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Kleber Frizzera: Glória e vida | 19/10

Glória e vida

Glória e vida

E’ passado o tempo de exilio, do ódio e dos sofrimentos mais atrozes que enfrentamos. Se for do agrado dos deuses, é chegado o retorno à vida! Voguemos enfim em direção a ela… (Odisseia)

kleber-frizzera-foto-nova-assinatura-coluna-1-1-1-247x300-1-1-1.jpg 3 de julho de 2023
kleber frizzera

Ulisses, depois de 20 anos, dez na guerra de Troia e dez em viagens e aventuras, retorna à sua casa, a “uma vida de um povo em harmonia”, não é reconhecido pela sua esposa, Penélope.

Sua memória intacta, diante dos muitos encantos e armadilhas, de tentações sexuais e confortos materiais, opta pelo retorno às suas origens, aceita a condição humana da mortalidade, é chamado a confirmar a sua identidade.

Assim, confirma a Penélope que a cama partilhada pelo casal foi escavada por ele em um tronco de uma figueira, mantidas suas raízes no solo assentada profundamente na terra mãe.

Aquiles, na sua cólera, não pretende voltar à casa da mãe, a deusa Tetis, mas se propõem a morrer em combate, superar o efêmero e ser lembrado em uma glória eterna. A poesia, a epopeia contada ou escrita, por séculos, manterá vivas as suas proezas desmedidas, e as suas lutas e coragem irão sobreviver, lembradas e admiradas no futuro.

Esta oposição, entre a vida sedentária, com amigos e família, no lugar sagrado, na natureza ancestral alterada pelo artifício humano, e a vida consumida ao máximo, na juventude, nos prazeres e entretenimentos, guerras e competições, parece se reproduzir, no mundo contemporâneo.

Os nômades atuais, desenraizados, já não pretendem retornar à vida banal, doméstica, comum, movem-se em contínuos deslocamentos de corpos e espíritos, arriscando experiências aceleradas, no tempo e no espaço global. Os assentados buscam refazer identidades históricas que suportem inúmeras perdas e sofrimentos, implantem lembranças inventadas, retenham felizes situações, rememorem eventos capazes de cuidar de suas paixões tristes.

Na ausência de um gosto universal, de pautas que promovam esforços comuns, os viajantes contentam-se em visitar múltiplos lugares, de imprecisos e genéricos sentidos, julgados opostos aos mundos locais, instalados em cidades e condomínios, onde dívidas impagáveis sustentam apagados sonhos.

Os atuais Ulisses, desencantados, desmemoriados, imaginam imortalidades apaixonadas em brilhantes hotéis e aeroportos e os jovens Aquiles, derrotados, guardam escudos e armaduras, escravizam suas glórias e desejos a empreendimentos comerciais e casas próprias.

Sem mais heróis, nos corredores do supermercado, fantasmas e zumbis circulam carrinhos de compras, simulando suas presenças incômodas entre corpos de jovens e desalinhadas idosas, aguardam seus momentos de júbilo e retorno.

Como identificá-los, iguais a tantos outros, normais pessoas, a escolher frutas e legumes, acumulando alimentos, objetos de sobrevivência de gosto saudável. Orgânicos, naturais, veganos?

Cuidadosos, cuidamos em lhes enviar olhares de esguelha, tentando observar algum gesto ou movimento inusitado que denuncie as suas condições e riscos e preveja futuras batalhas.

Venceremos?

Fantasmas são pacíficos, de outros tempos, apenas querem reter um pouco mais do mundo mortal, emitem despedidas, melancolias e angústias. Em pouco tempo, se desmancham sem mais restos ou ruínas no chão, sem mais sobras ou lembranças.

Zumbis são insatisfeitos, esperam em armadilha, tecem uma trama de vinganças, e, quando esquecidos, afiam facas e unhas, escolhem nas frias prateleiras, corpos mortos, carnes, frangos, sangues e gorduras escorrendo de bandejas.

No mundo comum da solidão e do consumo, sem mais glória, sem mais memórias e vitórias, ulisses e aquiles, zumbis e fantasmas, são embalados, no final, após o caixa, em sacolas de plástico e se refugiam nos porta-malas dos carros.

Kleber Frizzera

Outubro 2023

Kleber Frizzera | Graduado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Minas Gerais (1971) e mestrado em Arquitetura pela Ufes (Universidade Federal do ES – 1998). Foi secretário municipal de Desenvolvimento da Prefeitura de Vitória/ES (2006/2012) e professor adjunto da Universidade Federal do Espírito Santo ( 1978/2015) – https://www.ufes.br/. Tem experiência na área de Arquitetura e Urbanismo, com ênfase em Fundamentos de Arquitetura e Urbanismo, atuando principalmente em projetos de arquitetura, arquitetura teoria e crítica, arquitetura áreas centrais, planejamento territorial e renovação urbana.

Glória e vida

Edição, Don Oleari – [email protected]

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Don Oleari - Editor Chefão

Radialista, Jornalista, Publicitário.
Don Oleari Corporeitcham

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