
Lideranças quilombolas denunciam exclusão de descendentes de Atalino Leite no reconhecimento da comunidade de Povoação, perto da Foz do Rio Doce, em Linhares, norte do Espírito Santo.
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ESPECIAL DIVERSIDADE | DESCENDENTES DE ATALINO LEITE

EDILSON LUCAS DO AMARAL
Linhares (ES) – Um encontro realizado na comunidade tradicional de Povoação, distrito do município de Linhares, reuniu lideranças quilombolas descendentes de Atalino Leite para discutir a exclusão de parte da população do processo de reconhecimento oficial da comunidade como remanescente de quilombo.
Segundo os participantes, cerca de 70% dos verdadeiros descendentes foram deixados de fora, em razão de conflitos internos e ações de uma liderança que, segundo eles, não representa os troncos familiares históricos do território.

“Fomos enganados pela atual liderança, que deixou várias famílias de fora por motivos pessoais. Por isso, nós, remanescentes do Quilombo de Atalino Leite, criamos uma nova representação, onde 100% são de fato descendentes do nosso ancestral”, afirma Rosenilda.
A comunidade de Povoação Rio Doce está localizada no distrito de mesmo nome, às margens do Rio Doce, cerca de 10 km da foz e a 1 km do Oceano Atlântico.
De acordo com o Censo de 2010 do IBGE, a vila contava com aproximadamente 1.300 habitantes. Os moradores afirmam que muitos deles descendem diretamente dos quilombolas do Degredo, especialmente da linhagem de Atalino Leite.
Reivindicações e denúncias
Durante o encontro, foram apresentados documentos do chamado “Anexo 3”, que detalham direitos das comunidades tradicionais.
Segundo Rosenilda, a liderança anterior ocultou informações cruciais, impedindo o acesso de parte da população aos seus direitos.
“Nós levamos essas informações para garantir que quem ficou de fora por manipulação possa ser reconhecido. Esses direitos estão sendo violados”, destaca Rosenilda.
Ela acrescenta qu
e a comunidade se identifica como quilombola por fatores históricos, sociais e culturais.
A reivindicação pelo reconhecimento é recente: começou em agosto de 2024, quando a Fundação Cultural Palmares certificou parte da comunidade.
Desde então, os remanescentes que ficaram de fora têm exigido a inclusão oficial.
Entre as principais demandas estão:
• Justiça histórica e reparação;
• Acesso a políticas públicas específicas (educação, saúde, moradia e regularização fundiária);
• Valorização da identidade quilombola;
• Participação nas decisões de compensações ambientais e projetos governamentais.
Desafios e exclusão
A ausência de reconhecimento oficial impede o acesso diferenciado a políticas públicas.
“Sem esse reconhecimento, somos tratados como população rural comum, o que apaga nossa história e nega nossos direitos garantidos pela Constituição Federal e convenções internacionais, como a 169 da OIT”, explica Rosenilda Monteiro Amaral.
Encaminhamentos e próximos passos
O principal encaminhamento do encontro foi a escolha de uma nova liderança formada apenas por remanescentes da linhagem de Atalino Leite.
Também ficou definido que provas documentais, fotos, atas e vídeos do encontro serão encaminhados ao Ministério Público Federal, por meio da promotora Dra. Gabriela Góes, que acompanha casos de comunidades tradicionais.
“A nossa expectativa é que todos os descendentes de Atalino Leite tenham seus direitos reconhecidos e que isso chegue à Fundação Cultural Palmares”, disse Rosenilda.
Não houve participação de representantes da Prefeitura de Linhares, do governo estadual ou de órgãos federais durante o encontro, segundo os organizadores.
Clima e emoção no encontro
Apesar da ausência de autoridades, o clima da reunião foi de escuta ativa e união.
“O que mais me marcou foi ver toda a família reunida, contando a história do verdadeiro quilombola Atalino Leite. Descobrimos que quase 80% estavam de fora do reconhecimento oficial. A suposta liderança atual sequer faz parte dos remanescentes”, desabafa Rosenilda.
“E o deputado Gandini?”, perguntei.
Questionada sobre a presença do deputado estadual Fabricio Gandini, Rosenilda informou que ele não participou da reunião, mas que há intenção de procurá-lo futuramente para pedir apoio à causa.
Reportagem: Edilson Lucas do Amaral
Fonte: Rosenilda Monteiro Amaral – Representante dos descendentes remanescentes do Quilombo Atalino Leite
Lideranças quilombolas denunciam exclusão
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