Gonzalo Macuna: ouro brilha onde o rio morre | A tragédia do mercúrio

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ouro brilha onde o rio morre

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O ouro brilha onde o rio morre é um artigo sobre o desastre causado pelo maldito mercúrio, que empesteia todos os sistemas de vida.

Revisada e atalizada em 19/1/2026

AS BOAS DO DON OLEARI DE 2025

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ARTIGO | 

GONZALO MACUNA – Secretário-Geral do Macroterritório dos Jaguares de Yuruparí

Em meados do século XX, o mundo conheceu os desastres provocados pela contaminação por mercúrio.

O despejo indiscriminado de resíduos industriais na Baía de Minamata (Japão) deu origem a uma das maiores tragédias do nosso tempo: milhares de pessoas sofreram os dolorosos sintomas de intoxicação e malformações congênitas, quase sempre causadas pelo consumo de peixes contaminados por esse metal.

Até hoje quase 3.000 pessoas foram oficialmente reconhecidas como contaminadas.

Na semana passada, tive a oportunidade de participar em Genebra da COP6 da Convenção de Minamata.

Esse instrumento foi criado pelas Nações Unidas para reduzir os impactos e o uso do mercúrio, batizado com o tristemente célebre nome da cidade japonesa.

Lá pude levar a mensagem que nós, das comunidades e dos governos indígenas da Amazônia, repetimos com insistência: estamos em risco.

 ouro-e-rio-morre.jpgA contaminação por mercúrio não ameaça apenas nossos povos, mas também os ecossistemas e sua biodiversidade.

O uso de mercúrio na extração de ouro desencadeou na região amazônica uma emergência impossível de ignorar.

Neste momento, em que a COP30 de Mudanças Climáticas acaba de ser realizada em Belém do Pará, é fundamental reiterar que os impactos do mercúrio não se limitam a casos isolados como o da Colômbia.

Lá, medições recentes realizadas pela Universidade de Cartagena em nossos territórios amazônicos revelam contaminação até 15 vezes acima do limite seguro estabelecido pela Organização Mundial da Saúde.

Ou o do próprio Brasil, onde, como destaca o Instituto Escolhas, 92% dos indivíduos da comunidade Yanomami no alto Tapajós apresentam concentrações altíssimas de mercúrio em seus corpos.

Não: o problema é de todos, sobretudo quando sabemos que a mineração ilegal de ouro transformou mais de 13 mil quilômetros quadrados na Amazônia desde 2018, liberando milhares de toneladas de mercúrio.

A floresta é uma só, e os rios não conhecem fronteiras.

E o impacto não se limita ao corpo.

Em diversas comunidades, já alertamos sobre quais peixes não devemos mais consumir, e é particularmente difícil explicar por que nossos sistemas de conhecimento ancestral precisam mudar.

A água agora está contaminada, os peixes carregam o metal em seus organismos e nossos corpos não conseguem metabolizá-lo.

Além disso, os impactos sociais se espalham por todo o território.

A mineração intensificou a violência contra defensores ambientais e as disputas pelo controle do mercado ilegal de ouro cercam comunidades inteiras nas selvas da Colômbia, Venezuela, Peru, Bolívia, Equador e Brasil.

A Amazônia é hoje a região que mais emite mercúrio no mundo e, apesar dos avanços obtidos no âmbito de convenções como a de Minamata, nossa participação como povos indígenas na tomada de decisões ainda é profundamente insuficiente.

Temos certeza de que nosso papel não reflete adequadamente o impacto que sofremos.

Por isso, é indispensável que os povos indígenas tenham financiamento direto para implementar nossas próprias iniciativas de conservação e que o monitoramento de nossa saúde seja constante nos territórios.

Também é crucial que a representação dos povos amazônicos seja mais visível e substancial nos organismos que tratam do problema do mercúrio e de suas regulamentações internacionais.

Foi isso que deixamos claro em Genebra.

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Encontro aconteceu entre 3 e 8 de agosto em Letícia, na Colômbia (Foto: Erick Morales – Produtora Espectro)

Mais de uma dezena de línguas indígenas –  além do português, do espanhol e do “portunhol” – conviveram durante a primeira semana de agosto em Letícia, na tríplice fronteira onde as Amazônias colombiana, peruana e brasileira se encontram.

No Macroterritório dos Jaguares de Yuruparí, que tenho o privilégio de representar como secretário-geral e que é uma das áreas mais bem preservadas do bioma amazônico, sabemos que não há riqueza mais sagrada do que o território.

O ouro brilha onde o rio morre, e não podemos esperar que outra grande tragédia se consolide enquanto o mundo, ofuscado como o rei Midas, perde de vista a própria destruição.

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Edição, Don Oleari – [email protected] | https://twitter.com/donoleari

Com Lucas Nogueira

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Don Oleari - Editor Chefão

Radialista, Jornalista, Publicitário.
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