13 de Maio
Sem terra, escola, trabalho digno ou reparação, negros libertos foram abandonados enquanto o Brasil incentivava a imigração europeia para substituir a mão de obra nas lavouras
DON OLEARI PESQUISA

ESPECIAL SUPOSTA ABOLIÇÃO DA ESCRAVATURA
RODRIGO MELO REGO
O Brasil aboliu a escravidão, porém nunca realizou plenamente a abolição social
Lei Áurea libertou juridicamente milhões de brasileiros, mas o país jamais construiu um projeto amplo de inclusão social para a população negra após 1888

A história oficial costuma resumir o 13 de maio de 1888 a uma cena elegante: a princesa assinando a Lei Áurea, escravizados comemorando, o país entrando enfim na modernidade. Mas a realidade brasileira foi muito mais dura – e muito mais cruel.
E meus antepassados passaram a viver uma história irreal, fantasiosa, desenhada pelos seguidores da Princesa boazinha, que assinou um papel Real falso, de uma falsa liberdade sem base social nem vislumbre de qualquer futuro (Rodrigo Melo Rego).
A escravidão acabou no papel. O abandono começou logo em seguida.
A chamada abolição da escravatura não veio acompanhada de reforma agrária, indenização, acesso à escola, política de trabalho ou qualquer mecanismo de integração social para os quase 700 mil negros libertos naquele momento. O Brasil rompeu juridicamente com a escravidão, mas preservou praticamente intacta a estrutura econômica e social construída durante mais de três séculos de exploração humana.
O 13 de maio libertou corpos. A cidadania ficou para depois.
A Lei Áurea: dois artigos e um silêncio histórico

A Lei Áurea tinha apenas dois artigos. Um declarava extinta a escravidão no Brasil. O outro revogava disposições contrárias.
Nada além disso.
Não havia previsão de terra para ex-escravizados. Nenhum plano de emprego. Nenhuma compensação financeira. Nenhuma política de alfabetização. Nenhuma preparação econômica para milhões de pessoas que haviam sustentado a riqueza do país durante séculos.
A liberdade veio sem futuro
A elite agrária aceitava o fim da escravidão porque o sistema já começava a se tornar economicamente desgastado e internacionalmente malvisto. Mas isso não significava aceitar igualdade social.
O país aboliu a escravidão sem abolir a mentalidade escravocrata.
Libertos para quê?
Terminada a escravidão, milhares de negros foram simplesmente expulsos das fazendas ou abandonados à própria sorte.

Muitos passaram a viver em cortiços, periferias urbanas ou ocupações improvisadas.
Outros continuaram nas propriedades rurais em relações precárias, quase sempre recebendo salários miseráveis.
O Estado brasileiro virou as costas para aquela população
Enquanto isso, surgia uma nova narrativa nacional: a ideia de que o país precisava “modernizar” sua mão de obra e “embranquecer” a população com a chegada de imigrantes europeus.
A política imigratória brasileira do final do século XIX carregava não apenas interesses econômicos, mas também forte componente racial e ideológico.
O Brasil chama os italianos
Milhares de italianos desembarcaram no Brasil atraídos pela promessa de prosperidade nas lavouras de café.
Fugiam da pobreza, da fome e das crises na Europa. Recebiam panfletos e relatos que descreviam um país de oportunidades.
Muitos encontraram outra realidade
Nas fazendas paulistas, vários imigrantes foram submetidos a sistemas de parceria e endividamento que os prendiam aos proprietários rurais.


Muitos historiadores apontam que parte da elite agrária brasileira apenas substituiu um modelo brutal de exploração por outro mais “aceitável” aos olhos do mundo moderno.
As zelites agrárias na verdade substituiram a “escravidão dos negros” pela “ecravidão dos brancos” – os italianos enganados pela propaganda enganosa da época.
Mudou a mão de obra. A lógica permaneceu.
O tronco invisível
A diferença central entre negros libertos e imigrantes europeus estava no horizonte social oferecido a cada grupo.
Os italianos, apesar das dificuldades, ainda conseguiam – em alguns casos – acesso à terra, mobilidade econômica e inserção gradual na sociedade brasileira. Seus descendentes acabaram absorvidos pelo projeto nacional.
Já a população negra permaneceu largamente excluída
O pós-abolição criou uma espécie de apartheid social informal no Brasil. Sem oportunidades, muitos negros foram empurrados para os trabalhos mais precários, para a marginalização econômica e para a invisibilidade política.
As marcas disso atravessam gerações.
A novela, a memória e as contradições brasileiras
Autores como Benedito Ruy Barbosa ajudaram a popularizar essas contradições históricas em obras como Terra Nostra e Sinhá Moça.
Ao retratar fazendas de café, imigração italiana, violência social e heranças escravocratas, essas novelas mostraram que o Brasil rural carregava conflitos muito mais profundos do que os romances de época sugeriam.
Por trás dos figurinos elegantes e das grandes propriedades havia exploração, racismo, concentração de terra e poder político.
E havia também uma pergunta silenciosa que atravessa mais de um século:
O que aconteceu com os “libertos” em 1888? Uma abolição inacabada
O Brasil foi o último país das Américas a abolir oficialmente a escravidão. E talvez tenha sido um dos que menos prepararam o dia seguinte.

A exclusão da população negra do acesso à terra, à educação e às oportunidades econômicas ajudou a construir parte das desigualdades que o país ainda enfrenta hoje.
Por isso, o 13 de maio continua sendo uma data de debate e não de celebração.
Há quem veja ali um gesto humanitário decisivo. Outros enxergam uma liberdade incompleta, sem reparação e sem justiça social.
Talvez as duas coisas convivam.
Mas uma conclusão parece inevitável:
o Brasil aboliu a escravidão, porém nunca realizou plenamente a abolição social.
13 de Maio
Rodrigo Melo Rego é jornalista, pos-graduado em Estudos Literários e História, pesquisador de literatura erótica.
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Respostas de 2
[20:26, 14/05/2026] Alvaro Silva: “A Lei Áurea foi uma inevitabilidade porque o Brasil era pressionado de todas formas para acabar com a escravidão. Mesmo assim, houve reação por parte dos setores agrícolas que diziam serem inevitáveis as falências no campo. Ontem como hoje…”
Como neta e bisneta de italianos (Pessotti, Rossi, Bortolini e Dughera) do Veneto e Piemonte, que chegaram ao ES e SP em setembro de 1977, doze anos antes da Lei Áurea, procurei ler o mínimo sobre o assunto- a trilogia Escravidão 1, 2 e 3, de Laurentino Gomes. Mas, entre meus amigos descendentes de africanos – os afro- descendentes, desconheço os que debruçaram nessa literatura para compreender melhor o atraso do Brasil no século XIX. Nem meus parentes casados com afro- descendentes se interessam pelo assunto. Há vários lados do século XIX que, no século XXI, precisam de narrativas mais convincentes, próximas das referências bibliográficas da trilogia de Laurentino Gomes.