
Um bonde sem trilhos, um futuro sustentável

ESPECIAL ENTREVISTA | MOBILIDADE SEM TRILHOS
DON OLEARI
Inspirado em Curitiba e Istambul, O ex-prefeito Luiz Paulo Vellozo Lucas propõe nesta entrevista a adoção de um “bonde sem trilhos”.
E propõe também uma reestruturação do Plano Diretor e revitalização urbana com financiamento inovador.
Luiz Paulo aborda o BUD, um bonde digital urbano produzido na China, mais barato que o VLT – Vecículo Leve sobre Trilhos – e do que o velho metrô.
Entrevista exclusiva com Luiz Paulo Vellozo Lucas: Um bonde para Vitória

Luiz Paulo: Sim, trata-se de uma inovação trazida da China, o Bonde Urbano Digital, ou BUD. Desde 2018, a fábrica CRRC Nanjing Puchen Co. vem produzindo esse bonde que dispensa trilhos e fiações elétricas. Ele funciona com sensores, comunicação terrestre e direção autônoma. É uma solução moderna, mais barata e mais rápida de implantar do que sistemas tradicionais como o VLT ou o metrô.
Don Oleari: E esse bonde já está sendo implementado no Brasil?
Luiz Paulo: Está sim. O governo do Paraná, por meio da Agência Metropolitana de Curitiba, está implantando uma linha de 10 quilômetros que ligará Piraquara a São José dos Pinhais. O governador Ratinho Junior apresentou o projeto recentemente, destacando o pioneirismo da cidade em soluções urbanas desde os tempos do ex-prefeito Jaime Lerner.
Don Oleari: O senhor acredita que esse modelo pode ser aplicado aqui em Vitória?
Luiz Paulo: Sem dúvida. Acredito que o BUD se encaixa como uma luva em Vitória. Minha proposta é estudarmos a implantação de duas linhas no entorno da Ilha. Uma linha poderia seguir pela orla da baía, desde a Praça dos Namorados até o Mercado da Vila Rubim. A outra linha seguiria pela costa oeste, da Rodoviária passando por Santo Antônio e São Pedro até o Canal de Camburi.
Don Oleari: Alguma cidade internacional inspira essa proposta?
Luiz Paulo: Sim, a cidade de Istambul, na Turquia, implantou um VLT pela orla que serve de ótima inspiração. É uma prova de que projetos como esse podem requalificar áreas e melhorar muito a mobilidade urbana.
Don Oleari: Houve uma época em que se falava bastante sobre implantar o BRT na Grande Vitória. Por que esse projeto não avançou?
Luiz Paulo: O BRT chegou a nos empolgar, inspirado também em Curitiba, como forma de modernizar o sistema Transcol. No entanto, percebemos que a construção de corredores dentro da Ilha dividiria a cidade e consolidaria vias de trânsito de passagem, o que acabou nos desestimulando. O BUD, por outro lado, é mais leve, flexível e adequado para o transporte interno na Ilha.
Don Oleari: O senhor mencionou mudanças mais amplas no planejamento urbano da cidade. Pode detalhar?
Luiz Paulo: A proposta do arquiteto Carlos Eduardo Calmon de alterar o Plano Diretor Urbano (PDU), com apoio da ADEMI e do SINDUSCON, para permitir edifícios acima de 150 metros é interessante. Mas antes disso, precisamos de um “masterplan” para o centro histórico e para a costa oeste. A requalificação de áreas como o centro velho da capital e a de São Pedro depende de investimentos pesados em infraestrutura e mobilidade.
Don Oleari: Como viabilizar esses investimentos?
Luiz Paulo: Uma forma eficiente é através das Operações Urbanas Consorciadas, financiadas com CEPACs – Certificados de Potencial Adicional de Construção. Esses títulos são vendidos no mercado de capitais para financiar obras públicas. No Rio de Janeiro, por exemplo, CEPACs foram usados para construir túneis e linhas de VLT na região portuária, que hoje passa por uma verdadeira transformação.
Don Oleari: A revisão do PDU é fundamental nesse processo?
Luiz Paulo: Com certeza. O PDU precisa ser revisto para destravar os ativos que Vitória já possui – ambientais, paisagísticos, históricos e culturais. Um passo importante é construir galerias técnicas para ordenar o subsolo, retirando os postes e fiações aéreas. A restauração do casario histórico, junto com a construção de novos edifícios, vai impulsionar a reocupação habitacional e comercial do centro.
Don Oleari: E o que você vê como resultado desse tipo de política pública?
Luiz Paulo: Políticas urbanas inteligentes, que trabalhem em harmonia com as forças do mercado e da sociedade, vão alavancar o desenvolvimento sustentável e valorizar nosso território. Isso atrai visitantes, investimentos e melhora a qualidade de vida de quem vive aqui. O progresso de Vitória é a locomotiva do Espírito Santo – e quando Vitória avança, todos os espírito-santenses ganham.
Um bonde sem trilhos
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