Rubens Pontes | Frauta agreste, o poema: Maria Antonieta Tatagiba | 14/5

Frauta agreste

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Coluna AQUI RUBENS PONTES – Meu poema de sábado

Letícia Nasser, conhecido e respeitado nome na vida literária do Espírito Santo, narra a saga das poetas capixabas que com sua bravura pioneira romperam os grilhões a elas impostos por críticos e historiadores  e se projetaram no cenário do pensamento criativo dos diversos segmentos da produção literária.

Durante décadas, historiadores, brasileiros ou não, publicavam suas antologias sem sequer mencionar uma escritora, ressaltou Letícia Nasser em seu depoimento. Mas novas pesquisas estão preenchendo essa lacuna, acrescentou.

”No Espírito Santo, as pesquisas revelaram a existência de muitas escritoras capixabas do século XIX que não só acompanhavam a literatura produzida por homens como também por suas ousadas contemporâneas. Estas últimas publicavam, principalmente, nos jornais.”

No estudo em que o Portal Don Oleari teve aceso, o presidente da Academia Espírito-Santense de Letras, escritor e professor aposentado da Ufes, Francisco Aurelio Ribeiro, tem sido um  dos principais pesquisadores da literatura feminina capixaba.

francisco aurélio ribeiro

Com mais de 20 anos de trabalho dedicado a trazer à tona os nomes e as produções literárias dessas mulheres, Francisco Aurélio permitiu que o universo feminino desde o século XIX até meados do século XX fosse explorado por diferentes campos de pesquisa.

“Pesquisar as escritoras capixabas é desvelar um passado de discriminação contra a mulher que escrevia”, afirmou.

No mesmo texto de Leticia Nassar, é registrado o fato ter o  pesquisador explicado que as mulheres do século XIX não podiam publicar seus versos, para não se tornarem públicas.

“Assim muita produção feminina ficou retida entre quatro paredes, mas nem todas as mulheres aceitavam essa condição e foram audaciosas para o seu tempo. Porém, o pesquisador diz que as antologias literárias foram impiedosas com essas escritoras…

Francisco Aurelio Ribeiro cita como exemplo o livro “História da Literatura Espírito-Santense”, de Afonso Claudio, publicado em 1912, como uma das obras que não menciona escritoras capixabas do século XIX.

“Pesquisas comprovam que a primeira escritora capixaba a ter seus poemas publicados foi Adelina Tecla Correia Lírio. Ao todo foram encontradas 13 poesias em dois jornais capixabas de grande circulação nos anos de 1879 a 1883. Inclusive no jornal que tinha Afonso Cláudio como um dos seus colaboradores.”

Durante o século XIX, havia também outras escritoras capixabas que estavam em constante diálogo com autoras nacionais e internacionais. Porém nenhuma delas consta no livro de Afonso Claudio”, acentuou o professor Francisco Aurélio Ribeiro.

Essa ausência se perpetuou no livro “Poetas Capichabas”, uma antologia publicada em 1938, destacando 58 escritores.

No volume, porém, só uma mulher é citada, Maria Antonieta Tatagiba, a principal poetisa capixaba dos anos 1930 e a primeira a publicar um livro de poesias em 1927”.

Escrever era uma atividade proibida para as mulheres. Como escreveu Francisco Aurelio em seu livro “A literatura do Espírito Santo: uma marginalidade periférica”, “elas deveriam recitar poemas escritos por homens”.

O autor até destaca que havia uma quintilha popular, da época, para destacar o preconceito contra a mulher:

“Estude a geografia,

leia alguma boa história,

mas não se atire à poesia.

Porque mulher que se faz poeta

põe o marido pateta.”

“Ainda bem que muitas delas ousaram e publicaram ou criaram clubes literários”, acrescentou.

O excelente trabalho de Leticia Nasser aborda com visão crítica a problemática, otimizando o sensível tema, mostrando que a participação feminina nesse  campo da atividade intelectual não estava restrita à capital Vitória, mas acontecia também em São José dos Calçados, Cachoeiro de Itapemirim e São Pedro de Itabapoana (Mimoso do Sul).

E foi nesse município que nasceu, em 1895 a primeira escritora do Espírito Santo, Maria Antonieta de Siqueira Tatagiba.

“A cidade era próspera, tinha muitas atividades voltadas para as artes, cultura musical e literária e era engajada política e socialmente com as transformações sociais e ideais de liberdade e justiça. Foi nesse ambiente que Maria Antonieta S. Tatagiba viveu.”

Ela morreu muito nova, com 33 anos, de tuberculose, mas construiu uma literatura que incorpora o nome feminino a um universo antes restrito aos homens”, ressalta Francisco Aurelio Ribeiro.

O Portal Don Oleari e o colunista, atentos e abertos a esses levantamentos, manifestam sua admiração e reconhecimento pelo trabalho de Letícia Nasser e fecham espaço publicando um dos consagrados poemas de Maria Antonieta Tatagiba,  Frauta  Agreste.

Rubens Pontes

Capim Branco, MG

 

FRAUTA AGRESTE

Maria Antonieta Tatagiba

Este sítio risonho entre montes aberto

É a seara de Booz, onde a miséria humana

Não entristece o olhar que vê o céu de perto

, Lindo e azul qual preciosa e antiga porcelana,

Quando raia a manhã cheirosa, pura e fria

E áureo guerreiro, o sol do seu carro espadana

Setas de ouro e de luz por sobre a ramaria

, Sobre as casas se abrindo através dos pomares,

Num bulício de vida e de sã alegria…

Que ledo é o fumo azul que sobe destes lares

Para o alto a se juntar aos tufos da neblina

Nas serras, de onde vem, embalsamando os ares,

Um aroma de jasmim – a essência agreste e fina

Dos verdes laranjais se abrindo ao longe, em flor…

Canta a voz de cristal do sino na colina.

Lembrando ao já desperto e ativo lavrador

Que a terra fértil, boa, espera o grão nas leiras

Para o tornar em pão, regada de suor.

 

Há duetos de sabiás à tarde, nas balceiras

Para embalar o sol que atrás da serra expira

Golfando sangue sobre as cristas das pedreiras

. Rósea, a sempre-lustrosa os seus festões atira

Pelas sebes da estrada e a esmo pelos campos,

Onde passam cantando águas cor de safira…

São os dias aqui sempre azuis…

Pomos lampos Coroam na ramada o labor da charrua..

. São as noites de paz, cheias de pirilampos…

E como é sugestiva e poética esta lua Serrana

, quando mostra entre o crivo da mata,

Num desmaio de amor a face casta e nua…

Sobre a aldeia adormida – oh! Magia tão grata

À alma que sonha – entorna o seu clarão incerto

Aluminando o enlevo azul da serenata…

Aqui neste rincão de verduras coberto

Entre montes tafues que beijam o infinito

E onde se julga ver o claro céu de perto.

É que os dias eu passo em sossego bendito,

Tocando a minha frauta e ouvindo a singeleza

Do seu som se casar, das aves ao spartito,

No seio acolhedor da bela Natureza.

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Don Oleari - Editor Chefão

Don Oleari - Editor Chefão

Radialista, Jornalista, Publicitário.
Don Oleari Corporeitcham