Kleber Galvêas

A panela de barro tradicional é um símbolo da cultura capixaba, a cultura nativa e primitiva de Vitória/ES, para alguns o maior.
Ajuda a vender nosso peixe de primeira qualidade, a lembrar das nossas praias e a encher nossos restaurantes especializados em frutos do mar.
Seu processo de fabricação é patrimônio público, cabe ao governo preservá-lo, mantendo a qualidade das famosas panelas capixabas.
Escolhendo uma boa panela para uso, levamos em consideração:
A cor – negra intensa revela boa imunização. Fungos desintegram o barro que esfarinha.
A espessura – quanto mais fina, melhor a qualidade da matéria prima utilizada.
O formato – panela certinha denuncia uso do torno, baixa densidade do barro e porosidade.
O brilho – mostra que o barro foi comprimido e a goma aflorou.
O som – suspenda a panela com umas das mãos e com os nós dos dedos da outra mão, bata no fundo, se o som for chocho, acusa: rachaduras, ocos, ou queima incompleta da peça.
Algumas panelas de barro produzidas no Espírito Santo estão ficando grossas, com queima incompleta e perdendo a cor negra profunda, tão característica. Isto se deve a fatores que pretendemos apontar.
O barro com boa liga ou goma, está se tornando cada vez mais raro por aqui. A ocupação rápida dos arredores de Vitória restringiu a área de coleta desta matéria prima.
A melhor tabatinga ou batinga foi produzida há cerca de dez mil anos, são sedimentos ricos em sílica e matéria orgânica da última glaciação.
Jazidas aparecem principalmente junto aos rios, lagoas e no litoral.
A queima das panelas em fogueiras a céu aberto muitas vezes é incompleta, são usados refugos da construção civil.
Há pouco tempo a madeira era escolhida na restinga e cortadas aquelas que produzem chamas com grau elevado de calor, como o abano, paraju e a almesca.
Cada madeira revela sua identidade no grau de calor que produz ao queimar, a densidade e composição química varia de acordo com as espécies vegetais.
Quem já cozinhou feijão em fogão à lenha observou esse fato e sabe que não é qualquer madeira que dá conta do recado.
A lenha usada há poucos anos era abundante nas restingas, podia ser escolhida e levada.
Hoje não, o que é muito bom do ponto de vista ecológico, mas ruim para se obter uma boa queima nas fogueiras tradicionais, onde o calor se dissipa.
Persistindo a escassez da boa madeira, acredito que essa etapa do processo de fabricação das panelas, irá evoluir para fornos primitivos que concentrem o calor, tipo os “manilhões” usados no Vale do Jequitinhonha.
Já vi um desses queimando panelas em Cruzeiro do Sul, Cariacica.
Continua…
Kleber Galvêas
Edição, Don Oleari – [email protected] – e Regina Trindade
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