Márcio Oliveira | A inovação que nasce da realidade da saúde brasileira

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A inovação que nasce da realidade da saúde brasileira

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MÁRCIO OLIVEIRA

A saúde brasileira convive há décadas com uma equação difícil: atender uma população de dimensão continental, ampliar o acesso e incorporar novas tecnologias em um ambiente de permanente pressão por recursos.

Os números ajudam a dimensionar esse desafio.

Segundo o Health at a Glance 2025, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil destinou 9,4% do Produto Interno Bruto à saúde em 2024, percentual ligeiramente superior à média de 9,3% dos países da organização.

Nos Estados Unidos, a participação chegou a 17,2%. No mesmo ano, o gasto médio com saúde nos países da OCDE foi estimado em quase US$ 6 mil por habitante, considerando diferenças de poder de compra.

Os indicadores mostram que a discussão sobre eficiência não se resume a quanto um país destina à saúde, mas também à capacidade de transformar recursos em assistência, produtividade e resultados.

Na prática, trabalhar nesse ambiente exige lidar permanentemente com restrições. Na minha trajetória entre análises clínicas, serviços médicos, hospitais e unidades de pronto atendimento, aprendi a resumir essa realidade de uma maneira simples: no Brasil, precisamos fazer muito com pouco.

Mas acredito que chegamos a uma nova etapa.

O desafio agora não é simplesmente continuar fazendo mais com menos. É transformar o conhecimento desenvolvido sob pressão em tecnologia, dados e novos modelos capazes de aumentar a eficiência sem comprometer a qualidade da assistência.

A operação pode ser uma fonte de inovação

Durante muito tempo, inovação em saúde esteve associada principalmente a novos medicamentos, equipamentos, procedimentos ou estruturas hospitalares.

 

Todos continuam fundamentais, mas existe outro campo de inovação que ganha importância à medida que os sistemas de saúde se tornam mais complexos: a própria operação.

Cada atendimento, exame, plantão ou procedimento produz informação. Tempo de espera, produtividade, utilização das equipes, recorrência de demandas, capacidade instalada e gargalos ajudam a revelar como o sistema realmente funciona.

Minha experiência profissional foi construída muito próxima dessa realidade. Comecei no ambiente laboratorial e, posteriormente, passei a atuar também na gestão de operações médicas e unidades de atendimento.

Quanto maior a escala, mais evidente se torna que muitos problemas não acontecem de maneira isolada. Eles se repetem.

Quando uma dificuldade aparece uma vez, pode ser uma exceção. Quando aparece centenas ou milhares de vezes, passa a representar um padrão.

E padrões podem ser identificados, analisados e utilizados para desenvolver soluções.

A experiência das operações que acompanho seguiu justamente esse caminho: uma estrutura inicialmente ligada ao diagnóstico e ao atendimento público evoluiu para uma rede integrada e, agora, a operação passa a servir de base para tecnologia e novos serviços.

Eficiência não significa simplesmente cortar custos

Existe uma diferença importante entre reduzir despesas e aumentar eficiência. Na saúde, cortar recursos indiscriminadamente pode melhorar um indicador financeiro no curto prazo, mas também aumentar filas, sobrecarregar profissionais ou comprometer a assistência.

Eficiência significa utilizar melhor aquilo que já está disponível.

É identificar desperdícios, reorganizar processos, reduzir retrabalho, distribuir equipes de maneira mais adequada e fazer a informação chegar às pessoas certas no momento em que uma decisão precisa ser tomada.

Na saúde, esse desafio ganha ainda mais importância porque aumentar o volume de recursos, isoladamente, não garante melhores resultados.

O Health at a Glance 2025, da OCDE, reforça a necessidade de melhorar o valor obtido a partir dos recursos destinados aos sistemas de saúde, combinando sustentabilidade financeira, produtividade e qualidade da assistência.

É justamente nesse espaço que tecnologia e inteligência operacional podem gerar ganhos importantes.

Dados precisam sair do relatório e entrar na decisão

O Brasil já produz uma quantidade enorme de informações em saúde. Em agosto de 2026, a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), plataforma oficial de interoperabilidade do Ministério da Saúde, já reunia mais de 5 bilhões de registros.

O número demonstra que o desafio deixou de ser apenas produzir dados.

Precisamos conseguir conectá-los, interpretá-los e transformá-los em decisões.

Em muitas operações, diferentes sistemas ainda registram atendimento, exames, produção médica, procedimentos, escalas e informações administrativas separadamente.

O resultado pode ser uma grande quantidade de dados sem uma visão integrada do que está acontecendo.

Esse problema também aparece na experiência que temos desenvolvido internamente.

A lógica é conectar informações produzidas pelas unidades a indicadores de eficiência, treinamento e governança, transformando fragmentação em visão operacional.

É nesse ponto que inteligência artificial e ferramentas analíticas podem exercer um papel relevante.

A IA consegue identificar padrões em grandes volumes de informação e auxiliar gestores a perceber tendências ou gargalos que seriam mais difíceis de visualizar manualmente.

Mas tecnologia não substitui conhecimento operacional.

Quanto mais sofisticada a ferramenta, mais importante se torna compreender o ambiente em que ela será utilizada.

Um software pode funcionar perfeitamente em uma demonstração e não resolver o problema real de uma unidade de saúde.

Por isso, considero que o diferencial não está simplesmente em desenvolver tecnologia para a saúde, mas em desenvolver tecnologia a partir da realidade da saúde.

A escala brasileira pode se transformar em vantagem

Operar em grande escala e sob restrições produz um tipo particular de conhecimento.

Quando gestores precisam constantemente equilibrar demanda, disponibilidade de profissionais, custos e capacidade de atendimento, são obrigados a buscar soluções que utilizem melhor os recursos existentes.

O Brasil acumulou essa experiência. Isso não significa romantizar a escassez.

Fazer muito com pouco não deveria significar aceitar estruturas insuficientes ou transformar sobrecarga em modelo de gestão.

O ponto é outro: se aprendemos durante anos a encontrar eficiência em ambientes pressionados, podemos transformar esse conhecimento em processos, sistemas e tecnologias replicáveis.

É uma mudança de perspectiva importante.

Em vez de enxergar a limitação de recursos apenas como uma fragilidade, podemos identificar o conhecimento que foi desenvolvido para lidar com ela e transformá-lo em inovação.

O próximo ganho de produtividade será inteligência

Durante muito tempo, aumentar a capacidade de uma operação de saúde significava ampliar estruturas físicas, contratar profissionais ou abrir novas unidades.

Esses movimentos continuarão necessários, mas existe outra possibilidade de escala: fazer o conhecimento produzido por uma operação circular por toda a organização.

Uma solução desenvolvida para melhorar determinado processo pode ser replicada em diferentes unidades.

Um indicador capaz de identificar antecipadamente um gargalo pode orientar gestores antes que o problema se agrave. Informações sobre dificuldades recorrentes podem direcionar treinamentos.

Dados produzidos na assistência podem ajudar a organizar melhor recursos e equipes.

Quando isso acontece, a experiência deixa de permanecer apenas com quem enfrentou determinado problema e passa a fazer parte da inteligência da organização.

Acredito que esse seja um dos próximos movimentos importantes da saúde brasileira.

Temos escala, experiência operacional e uma infraestrutura de dados que começa a ganhar dimensão nacional. O desafio é conectar essas capacidades.

Fazer muito com pouco foi uma necessidade construída pelas condições do nosso sistema de saúde.

O próximo passo é transformar aquilo que aprendemos nesse processo em tecnologia, inteligência e novos modelos de gestão.

Se conseguirmos fazer essa transição, eficiência deixará de ser apenas uma resposta à falta de recursos e poderá se tornar uma das fontes de inovação da saúde brasileira.

*Márcio Oliveira é especialista em desenvolvimento de novos negócios na área de saúde, com trajetória voltada à gestão, inovação e estruturação de operações no setor. Farmacêutico-bioquímico de formação e com MBA pela Fundação Getulio Vargas, atua no desenvolvimento de negócios envolvendo serviços médicos, análises clínicas, tecnologia e integração de operações, com experiência na identificação de oportunidades e criação de novos modelos para o mercado de saúde.

Referências

ORGANIZAÇÃO PARA A COOPERAÇÃO E DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO (OCDE). Health at a Glance 2025: OECD Indicators. Paris: OECD Publishing, 2025. Health at a Glance 2025 – OECD

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS). Brasília: Ministério da Saúde. Rede Nacional de Dados em Saúde

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Ministério da Saúde inicia jornada para a Nuvem Soberana do SUS. Brasília, 11 ago. 2026. Ministério da Saúde – Nuvem Soberana do SUS

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