Solidão
Match, Like, Solidão – Estamos segmentando o amor, tentando garantir afinidades antes mesmo do primeiro “olá”.

CRÕNICA |
EDILSON LUCAS DO AMARAL
Vivemos na era do toque. Mas não o toque humano, caloroso, de pele e presença. O toque agora é o deslizar do dedo na tela.
Um “match” para a direita, um descarte para a esquerda. Encontros modernos acontecem ali, entre algoritmos e selfies estrategicamente filtradas.
E com isso, aos poucos, a humanidade vai se desconectando daquilo que tem de mais humano: o contato real, o olho no olho, o acaso das esquinas.
Os aplicativos prometem o amor em alta velocidade.
Mas, ao mesmo tempo, nos entregam uma solitude travestida de liberdade.
Cada um em sua bolha digital, admirando o outro sem saber se existe verdade por trás daquela imagem, ou apenas uma curadoria de felicidade, status e ostentação.

Os solteiros de meia idade — uma geração crescente e inquieta — são agora navegadores desse novo mar.
Quarentões que se reinventam como trintões, cinquentões que se esculpem com procedimentos e autocuidado, buscando não só juventude, mas também companhia.
Onde se encontram? Não mais nos bares ou festas familiares. Encontram-se nos apps, onde o amor virou catálogo, o afeto virou swipe, e a intimidade virou sorte.
O Tinder, o Happn, o Bumble… são shoppings emocionais. Escolhe-se alguém pela capa e espera-se que o conteúdo corresponda.
Mas, ironicamente, não há política de troca ou devolução: o que se vê nem sempre é o que se recebe. Ainda assim, os “coroas”, como se dizem com humor, estão lá.
Talvez não em busca da paixão avassaladora da juventude, mas de uma companhia que caiba nos silêncios e nos recomeços.
O curioso é que até a fé virou filtro: apps para evangélicos, para espíritas, para quem ama pets, vinho ou astrologia.
Estamos segmentando o amor, tentando garantir afinidades antes mesmo do primeiro “olá”.
E nisso perdemos o improviso, o tropeço feliz, o olhar trocado que nenhum algoritmo pode prever.
No fim, fica a pergunta: será que estamos indo na direção certa?
A tecnologia aproxima, sim — mas também isola.
Nos conecta, mas também nos cobre de ruídos e expectativas irreais. Estamos substituindo o tempo do encontro pelo tempo da resposta rápida.
E, com isso, talvez estejamos substituindo a vida por um simulacro dela.
É bonito ter o mundo na palma da mão. Mas perigoso esquecer que o coração bate no peito, e não na tela.
Solidão
Edição, Don Oleari – [email protected] | https://twitter.com/donoleari
http://www.facebook.com/oswaldo.oleariouoleare –
Instagram do Don Oleari Portal de Notícias




