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Na favela ou no engenho talento não escolhe leito | Cacá Diegues e Conceição Evaristo, opostos confluentes | 11/11

Na favela

Na favela

A Academia Brasileira de letras foi criada por escritores machos e seu estatuto era escancaradamente machista. Seu regimento não deixava dúvidas: o ingresso era para “brasileiros, do sexo masculino”.

COLUNA AQUI RUBENS PONTES

MEUS POEMAS DE SÁBADO

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rubens pontes, jornalista

 

A Coluna confessa sua perplexidade (o que se deve certamente ao seu incorreto conhecimento do que leva ao fato e ao feito) diante dos critérios de escolha de alguns nomes como membros da ABL – Academia Brasileira de Letras.

A ABL foi fundada e sediada no Rio de Janeiro no dia 20 de julho de 1897 pelos escritores Machado de Assis, Lúcio Mendonça, Inglês de Souza, Olavo Bilac, Afonso Celso, Graça Aranha, Medeiros e Albuquerque, Joaquim Nabuco, Teixeira de Melo, Visconde de Taunay e Ruy Barbosa.

Desde seu começo, determinava como objetivo estatutário, “o cultivo da língua portuguesa e da literatura brasileira”.

Tradicionalmente masculina, a esmagadora maioria dos “imortais” sempre foi formada por homens.

Há 45 anos, a Academia Brasileira de Letras escolhia a primeira mulher a ocupar uma cadeira na instituição. Rachel de Queiroz não fez um discurso sobre a conquista para o movimento feminista, mas a sua presença foi um símbolo do questionamento da ausência desse público durante quase oito décadas de existência.

Até 1951, o Estatuto da ABL tinha como definição para candidaturas uma explicação já determinada desde a sua inauguração:

 “Brasileiros que tenham, em qualquer dos gêneros de literatura, publicado obras de reconhecido mérito ou, fora desses gêneros, livro de valor literário”.

Quando em 1930 a primeira mulher enviou sua proposta de candidata, Amélia Bevilacqua, a Academia afirmou que a palavra “brasileiros” era uma referência apenas ao sexo masculino. Em 1950, o Regimento Interno deixou ainda mais explícita a sua colocação ao acrescentar “brasileiros do sexo masculino”.

A escritora Dinah Silveira Queiroz foi a segunda mulher a tentar entrar para o círculo, mas foi rejeitada.

Três mulheres de 1980 a 1989

Apenas em 1977, a Academia Brasileira de Letras aceitou mudar as regras para aceitar mulheres e imortalizar Rachel de Queiroz, acolhida em 1980.

Após a sua aceitação, outras autoras entraram para a instituição. Outra escritora a ser membro foi Lygia Fagundes Telles, em 1985.

Nélida Piñon foi a terceira, em 1989

Em seguida, Zélia Gattai, em 2001, Ana Maria Machado, em 2003, Cleonice Berardinelli, em 2009, e Rosiska Darcy, em 2013.

A candidatura mais recente foi a de Fernanda Montenegro, atriz, a grande dama do teatro e da televisão.

O decano dos “imortais” é o ex-presidente José Sarney, escolhido em julho de 1980. O mais recente foi Ailton Krenak, eleito em outubro deste ano, o primeiro indígena a alcançar o pódio da ABL

Junho de 2018

O que motivou Don Oleari Portal de Notícias a inspirar o levantamento pelo Colunista é a insuspeitada colocação entre dois nomes navegando em polos distintos, disputando uma mesma cadeira na ABL, uma escolha programada e realizada no dia 30 de agosto de 2018.

Cacá Diegues e Conceição Evaristo, dois mundos opostos desde a origem

Cacá Diegues

Filho do antropólogo Manuel Diegues Júnior e de rica proprietária de engenhos no Nordeste brasileiro, Carlos José Fontes Diegues – Cacá Diegues – nasceu em Maceió e se mudou com a família para o Rio de Janeiro aos 6 anos de idade, fixando residência no bairro de Botafogo.

Estudou no Colégio Santo Inácio, dirigido por jesuítas, e se formou em Direito pela PUC.

Ainda estudante, dirigiu o jornal Metropolitano, órgão oficial da União Metropolitana de Estudantes, que se tornaria, no final da década de 50, um dos núcleos de fundação do Cinema Novo.

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José Lewgoy – sentado – Wilson Grey e  Hugo Carvana, em “Quando o Carnaval Chegar”

A partir de 1962, Cacá Diegues produziu vários filmes de longa metragem, entre eles Ganga Zumba, A Grande Cidade, Os Herdeiros.

Com a promulgação do AI-5 pelo governo militar, deixou o País e foi para a Itália e depois para a França. Já era então casado com a cantora Nara Leão.

Retornando ao Brasil, produziu dois filmes, Quando o Carnaval Chegar (1972) e Joanna Francesa (1973).

Ao longo de sua carreira como cineasta, a maioria dos seus filmes foi selecionada por grandes festivais internacionais em Cannes, Veneza, Berlim, Nova York e Toronto,

Cacá Diegues é Oficial da Ordem das Artes e das Letras da França e portador do título de Comendador da Ordem de Mérito Cultural e da Medalha da Ordem de Rio Branco, a mais alta do País.

Recebeu premiações em vinte e um dos seus trabalhos no cinema.

Na favela: Conceição Evaristo

O outro personagem que se impõe na Coluna é Conceição Evaristo, Maria da Conceição Evaristo de Brito, filha da favelada sem profissão Joana Josefina Evaristo e de pai que não conheceu.

De ascendência angolana, beninense, nigeriana, ugandense, sul africana, nasceu e viveu sua infância na favela do Pindura Saia, localizada na zona sul de Belo Horizonte/MG (já extinta), uma de 9 irmãos de uma família muito pobre.

Adolescente, aprendeu a ler sem professora e desceu da favela para se empregar como doméstica em residência da Capital, Belo Horizonte.

Conseguiu se matricular em escola normal, terminando o curso quando completou 25 anos de idade.

Aprovada em concurso público para magistério, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde permaneceu até 2006.

Insaciável na busca do saber, prestou vestibular para o curso de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi, no período, contemplada

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com uma bolsa de estudos. Formou-se em 1990.

Nessa época, entrou em contato com o grupo Quilombhoje  – https://www.quilombhoje.com.br/site/ – fundado em São Paulo em 1980, que estimulou Conceição a escrever. Estreou na literatura em 1990 com obras publicadas na série Cadernos Negros, uma antologia anual do o grupo Quilombhoje.

Entre os anos de 1992 e 1996, Conceição Evaristo cursou mestrado em Letras-Literatura na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

Em 2008, fez doutorado em Letras-Literatura comparada, na Universidade Federal Fluminense.

Após seu doutorado,  Conceição Evaristo foi professora na Middlebury College, depois na PUC Rio, na UNEB – Universidade do Estado da Bahia – na Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões e na UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais.

Eescreveu romances e livros de poemas paralelamente, abordando temas como a discriminação racial, de gênero e de classe.

 capa-conceicao-evaristo.jpg 11 de novembro de 2023 41 KBSeu primeiro livro, Ponciá Vivêncio, foi foco de pesquisa acadêmica no Brasil, traduzido para o inglês e publicado nos Estados Unidos, em 2007.

Foi a grande homenageada da Bienal do Livro de Contagem/MG, laureada com troféu do Prêmio Juca Pato de Intelectual do Ano de 2023 por sua contribuição á literatura brasileira e lançamento do seu livro Canção para Ninar Menino Grande, instigante e corajoso depoimento literário sobre a presença e relacionamento dos negros nas comunidades onde vivem.   

 Epílogo – ABL: Cacá Diegues | Conceição Evaristo

caca-diegues.jpg11 de novembro de 2023 22 KB
cacá diegues

A ABL – Academia Brasileira de Letras pautara para o dia 30 de agosto de 2018 a eleição para preencher a Cadeira número 7, que já fora ocupada no passado por Euclides da Cunha.

Dois eram os postulantes, o cineasta Cacá Diegues e a escritora Conceição Evaristo.

O eleito foi Cacá Diegues, com praticamente a totalidade dos votos.

Conceição Evaristo obteve um único voto. Ao se candidatar, ela disse:

“É mais do que justa a presença de mulheres e de mulheres negras na ABL”.

Don Oleari Portal de Notícias, o Colunista e os companheiros de redação fecham-se em silêncio para ouvir a leitura pela companheira primeira dama Lena Mara do sensível poema de Conceição Evaristo, em seguida publicado ao final deste texto: Vozes.

Rubens Pontes, jornalista

Capim Branco, MG

Revisão: Márcia M.D Barbosa

Vozes-mulheres

Conceição Evaristo

A voz de minha bisavó

ecoou criança

nos porões do navio.

Ecoou lamentos

de uma infância perdida.

A voz de minha avó

ecoou obediência

aos brancos-donos de tudo.

A voz de minha mãe

ecoou baixinho revolta

no fundo das cozinhas alheias

debaixo das trouxas

roupagens sujas dos brancos

pelo caminho empoeirado

rumo à favela.

A minha voz ainda

ecoa versos perplexos

com rimas de sangue

e fome.

A voz de minha filha

recolhe todas as nossas vozes

recolhe em si

as vozes mudas caladas

engasgadas nas gargantas.

A voz de minha filha

recolhe em si

a fala e o ato.

O ontem – o hoje – o agora.

Na voz de minha filha

se fará ouvir a ressonância

o eco da vida-liberdade.

Na favela

Edição, Don Oleari – [email protected]

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Radialista, Jornalista, Publicitário.
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