Tião Salgado
O mundo tem uma dívida imensa com você, Salgado!

ESPECIAL SALVADORES DO PLANETA
RENATO VIANA SOARES (***)
Convivi com Sebastião Salgado desde a militância de esquerda estudantil, em Vitória. Depois nos topamos ainda em São Paulo, eu jornalista profissional, ele na pós graduação, até o reencontro em Paris, já no exílio.
Ele foi sempre um democrata, com enorme sensibilidade humana. Fiz a primeira entrevista com ele no Brasil, depois da anistia, uma página da capa do caderno 2 de a Gazeta, em Vitória.
Lembro q a entrevista já havia começado, e Salgado desenvolvia a tese de que você não fotografa com a câmera, mas com sua cultura e visão de mundo.
O fotógrafo precisava conhecer dialética, estudar o fenômeno ou a pessoa que ia registrar. Foi quando chegou o fotógrafo da Gazeta e perguntou: Renato, o cara é esse?
Disparou umas três ou quatro vezes e se desculpou:
“Tou indo, tenho mais duas pautas”. E saiu.
Salgado deu uma gargalhada.
“Minha teoria acaba de ser derrotada. Ele nem me conhece. Como vai me apresentar na sua foto?
A reportagem foi publicada. Mandei um exemplar pra ele. Pelo telefone me disse:
“Essa entrevista foi muito importante, mas tenho que reformular minha teoria, abrindo exceção para os fotógrafos de jornalismo. O fotógrafo conseguiu captar minha imagem”.
Depois ainda nos reencontramos várias vezes, inclusive em campanhas políticas, no Brasil e no Espírito Santo. Ele sempre ao lado das forças progressistas.

“Ajuda ele, que ainda não sabe muito de Brasil”.
Tempos depois eu, assessor político do Ministério da Ciência e Tecnologia, levei Salgado para que apresentasse ao ministro seu grande projeto Gênesis – ele iria fotografar o mundo intocado pelo homem.
Ainda nos correspondemos algum tempo e ouvi seu entusiasmo pelas obras do Instituto Terra, dele e da Lelia. Mas ele me alertou sobre os malandros que usavam seu nome nas redes sociais.
A última vez que encontrei seu rastro foi aqui, em Maceió. Li num jornal que seria inaugurada uma exposição do Salgado.
Confesso que fiquei frustrado. Por que ela não me avisara? Mesmo assim, no dia e hora estava no local.
Olhava suas fotos e ouvia as expressões de admiração das pessoas. Até que chegou a titular da Secretaria de Cultura, que patrocinava o a mostra.
Não sei porque, mas ela olhou em torno e me chamou. A chefe do cerimonial logo organizou as posições e ela disse para a câmara da TV oficial:
“Estamos muito felizes de receber em Alagoas as fotos e o fotógrafo tão famoso no mundo”.
E apontou pra mim. Ela esqueceu de perguntar: o cara é este? como fez nosso antigo fotógrafo. Tive que que provocar o constrangimento geral:
“Secretária, sou muito amigo do Sebastião Salgado, mas sou o Renato”.
Só aí chegou a assessora apressada para informar que não estava prevista a presença do Salgado.
Assim, amigo, fica a saudade. E a ferramenta viva de sua obra de humanização. Essa vai continuar, mesmo quando, nos lugares mais distantes, alguém ainda tenha que perguntar: Quem foi esse fotógrafo?
E desculpa essa lágrima que caiu.
O mundo tem uma dívida imensa com Você.
Renato Viana Soares é jornalista, escritor, professor, profissional de Marketing
Tião Salgado
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