Trevisan
A crônica Por volta da meia-noite está no livro A Onda Que Invade a Ilha, lançado recentemente. Nela, Trevisan revive o histórito Britz Bar, recentemente também revivido em outra bela crônica de Paulo Bonates.
CRÕNICA |

LUIZ TREVISAN
Reproduzida com autorização do autor.
Veja os linkis da matérias do DOPN | AQUI ESPÍRITO SANTO
Não sei se foi porque no pen-drive tocou “Round midnight”, com Miles Davis e o auxílio luxuoso de Bill Evans ao piano,
logo comecei a imaginar como seria uma meia-noite na Lapa, no tempo de Wilson Batista, Geraldo Pereira, Noel Rosa e outros bambas.
E também no Britz Bar, de Vitória, com Fontana, Humberto Musso, Claudio Bueno Rocha, Orlando Bonfim, Fernando Tatagiba, Serginho Egito, Salomé, Sheila Silva, Pedro Maia, Malandro Garça, Zélia, Rosalca, Antonio Aquino, Maura Miranda, Glecy, Laura Coutinho, Tieta, Ronaldo Nascimento, Terezinha e Marien Calixte, Carmélia Maria de Souza, as “virgens” de Luiz Rogério Fabrino e tantos mais.
Associei ao filme de Wood Allen, “Meia-Noite em Paris”, que protagoniza encontros memoráveis numa mágica reviravolta do tempo.
Há um gatilho que altera a cronologia, volta-se à belle époque, a fantasia entra em cena e o cara está lá convivendo com Ernest Hemingway, Salvador Dali, Paul Gauguin, Gertrude Stein, Zelda e Scott Fitzgerald, Pablo Picasso e todas madeleines de Proust.
Paulo Bonates | No tempo em que o Britz Bar era o centro do mundo
Por mim, se pudesse cruzaria num táxi por aqueles arcos da Lapa e, por magia, por volta da meia-noite, iria procurar nos bares, entre mesas e mariposas, por Wilson, Geraldo e Noel.
Certamente, abriria os procedimentos com chope garotinho e arroz de cordeiro, no Capella, depois um rabo-de-galo traçado no copo sujo “Sovaco de cobra”, sempre recomendado por Aracy de Almeida; passaria pelo boteco do Gomes, para ver se flagrava ali Ismael Silva cantarolando um samba novo, depois uma passadinha no cabaré Apollo, na expectativa de encontrar Noel Rosa cortejando Cecy.
Não teria medo de me deparar com Madame Satã ou Kid Pepe, o folgazão lutador que numa noitada daquelas obrigou Noel a lhe dar parceria em uma música.
Sob ameaça de surra, Noel aceitou e ganhou uma rodada por conta do novo “parceiro” compulsório: “E o orvalho vem caindo…”

Imagino o vazio que Noel, aos 25 anos, sentia toda meia-noite durante a temporada em que buscou no clima serrano de Belo Horizonte os ares para tratamento de tuberculose, fruto da boemia entre mulatas, loiras, rufiões, malandros e otários, em celebrações noite adentro.
Ali, nenhuma Estrela Dalva por testemunha.
Tigelinha de sopa no leito, pijama, pantufas, dormir bem antes da meia-noite deve ser a visão do inferno para qualquer boêmio que se preze, ainda mais um sambista de mão cheia, vida intensa e cabeça prospectando versos como “Joguei meu cigarro no chão e pisei.
Sem mais nenhum, aquele mesmo apanhei e fumei, através da fumaça, neguei minha raça, sempre a repetir: ela é o veneno que eu escolhi para morrer sem sentir”.
Noel não iria mesmo resistir por muito tempo àquela súbita vida de monge longe da cadência e boêmia carioca.
Logo estaria de volta à vida que pulsava alegre, intensa, plena e perigosamente, na Lapa e arredores, antes e depois da meia-noite.
“Prefiro seis meses de vida aqui à eternidade de um retiro”, teria dito, ao reencontrar amigos entre traçados, petiscos, cerveja Cascatinha bem gelada e a fumaça do Beverly Ovaes.
Noel, como se sabe, morreu aos 27 anos, passou rápido demais. É festejado hoje como um dos gênios da música popular com um legado amplo que se renova e perpetua. Proporcional ao tempo de vida, eu arrisco que ele é o maior da rica música popular brasileira.
Do clima e da solidão sentida por Noel nas serras mineiras, posso aquilatar.
Por volta de uma meia-noite fria de julho de 1974, quarenta anos após Noel abandonar a reclusão de BH, desembarquei na estação ferroviária de Nova Era, um vale mineiro.
Eu tinha 24 anos e aquela cidade pequena dormia, silêncio, ruídos esparsos e solidão.
Avistava-se ao longe cordões de postes com lâmpadas amarelas nas encostas, cães sonorizavam aqueles ermos entrecortados pelo sacolejar familiar dos vagões de minério.
Aquela e tantas outras noites passadas ali me mostraram como eu estava absolutamente fora de lugar, embora estivesse num emprego, considerado invejável e estável, de uma grande mineradora.
Das conversas com ferroviários antigos deduzi o futuro à minha espera. Eles sempre faziam contagem dos anos que faltavam para a aposentadoria, e daí brotavam mil planos, iriam viver quase na hora de morrer.
Não resisti por muito tempo àqueles ermos, a distância da vida que pulsava antes e após a meia-noite além do horizonte daquelas montanhas das gerais. Um rio melancólico, sem peixes, negro de poluição industrial atravessava o lugar. Parti dali sem querer nem olhar para trás.
Eu teria pela frente meias-noites bem mais animadas. Algumas ambientadas no Britz Bar, logo que voltei a morar em Vitória, final de 1974, entre o alvoroço e temores dos anos de chumbo.
Situado no centro antigo de Vitória, na Gama Rosa, o Britz era ponto de encontro da juventude, estudantes, jornalistas, profissionais liberais, artistas da música, teatro, cinema; pulsava jazz antes e depois da meia-noite, e nas rodinhas de violão que se formavam: samba, tropicália, bossa nova e músicas de festivais.
Política, paquera, torpedos, transgressões, cultura e contracultura estavam em quase todas as mesas, a censura incomodava, mas era desafiada num painel com notícias proibidas pela Polícia Federal trazidas das redações por jornalistas.
No cardápio, Caol-Luiz Rogério Fabrino, lombinho – Oswaldo Oleare, filé-Demilson Martins, medalhão à Calvert. Virou bordão se despedir ou combinar: “A gente se vê no Britz”.
Volta e meia, por volta da meia-noite apareciam celebridades que se apresentavam em Vitória. Luiz Melodia chegava e saia praticamente calado, embora bebesse bastante e fizesse cara de paisagem na hora da conta.
Elis Regina podia ser vista numa mesa, ao lado do teatrólogo e jornalista Luiz Tadeu Teixeira, exigindo “um uísque melhor”.
Toninho Horta sempre surgia escudado pelo compositor Chico Lessa, capixaba que andou frequentando, meio de penetra, o mineiro Clube da Esquina; enquanto a cantora Waleska, a “rainha da fossa”, adorava uma canja sonora entre as mesas:
“Ah, você está vendo só do jeito que eu fiquei e tudo ficou…”. Maura Miranda, então principal apresentadora local da TV, olhos nos olhos de Aquino, entoava afinada “Dindi”: Céu, tão grande é o céu, e bando de nuvens que passam ligeiras…”
Sentar numa mesa com Luiz Paixão virava uma aula de jazz daquele simpático professor de inglês, e um dos primeiros moradores que se encontrou no “Triângulo das Bermudas”, na então remota Praia do Canto.
Com ele você ficaria sabendo tudo do “Ndeda”, antológico álbum de Quincy Jones, desde a ficha técnica até detalhes da vida do músico.
“Aquele cara, quando criança pobre era alimentado por ratos cozidos pela mãe, uma ex-escrava. Quem diria que, adulto, ele comeria a bela atriz Nastassja Kinsk, entre outras beldades internacionais”, confidenciaria, baixando o tom da voz, como que envergonhado pelo comentário.
Numa outra mesa você poderia ouvir o eloquente advogado Arlon José de Oliveira narrando para o colega Everton Montenegro como ocorreu a auto-internação do escritor Fernando Tatagiba em uma clínica psiquiátrica.
Estampa, no rosto e na voz, um prazer mordaz ao detalhar a visita que fizera a Tatagiba na clínica:
“Ele estava imóvel, sob as cobertas, e ignorando meus apelos para conversar. Quando ameacei ir embora, ainda sob cobertas, ele apenas murmurou soturno: ‘baratas não falam’. Em sua cabeceira, percebi, entreaberto, o livro “A Metamorfose”, de Kafka. Estava tudo explicado”.
Sentar-se na calçada, sob a cobertura do bar, abria outras possibilidades. De uma mesa vizinha, Malandro Garça presenciou uma discussão entre Antonio Alaerte, que corretamente se intitulava “cabeça-de-fogo”, e Luizinho Brito.
Sentindo-se ofendido, Luizinho sacou uma arma e deu um tiro na perna de Alaerte.
Tempos depois, de pé na plateia, Alaerte batia boca com Hermeto Paschoal durante uma exibição do renomado músico no Circo da Cultura armado na Reta da Penha.
Abaixo do palco, Alaerte sacou uma flauta e, aos berros, desafiou Hermeto a fazer um som “não-colonizado, sem imperialismo musical”.
Pra não incendiar o circo, “cabeça de fogo” teve que ser retirado por policiais.
Entrando ou saindo do Britz você poderia dar de cara com Marinho Pé de Pato anunciando o início dos ensaios da peça Esperando Godot, o poeta João Amorim Coutinho convidando para lançamento do seu livro “Os Ditadores Morrem de Medo da Primavera”, Valdo Mota oferecendo sua mais nova obra literária incensada pelo Caderno Dois de A Gazeta, o cineasta Orlando Bonfim detalhando gravações de documentário sobre imigrantes italianos no Espírito Santo, Ronald Mansur projetando um programa de televisão sobre o meio rural capixaba, o ator Joel Barcelos procurando “extras” para fazer ponta no filme “Inferno no Paraíso”, rodado no Estado; Esther Mazzi, voz grave, narrando noturnas conversas telefônicas com João Gilberto e recomendando o novo show de “Os Mamíferos”.
Garantia que “Andorinha (apelido de Rogério Coimbra) adorou a atuação do Passoca (apelido do Afonso Abreu) no contrabaixo”. E que o baterista Marco Antônio Grijó havia se tornado “um autêntico metrônomo ambulante”.
Ou ainda se deparar com os dançarinos Magno Godói e Marcelo Ferreira radiantes pela extensão da temporada Neo-Iaô.
Acima do térreo, num ambiente mais intimista, mas de janelas sempre abertas, o jornalista CBR costumava mostrar seus dotes ao piano, podia ser Cole Porter ou Gershwin.
Com um pouco de sorte, se avistaria a grande mesa onde o elenco de “Carmélia Por Amor” festejava o sucesso de mais uma noitada no Teatro Carlos Gomes, casa cheia durante semanas para assistir ao recital-musical que fez história na cidade.
Calcado na prosa da cronista Carmélia Maria de Souza, a partir do livro “Vento Sul”, reunia no elenco, entre outros, Amylton de Almeida, Milson Henriques, Mariângela Pellerano, Glecy Coutinho, Gilberto Garcia ao piano, o violão de Elias Borges, a voz de Aprígio Lyrio - inesquecível nas interpretações de Estrada do Sol (Tom Jobim-Dolores Duran) e O Barquinho (Menescal e Boscoli).
Em março de 1976, Amylton de Almeida publicou o prefácio de “Vento Sul” até hoje reverenciado em academias, saraus e mesas de bar, pela intensidade e elegância.
Ao longo de 14 páginas e meia, resumiu os principais eventos e personalidades do mundo, desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
O crítico de cinema mais amado do jornalismo capixaba mostrou a que veio com o texto “Vitória, Meu Amor”. Um trecho dele descrevendo Carmélia:
“Até o fim ela foi fiel à alegria, ao ar, ao sol leve de outono e ao vento sul, o que não se repete em qualquer outra cidade do mundo. Ela sabia que há um momento em Vitória em que esta ilha se parece com todas as cidades do mundo. Por isso nunca quis ir embora”.
Carmélia nunca escondeu sua paixão pelo jornalista José Costa, também cronista de mão cheia, e costumava usar canções – “Dindi”, “O Barquinho”, “A Noite do Meu Bem”…– para ilustrar seus afetos e desencontros, como no texto que intitulou “Testamento”, com trechos a seguir.
“Olhe, Dindi, pode ser que daqui a pouco em vá embora para alguma estrela, sem ver aquela praça de Paris, conforme tenho sonhado. É possível que eu adormeça de repente, sem conhecer a felicidade de ser pobre nas ruas de Paris, cantar as canções de Piaf e Aznavour”.
Continua a cronista:
“Entre no meu quarto e recolha todo os sonhos que encontrar perdidos por lá, guarde ou rasgue as cartas que me mandaram e as que não mandei… Diga ao meu amor que chamei por ele no vento das tardes, procurando-o no céu, no mar, nas estrelas, nas madrugadas, e que depois me espatifei de encontro ao infinito. Diga-lhe que a casa branca de janelas brancas abertas para o mar já não existe mais”.
A autora, morta em 1974, aos 38 anos, de embolia pulmonar, recorreu ao poeta Fernando Pessoa para seu epitáfio:
“Coroai-me de rosas. Coroai-me em verdade de rosas. Rosas que se apagam em frontes a apagar-se tão cedo. Corai-me de rosas e de folhas breves, e basta”.

O zagueiro Fontana, outro a apagar-se tão cedo, também aparecia no Britz, fosse para rever amigos ou a irmã Eliana, casada com Paru, eles eram os proprietários.
Altivo, boa-pinta, trazia a áurea de campeão do mundo no futebol, pois integrou a famosa seleção brasileira de 1970, vencedora da Copa no México.
Tinha fama de valente, há quem se lembre de suas provocações e rixas com o “rei” Pelé, dentro e fora dos gramados; e de conquistador, dançando e flertando o mulherio nos bailes dos clubes.
Seu jeito de ser talvez explique a zica entre ele e o jornalista Hindu, também apimentada por futricas. O que resultou na promessa feita por Fontana de “partir a cara” do Hindu, que passou a evitar circular pelo Britz.
Porém, certa noite, cansado de se esquivar, Hindu ocupou uma das mesas de ferro postas na calçada da entrada do Britz, e ficou ali tomando cerveja ao lado de dois conhecidos, um deles o robusto médico Marcos Brandão.
A certa altura, por volta meia-noite, aparece Fontana, que logo fareja o desafeto e parte célere em sua direção. Já no clima de mesa levantada como barricada e garrafas quebradas feito espetos, o intrépido zagueiro foi contido a custo.
Fontana estava acompanhado de Humberto Musso, e essa foi a sorte de Hindu – os dois eram antigos amigos.
Repelido por Brandão e arrastado por Musso, Fontana saiu dali prometendo um dia levar a termo sua ameaça ao assustado Hindu, que praguejou baixinho.
Pouco tempo depois, no dia 9 de setembro de 1980, jogando futebol soçaite em Manguinhos, Fontana sofreu um infarto fulminante, tinha apenas 39 anos.
Prosseguiram eternas as noites do Britz.
Trevisan
Um mergulho nas crônicas de Luiz Trevisan | Novo livro: A Onda Que Invade a Ilha
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