincando de médico no quarto da prima. Uma hora de esforço para manter uma conversa delicada e pertinente tinham ido para o ralo em poucos segundos.
Minha reação foi abrir os braços e encolher os ombros num sorriso como quem diz:
– É, você descobriu meu segredo, eu sou meio maluco mesmo, fazer o que?
Não tive tempo de conferir a reação dela, o sinal abriu, o motorista de boné acelerou e o SUV sumiu na noite de sexta-feira.
Nunca mais vou ver essa elegante senhora, pensei com os meus botões. Será que ela vai queimar o meu filme com a minha colega?
Não deu tempo pra ficar elucubrando muito, no som do carro Jimmy Page começou a tocar os primeiros acordes de Kashmir e instantaneamente eu mergulhei de volta no som lisérgico do Led Zeppelin.
P.S.: A elegante senhora de Cachoeiro retornou ao meu consultório na data marcada e continuou o tratamento comigo. Ela nunca mencionou a cena que viu naquela sexta-feira.
Sérgio Vellozo Lucas – escritor e médico
O médico e o louco
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