Último aviso: Wilson Côelho | 9/8

último aviso
wilson coelho

Na crônica Galeano, Último aviso aparece no final.

Veja no final do texto quem é o autor.

 

Num trecho da crônica “Dizem as paredes/2”, em “O livro dos abraços”, Eduardo Galeano diz que viu escrito num muro em Bogotá a frase de Marx: “Proletários de todos os países, uni-vos” e acrescenta que, logo embaixo e com outra letra, lia-se “Último aviso”.

Sem cair na armadilha de uma interpretação rasteira do “Esquerdismo: doença infantil do comunismo”, de Lenin, esse registro de Galeano nos convida a uma séria reflexão sobre as passeatas “Fora Bolsonaro” que vêm acontecendo no país.

Apesar das centenas de milhares de participantes, parece que importantes pautas dos protestos têm sido muito tímidas na maioria dessas manifestações como, por exemplo, contra a privatização da Petrobrás, da Eletrobrás, dos Correios, a questão do voto impresso, a presença de milhares de militares das Forças Armadas no governo, a denúncia do centrão, a retomada dos direitos trabalhistas e a reforma da previdência, além de reivindicação da reforma agrária e apoio ao MST.

Obviamente, depois de uma longa estiagem devido à necessidade de isolamento em virtude da pandemia, a esquerda teve que manter uma espécie de resguardo e se limitou a algumas ações parlamentares. Mas desde o momento em que se entendeu, reproduzindo o mote da Colômbia de que “Quando o governo mata mais que o vírus, o povo tem que ir pra rua!”.

E, finalmente, nos conscientizamos pela necessidade da luta ocupando as praças, o mais preocupante foi constatar a grande ausência dos trabalhadores urbanos, os do campo e os operários em geral. Não se trata de atirar fora a água da banheira com o bebê junto, pois são bastante positivas essas ações de retomada da luta popular, inclusive, reconfortante a volta do movimento estudantil e outros segmentos identitários se manifestando.

DETALHES DO ANEXO IMAGEM_NOTICIA_3-1.jpgAo mesmo tempo, assistimos à adesão de diversos partidos se fazendo representados nessas manifestações que, de certa forma, mesmo que aparentemente não se veja uma disputa pelo protagonismo, se divergem no que diz respeito à candidatura de Lula.

No mais, há um problema fundamental em todos esses componentes que até então se apresenta na luta pelo “Fora Bolsonaro” e que não se pode relegar sua importância.

O que não está muito definido é o caráter real de todos esses atos, considerando que a ideia de “Fora Bolsonaro” parece ser uma vontade de uma maioria da nação, até mesmo de uma parcela da burguesia. Mas o simples “Fora Bolsonaro” não dá conta da luta de classes.

Não se pode ir muito longe resumindo a pauta no fora de um determinado político se não for ao mesmo tempo um fora ao capitalismo e à política neoliberal. A luta não se resume em tirar o cargo de alguém que não faz nada além do que cumprir sua tarefa no sistema de uma sociedade dividida em classes estruturada no estado burguês. Não há muita alternativa substituir o ator de uma peça se o espetáculo continua o mesmo, onde a estrutura de palco e plateia permanecem dividida e autoritariamente os mantenha separados. Se se reproduz e garante o mesmo esquema na relação de opressor e oprimido.

O capitalismo sempre se reinventa da forma mais sórdida. Ele é o grande produtor da falsa ideia de crise para explorar os trabalhadores. Falsa crise porque ela não é um acidente de percurso, mas um projeto da burguesia para justificar a colonização, a exploração e o genocídio.

A falsidade da chamada crise, tomando emprestado a teoria de Antonin Artaud no Teatro da Crueldade, ela é decisiva, ou se resolve ou morre e, ainda, pensando em Sigmund Freud, está mais para um sintoma, ou seja, não se cura uma doença, mas apenas se aprende a conviver com ela, “administrá-la”.

Por outro lado, soa anedótico o termo neoliberalismo que a esquerda gosta tanto de combater. Trata-se de uma falácia. Nenhum dos países ricos que apregoam o neoliberalismo o cumprem em suas plagas, principalmente, no que que diz respeito ao estado mínimo. A maioria dos países ricos e imperialistas têm muito mais funcionários públicos do que o Brasil, inclusive, os EUA.

E quando defendem a privatização, isso só tem validade para os países pobres porque, na maioria das vezes em que o Brasil ou outros países pobres, subdesenvolvidos ou em desenvolvimento que – durante a guerra fria eram chamados de “terceiro mundo” – quando se “privatiza” uma empresa estatal, ela é comprada por um outro estado, de outro país. Então, não se trata de uma privatização, mas de uma desnacionalização. Na verdade, o que é chamado de neoliberalismo se dá como uma neocolonização.

Assim como toda revolução é permanente, a colonização da América datada de 1492 ou a do Brasil em 1500 é um blefe, pois o processo de colonização acontece cotidianamente. Todos os dias acordamos com novas ordens de como nos comportar, o que vestir, que credo rezar e o que devemos consumir.

Na mídia, apesar do desencanto com a chamada “grande imprensa”, muitas das supostas “alternativas” não passam de simulacros e de um outro grande engodo, onde muitos se arvoram a disseminar opiniões (doxas) no lugar de ideias como verdade (alétheia). Vivemos um mundo que se sustenta aos apelos às emoções e às crenças pessoais, sem uma necessidade de memória ou verificações dos fatos. Estamos diante de uma galeria de imbecis fazendo culto, desde os incautos e os neófitos até os acadêmicos que em seus discursos não passam de stand-ups, reduzindo a monólogos cômicos as grandes questões.

Voltando às manifestações, por mais que pareçam grandiosas, considerando as aproximadamente 600 mil pessoas nas ruas do país e alguns gatos pingados no exterior, na verdade, são praticamente insignificantes se comparadas com o número de vítimas de Covid-19, ou seja, proporcionalmente um vivo para cada morto. Onde estão os trabalhadores, os operários chamados “chão de fábrica”, a massa?

O Brasil tem nove Centrais Sindicais e mais de onze mil sindicatos de trabalhadores, superando a casa dos dez milhões de filiados. Somos um contingente de 34 milhões com carteira assinada no setor privado e doze milhões de funcionários públicos, ou seja, temos um índice de sindicalização pouco inferior a 20%. Embora pareça pequeno, trata-se de um volume muito expressivo, comparado aos índices internacionais. Também devemos levar em conta os mais de 38 milhões de trabalhadores na informalidade e os 15 milhões de desempregados.

Por mais caótica que se mostre a situação, há um aspecto que deve ser considerado para acirrar a luta de classes onde não há espaço para a conciliação. É preciso ter coragem de colocar na pauta uma proposta de ação revolucionária pelo socialismo, afirmando em alto e bom som que não há mais possibilidades (se é que já houve) de acreditar que as soluções para os problemas no campo econômico, social, humano e da natureza sob os ditames do capitalismo.

A revolução burguesa de 1789 nunca cumpriu e jamais foi de seu interesse cumprir com seus motes de “Liberté, Fraternité et Égalité”.

Nunca tivemos liberdade, fraternidade e igualdade nesse sistema. Nossa luta não pode ser o “laissez-faire”. A luta de classes não pode se orientar e pautar suas ações sob os princípios da livre iniciativa da doutrina mercantilista e, tampouco, ficar refém do estado burguês com a falácia da democracia representativa.

Há que se criar estratégias para uma maior presença de trabalhadores urbanos, incluindo o MTST – Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, e do campo, com participação do MST – Movimento dos Sem Terra, nas manifestações futuras.

Faz-se necessário uma crescente e efetiva organização de comitês de base permanente, círculos sociais de politização, inclusive na periferia, movimentos de resistência e ação para que as manifestações não se resumam em atos folclóricos ou catárticos ou catárticos onde não passamos de atores coadjuvantes da classe média. Evidente que as essas manifestações devam continuar de forma permanente, mas elas por si mesmas não levarão a outro lugar senão ao mesmo da conciliação entre capital e trabalho. Carecemos de maior e mais constante organização e politização para o cotidiano, formação de comitês permanentes de luta e resistência em centros de estudo e trabalho, em bairros, por grupos sociais e cidades.

 borba-gato-24072021170731132.jpegA título de exemplo, paralelamente às manifestações de 24 de julho, houve o ateamento de fogo em torno da estátua de Borba Gato, cuja autoria foi assumida pelo coletivo “Revolução Periférica”. O entregador de aplicativo Paulo Roberto da Silva Lima, conhecido como “Galo”, e sua esposa Géssica foram presos. Há uma espécie de satanização do ato pela direita e por uma parte da esquerda. Esse é um tema que merece uma avaliação inteligente e honesta.

Pela direita, o velho discurso autoritário sobre o vandalismo e o atrevimento do povo e, por alguns setores de esquerda, uma espécie de debate sobre a substância que compõe as penas das asas dos anjos, ou seja, se Borba Gato é ou não um bandeirante de peso para ser combatido, se a estátua é obra de arte ou não e coisas do nível.

Faz-se necessário entender que o ataque à estátua do bandeirante não se trata de um ato isolado num processo revolucionário, aliás, o nome do coletivo “Revolução Periférica” é bem adequado para o momento em que vivemos. Destruir os monumentos que exaltam personagens da escravização de povos afrodescendentes e indígenas é quase uma questão de honra para os povos colonizados.

Precisamos reverter essa mentalidade herdada do pensamento greco-europeu da “pólis”, do centro onde se ditam as políticas, considerando que as periferias é que sustentam as políticas do centro e movimentam sua economia, tanto atuando como mão de obra barata quanto alimentando o papel de consumidores.

Conforme se manifestou Paulo Galo, “O ato que foi feito no Borba Gato foi feito para abrir um debate. Em nenhum momento aquele ato foi feito para machucar alguém ou querer causar pânico na sociedade”. Por outro lado, essa ação contempla uma tendência mundial que coloca o passado em questão, onde a história não pode apenas ser entendida do ponto de vista dos vencedores, principalmente quando se trata de espaços públicos utilizados por interesses privados em prol da hegemonia capitalista.

Nos Estados Unidos, houve a decapitação de Cristóvão Colombo, na Inglaterra a submersão de Edward Colston, na Colômbia, a derrubada de Sebastián de Belalcázar, na Argentina, a retirada dos nomes de todos os ditadores em ruas, escolas, órgãos públicos, etc.

O que mais impressiona é a hipocrisia dos “defensores da ordem” salvaguardando as estátuas de tiranos, pois quando se trata da memória dos oprimidos a postura é outra. Numa madrugada de 1988, 24 horas apenas depois de inaugurado o monumento de Oscar Niemeyer, “Memorial 9 de Novembro”, em homenagem a 3 operários mortos pelas forças do Estado durante greve no mesmo ano, os reacionários explodiram o monumento.

A polícia não fez nada para prender os neofascistas e a mídia quase nada falou. A obra quase toda destruída, ficou assim pois Oscar Niemeyer optou por deixá-la dessa maneira como lembrete de que as conquistas são sempre frágeis e precisam ser vigiadas.

Também, de Oscar Niemeyer, o “Monumento Eldorado Memória”, inaugurado em 1996, em homenagem aos nomes dos pequenos agricultores mortos a mando do Estado nessa época, a serviço dos interesses da elite agrária do Pará, 15 dias depois, ruralistas da região destruírem a obra. Novamente a polícia não fez nada e a mídia foi indiferente. Fora outros eventos dessa natureza que não nos foram noticiados No resumo da ópera, o Estado, a polícia, a mídia e as elites capitalistas estão sempre em defesa da memória de genocidas. E nunca pelos heróis do povo que lutaram por vidas dignas!

Também aqui no Espírito Santo, assistimos por duas vezes o busto de José Martí ser destruído e, pior ainda, em frente da Biblioteca Central da UFES – Universidade Federal do Espírito Santo. Também a do indígena Arariboia, por diversas vezes, depredada no centro da capital. Podemos dizer que são incomensuráveis as ações iconoclastas, tanto dos genocidas quanto dos defensores do povo, sendo que a destruição dos genocidas incomoda a burguesia, a polícia e a mídia, mas as que simbolizam a luta popular coloca toda a classe dominante em polvorosa.

Enfim, nossas manifestações não podem continuar sendo apenas uma alegoria da defesa de um “Fora Bolsonaro”, sem que a verdadeira democracia esteja em seu bojo e que não contenha um projeto assumidamente revolucionário e socialista. “Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos! Último aviso!”

(*) Prof. Dr. Wilson Coêlho Pinto – Poeta, tradutor, palestrante, dramaturgo e escritor com 17 livros publicados. Licenciado e bacharel em Filosofia e Mestre em Estudos Literários pela UFES (Universidade Federal do ES); Doutor em Literatura pela Universidade Federal Fluminense e Auditor Real do Collége de Pataphysique de Paris.
Tem 22 espetáculos montados com o Grupo Tarahumaras de Teatro, com participação em festivais e
seminários de teatro no país e no exterior – Espanha, Chile, Argentina, França e Cuba, ministrando palestras e oficinas.
Também tem participado como jurado em concursos literários e festivais de música.

NEC = Nota do Editor Chefão, Don Oleari – O texto expressa o pensamento do autor. Ilustrações são escolha dele.

Portal Don Oleari não pratica CENSURA. A única coisa inaceitável no www.donoleari.com.br é qualquer descnsideração com a mãezinha do Editor Chefão.

 

Currículo Lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4717800E6
http://wilsoncoelho.blogspot.com/
55 27 99816.7616 – 99286-6623

https://donoleari.com.br/rubens-pontes-don-oleari/

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Don Oleari - Editor Chefão

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Radialista, Jornalista, Publicitário.
Don Oleari Corporeitcham